Capítulo 43 - A venda desperta Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 43 de 133
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Capítulo 43 - A venda desperta

Capítulo 43 - A venda desperta

Depois do fim do Curioso Impertinente, a venda demorou a recuperar seus ruídos. A história de Anselmo, Lotário e Camila ficara suspensa no ar como fumaça amarga. O cura juntou os papéis e ninguém lhe pediu que lesse mais. Até Sancho, que costumava ter fome maior que melancolia, ficou por algum tempo calado, ocupado em mastigar uma moral simples: certas curiosidades saem mais caras que hospedagem ruim.

Doroteia e Lucinda conversaram baixo. Ambas haviam ouvido na narrativa algo que tocava suas próprias feridas, ainda que de modo indireto. Fernando parecia mais recolhido, como se a queda de Anselmo lhe lembrasse que a honra não se recompõe apenas com palavras recentes. Cardenio, ao lado de Lucinda, parecia grato por ter escapado de desfecho tão escuro. A venda ensinava por contraste: algumas histórias terminavam em reparação; outras, em cinza.

Dom Quixote, porém, não suportava por muito tempo uma tristeza sem inimigo visível. Declarou que Anselmo errara por não chamar um cavaleiro andante antes de testar a própria casa. Se houvesse pedido auxílio, disse ele, o mal teria sido cortado pela raiz, Lotário castigado ou corrigido, Camila protegida e a curiosidade submetida a leis de honra. O cura preferiu não explicar que a raiz estava dentro do próprio Anselmo. Há ideias que não entram em capacete fechado.

Sancho, já recuperando sua natureza, disse que, se cada marido curioso chamasse cavaleiro para vigiar mulher, não haveria trigo bastante para alimentar tanta gente armada. O barbeiro riu. O vendeiro, ouvindo aquilo, afirmou que na sua casa não queria cavaleiro vigiando casamento alheio, pois já lhe bastavam os prejuízos de hospedar um só. Dom Quixote ergueu a cabeça, ofendido pela lembrança de contas materiais em momento de tanta elevação moral.

A conversa trouxe a venda de volta ao chão. Panelas bateram, animais reclamaram no pátio, criados circularam. A leitura encerrada devolveu lugar ao movimento comum. Mas todos sabiam que a calma duraria pouco. Aquela estalagem parecia feita para atrair histórias em estado de colisão. Mal uma narrativa terminava, outra já farejava a porta.

Doroteia, ainda sustentando o papel de Micomicona diante de Dom Quixote, perguntou ao cura em voz baixa quanto tempo mais precisariam manter a ficção. O cura respondeu que o essencial era conduzir o fidalgo para longe das estradas abertas. Enquanto a aventura de Micomicão servisse para movê-lo, seria preciso preservá-la. Depois encontrariam forma de recolhê-lo à aldeia. Doroteia aceitou, mas já não escondia o cansaço de ser duas pessoas ao mesmo tempo.

Sancho escutou parte da conversa e entendeu apenas o que interessava: a aventura ainda não acabara. Isso preservava sua ilha imaginária. Aproximou-se de Dom Quixote e perguntou, com cautela, se depois da leitura triste e da refeição talvez fosse hora de tratar dos negócios de Micomicão. O amo aprovou a disposição do escudeiro, mas disse que cavaleiros prudentes não partem sem antes considerar sinais, presságios e condições da princesa.

O barbeiro comentou que, se presságios valessem, a venda inteira avisava para ninguém sair dali sem pagar. O vendeiro gostou da frase e repetiu-a com autoridade. Sancho fingiu não ouvir. Ele tinha memória seletiva para dívidas, uma qualidade indispensável a escudeiros pobres.

Foi então que chegaram novos sinais de movimento na estrada. Vozes ao longe, passos no pátio, rumor de gente que se aproxima sem saber que entra em casa já cheia de enredos. O vendeiro foi olhar. O cura trocou olhar com o barbeiro: qualquer chegada podia desmontar o frágil arranjo em torno de Dom Quixote ou acrescentar nova peça à confusão. Doroteia recompôs o rosto de princesa. Sancho endireitou-se, sempre pronto a parecer importante quando havia testemunhas.

Dom Quixote interpretou o rumor como possível embaixada, desafio ou mensagem do inimigo de Micomicona. Pediu sua espada. O cura apressou-se em dizer que talvez fossem apenas viajantes comuns. O cavaleiro respondeu que os acontecimentos comuns raramente batiam à porta de um castelo onde repousava princesa destronada. Nesse ponto, pelo menos, sua lógica combinava estranhamente com a experiência de todos: naquela venda, nada entrava simples por muito tempo.

Os que estavam ali se prepararam cada um a seu modo. Fernando e Cardenio mantiveram-se atentos, agora unidos por paz recente, mas ainda sensíveis a qualquer ameaça. Lucinda e Doroteia recolheram-se um pouco. O barbeiro procurou posição discreta. Sancho calculou se a chegada traria comida, perigo ou cobrança. O vendeiro calculou camas e despesas. O cura calculou mentiras necessárias.

A leitura do Curioso Impertinente havia terminado, mas deixara uma espécie de vigilância moral. Todos pareciam mais capazes de reconhecer o instante em que uma curiosidade, um disfarce ou uma pequena mentira começa a crescer demais. Pena que reconhecer o perigo nunca impediu completamente aquela companhia de entrar nele. A diferença é que agora estavam mais cansados e talvez um pouco mais sábios.

No pátio, as vozes se aproximaram. As vozes ainda não formavam ameaça clara; traziam promessa de continuidade. A venda, desperta, abriu espaço para outra perturbação. Dom Quixote sorriu como quem sente a aventura retornar ao seu idioma. Sancho suspirou como quem sente as pancadas procurando endereço. O cura guardou os papéis da história lida e voltou os olhos para a porta.

Assim a ação principal retomou seu curso. A ficção lida deixava lugar à ficção vivida; a tragédia de Anselmo cedia espaço à comédia perigosa de Dom Quixote. E a venda, pobre casa de estrada, continuava a fazer o que fazia melhor: juntar sob o mesmo teto a fome, a honra, a mentira, a esperança e a próxima confusão.

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