Capítulo 29 - Sancho encontra o cura
Capítulo 29 - Sancho encontra o cura
Sancho desceu de Serra Morena com a carta de Dom Quixote e uma missão que pesava mais que o asno. Devia encontrar Dulcineia, entregar palavras altas e voltar com sinais precisos de ternura. O problema, que crescia a cada passo, era simples: Sancho não sabia muito bem como transformar Aldonza Lorenzo na dama que o amo esperava. A estrada lhe parecia mais fácil que a mentira necessária.
Enquanto pensava nisso, afastava-se da serra com cuidado. Atrás ficava Dom Quixote, entregue à penitência entre pedras, suspiros e gestos que Sancho preferia não descrever em excesso. À frente ficava Toboso, ou qualquer lugar onde pudesse improvisar uma resposta. O escudeiro já começava a imaginar modos de voltar dizendo que Dulcineia chorara, suspirara e mandara ordens, mesmo sem tê-la visto.
Foi então que encontrou dois conhecidos: o cura e o barbeiro de sua aldeia. Vinham procurando notícias de Dom Quixote, preocupados com a nova saída do fidalgo e com os rastros cada vez mais absurdos de suas aventuras. Quando viram Sancho sozinho, coberto de pó e sem o amo, cercaram-no de perguntas.
Sancho tentou primeiro defender-se com respostas vagas. Disse que o senhor estava em serviço de alta cavalaria, ocupado em negócios de amor e honra. O cura percebeu depressa que havia loucura recente por trás daquelas palavras. O barbeiro, que já conhecia bem o gênero de desvario, quis saber se Dom Quixote estava vivo, ferido ou perdido de vez.
Aos poucos, Sancho contou. Falou dos galeotes, das pedradas, da fuga para Serra Morena, dos papéis encontrados, de Cardenio, da penitência e da carta para Dulcineia. A cada episódio, o rosto do cura alternava espanto e cálculo. O barbeiro balançava a cabeça, talvez imaginando quantas aldeias, vendas, estradas e barbeiros ainda pagariam pelo encantamento dos livros.
Quando Sancho mencionou a carta, o cura pediu para vê-la. O escudeiro procurou entre os pertences e empalideceu. A carta não estava onde devia. Revirou bolsas, panos, arreios, lembranças e desculpas. Nada. Talvez tivesse ficado com Dom Quixote; talvez se perdera na descida; talvez nunca tivesse sido guardada como convinha. Sancho sentiu que a missão inteira escorregava de suas mãos.
O cura não se desesperou. Ao contrário, viu ali uma abertura. Se a carta se perdera, a resposta também poderia ser guiada por eles. O essencial estava em trazer Dom Quixote de volta; levar Sancho a Dulcineia ficava para a história que inventariam. Para isso, seria preciso entrar na lógica da loucura sem enfrentá-la de frente. Arrancar o cavaleiro da serra pela força talvez o quebrasse mais; conduzi-lo por fantasia poderia salvá-lo.
O barbeiro concordou. Já tinham aprendido, na queima dos livros, que a imaginação de Dom Quixote não cedia a argumentos simples. Era preciso oferecer-lhe aventura melhor que a própria penitência. Sancho ouviu com alívio e desconfiança. Gostava da ideia de não ir a Toboso, mas temia qualquer plano que envolvesse inventar mais histórias para curar as histórias antigas.
O cura perguntou por detalhes: onde Dom Quixote ficara, em que estado, o que dizia de Dulcineia, como falava de Cardenio. Sancho respondeu o melhor que pôde, acrescentando que o amo estava tão decidido a sofrer que talvez morresse de teimosia se ninguém o buscasse. Essa informação encerrou a dúvida. Partiriam para Serra Morena, mas preparados.
No caminho, o cura começou a formar um plano. Seria preciso apresentar a Dom Quixote uma necessidade cavaleiresca urgente, algo que o tirasse da penitência sem ferir sua vaidade. Talvez uma dama aflita, talvez um reino ameaçado, talvez um pedido de socorro digno de cavaleiro. O barbeiro, mais prático, pensava em roupas, disfarces e palavras que soassem bastante romanescas.
Sancho, ouvindo, sentiu que entrava em terreno conhecido: mentiras úteis. A diferença era que agora não mentiria sozinho. O cura e o barbeiro, homens de juízo, pareciam dispostos a fabricar uma ficção para salvar o fidalgo da ficção maior. Havia nisso uma ironia que Sancho não saberia explicar, mas que lhe pareceu muito própria de seu amo.
Antes de voltarem à serra, combinaram cautela. Sancho guiaria os dois até perto do lugar onde deixara Dom Quixote. O cura avaliaria o modo de falar com ele. O barbeiro ajudaria na encenação. A carta perdida deixava de ser desastre e virava peça de outro plano. Dulcineia, ausente como sempre, continuava mandando nos acontecimentos sem precisar aparecer.
Assim, Sancho deixou de ser mensageiro de amor e tornou-se guia de resgate. A serra que há pouco o aliviara por ficar para trás agora o chamava de volta. Em algum ponto entre pedras e árvores, Dom Quixote ainda fazia penitência por uma dama que não sabia de nada. E, descendo pela estrada com o cura e o barbeiro, Sancho começou a entender que salvar um homem de sua loucura talvez exigisse entrar nela com cuidado, como quem entra em casa em chamas levando água escondida dentro de uma história.