Capítulo 85 - O retábulo de Melisendra
Capítulo 85 - O retábulo de Melisendra
O retábulo de Maese Pedro abriu-se diante dos hóspedes da venda como pequeno reino de madeira, pano e cordéis. Um menino fazia a narração com voz aguda, enquanto o mestre, escondido, movia as figuras. A história era a de Melisendra, presa em Sansueña por poder de mouros, e de Dom Gaiferos, seu esposo, que enfim saía em busca dela depois de longa demora. Dom Quixote sentou-se na primeira fileira, atento e grave, como juiz de feitos de cavalaria. Sancho ficou perto, mais interessado no macaco e na possibilidade de algum milagre com comida, mas disposto a ver como bonecos podiam render tanta importância.
O menino mostrava Dom Gaiferos sentado, Melisendra na torre, Marsílio no palácio e Carlos Magno irritado com a negligência do cavaleiro. Narrava com ornamento demais, e Maese Pedro o corrigia de tempos em tempos: que falasse com clareza, sem subir onde a história pedia chão. Dom Quixote aprovou o conselho. Gostava de propriedade nos relatos, mesmo quando a própria vida lhe escapava por todos os lados. Quando a narração chegou ao momento em que Melisendra descia da sacada para a garupa de Dom Gaiferos, a venda inteira acompanhou a pequena fuga com gosto de aventura verdadeira. As figuras se moveram, o cavalo partiu, e o menino anunciou perseguição de mouros saídos da cidade.
A certa altura, a narração disse que soavam campanas nas torres de Sansueña. Dom Quixote interrompeu de imediato. Entre mouros, explicou, não se usam campanas, e sim atabales, dulzainas e instrumentos próprios. Maese Pedro pediu que não se prendesse a miudezas, pois as comédias andam cheias de impropriedades e, se agradam ao público, seguem carreira com aplauso. O menino continuou. Anunciou cavaleiros mouros correndo atrás dos amantes, trombetas, tambores, poeira, armas e o perigo de que Dom Gaiferos e Melisendra fossem alcançados e atados à cauda do próprio cavalo. Essas palavras feriram Dom Quixote no lugar onde ficção e dever se misturavam.
O cavaleiro levantou-se de súbito, desembainhou a espada e gritou que não consentiria, em seus dias e diante de seus olhos, violência contra tão famoso cavaleiro e tão atrevida enamorada. Saltou para junto do retábulo e começou a descarregar golpes sobre a tropa mourisca de madeira. Derrubou um, decapitou outro, partiu braços, pernas, coroas, escudos, cavalos e cidades pintadas. Maese Pedro gritava que eram figuras de pasta, mercadoria sua, sustento seu, fazenda sua. Nada deteve o braço de Dom Quixote. Em menos de poucos instantes, o reino inteiro do retábulo caiu em pedaços, com Marsílio ferido, Carlos Magno dividido e a fuga de Melisendra salva ao preço da ruína do titeriteiro.
A venda se alvoroçou. O macaco fugiu pelos telhados. O primo recuou, o pajem empalideceu, o vendeiro levou as mãos à cabeça, e Sancho jurou depois que raras vezes vira seu amo tomado por cólera tão veloz. Dom Quixote, ao fim do estrago, respirou como homem que acaba de impedir grande injustiça. Disse que ali se provava a utilidade dos cavaleiros andantes: sem sua presença, Dom Gaiferos e Melisendra teriam caído nas mãos daqueles inimigos. Maese Pedro, com voz quebrada, respondeu que viva fosse a cavalaria, se quisessem, mas ele ficava pobre, sem reis, sem cavalos, sem galas e talvez sem macaco, tudo por causa de quem dizia proteger órfãos e endireitar agravos.
Dom Quixote começou a despertar para o custo da façanha. Olhou os bonecos no chão e reconheceu que os encantadores, inimigos de sua glória, haviam mudado cavaleiros verdadeiros em figuras de madeira no instante mesmo em que sua espada os alcançava. Ainda assim, a perda de Maese Pedro precisava reparo. Pediu que se avaliassem os danos. O vendeiro e Sancho ajudaram na conta. Maese Pedro apresentou cada peça destruída com tristeza calculada: rei Marsílio, imperador Carlos Magno, Melisendra, Dom Gaiferos, cavalos, mouros, cristãos, cidades e cordames. Dom Quixote concordou em pagar, embora lamentasse que os encantadores sempre escolhessem o bolso alheio como campo de suas burlas.
A indenização foi feita com dinheiro de Sancho, porque o amo raramente trazia recursos à altura de seus compromissos. O escudeiro pagou rangendo por dentro, lembrando que o retábulo de Melisendra entrava agora na mesma conta das hospedagens, pancadas, promessas e aventuras que consumiam sua paciência. Maese Pedro recuperou algum ânimo ao sentir moedas reais onde antes via apenas bonecos quebrados. O macaco acabou voltando, mais sábio talvez que todos, pois fugira no momento em que a fantasia empunhara espada. A venda retomou pouco a pouco o sossego, mas aquela noite ficou marcada como mais uma prova de que, diante de uma história bem contada, Dom Quixote ainda podia saltar da cadeira para corrigir o mundo com aço.