Capítulo 37 - A história encontrada Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 37 de 133
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Capítulo 37 - A história encontrada

Capítulo 37 - A história encontrada

A manhã na venda começou sem armas, o que já parecia milagre. Depois das reconciliações, ninguém tinha pressa de voltar imediatamente à estrada. Fernando e Doroteia precisavam ajustar o que a verdade recuperara; Cardenio e Lucinda ainda caminhavam com o cuidado de quem teme acordar de um sonho bom; o cura e o barbeiro calculavam como manter Dom Quixote quieto até encontrarem modo de levá-lo de volta à aldeia.

Dom Quixote, por sua parte, acordou convencido de que o castelo repousava sob sua proteção. A Princesa Micomicona, isto é, Doroteia, ainda dependia de seu braço, e qualquer demora era apenas preparação para empresa maior. Sancho também acordou dentro de sua própria fantasia: se a aventura continuava, talvez a ilha continuasse. A esperança dele, como certas panelas de venda, resistia mesmo quando ninguém sabia ao certo o que havia dentro.

Foi nesse intervalo que o vendeiro, querendo mostrar serviço e talvez distrair hóspedes perigosamente emotivos, mencionou uns papéis guardados na casa. Tinham sido esquecidos por algum viajante, ou deixados em mala antiga, ou simplesmente achados entre objetos que a venda acumulava como se recolhesse pedaços de todas as estradas. O cura, sempre atento a livros e escritos, pediu para vê-los.

O vendeiro trouxe um maço de folhas gastas. Os papéis não tratavam de cavalaria, para alívio do cura, nem de contas de hospedagem, para alívio de Sancho. Havia ali uma história ordenada, escrita com cuidado, falando de amizade, casamento, desejo, confiança e prova. O título, quando lido em voz alta, despertou curiosidade: parecia tratar de um homem curioso demais para o próprio bem.

O cura examinou as primeiras páginas. A escrita tinha arte suficiente para prender ouvintes e perigo suficiente para interessá-los. Depois de tantas histórias vividas e mal vividas naquela venda, a ideia de ouvir uma história alheia pareceu quase descanso. A dor real de Doroteia, Lucinda, Cardenio e Fernando ainda estava fresca; talvez uma narrativa externa desse a todos algum espaço para respirar sem abandonar o tema das paixões humanas.

Fernando aprovou a leitura. Lucinda e Doroteia sentaram-se próximas, não como rivais, mas como mulheres que acabavam de sair da mesma tempestade por lados diferentes. Cardenio ficou junto de Lucinda, silencioso. O barbeiro acomodou-se satisfeito. O vendeiro, orgulhoso de possuir coisa que interessava ao cura, esqueceu por um instante as contas. Até Sancho aceitou ouvir, desde que a leitura não atrasasse comida.

Dom Quixote perguntou se a história continha cavaleiros, castelos, gigantes ou princesas perseguidas. O cura respondeu que continha perigos de outro tipo: os que nascem dentro das casas, entre amigos, maridos e esposas. O cavaleiro franziu o cenho, como quem não sabe se isso merece espada. Doroteia, com prudência de Micomicona, disse que todo cavaleiro sábio devia conhecer também as batalhas do coração. Dom Quixote aceitou, porque vindo de princesa a frase soava quase lei.

O grupo se organizou. A venda, que antes fora campo de pancadas, tribunal improvisado e castelo imaginário, transformou-se em sala de escuta. Do lado de fora, a estrada seguia chamando viajantes; dentro, as pessoas se reuniam em torno de folhas encontradas. Era como se a própria casa, cansada de tantas aventuras sofridas, pedisse por algumas horas de voz contínua, sem correria.

O cura começou a ler. As primeiras linhas apresentavam dois amigos ligados por confiança profunda, desses vínculos que parecem tão firmes que ninguém imagina testá-los. Mas justamente aí, na vontade de provar o que deveria permanecer livre de prova, nascia a ameaça. O texto falava de amor e suspeita com uma sobriedade que fez Doroteia baixar os olhos. Lucinda ouviu com atenção. Fernando, talvez por consciência recente, ficou mais sério.

Sancho tentou acompanhar a lição moral e concluiu, rapidamente, que quem tem mulher honrada, amigo leal e casa quieta não deveria inventar testes. Era uma sabedoria que lhe parecia evidente. O barbeiro concordou. Dom Quixote, porém, via a questão por outro lado: se havia prova, talvez houvesse aventura; se havia honra em risco, talvez houvesse campo para defesa. O cura notou a inclinação e leu com mais firmeza, esperando que a própria narrativa ensinasse onde a espada não alcança.

A cada trecho, a venda se aquietava mais. O som da voz do cura cobria rangidos, passos e pequenas inquietações. A história encontrada começava a funcionar como espelho deslocado: não falava diretamente de Fernando e Doroteia, nem de Cardenio e Lucinda, mas todos reconheciam nela alguma dobra do desejo, da confiança e do dano causado quando se transforma amor em experimento.

Dom Quixote permaneceu sentado por algum tempo, o que os sensatos contaram como vitória. Sancho, vendo o amo contido, relaxou. Doroteia sustentava ainda a dignidade de princesa, mas já podia ouvir como Doroteia. Lucinda escutava como quem mede o preço de ser provada por vontades alheias. Cardenio, que conhecia bem o estrago da suspeita e da intervenção, apertou discretamente as mãos.

Assim a venda abriu espaço para uma aventura sem movimento. Nenhum cavalo partia, nenhuma lança se erguia, nenhuma janela escondia pancada. Ainda assim, havia perigo nas palavras. A história encontrada prometia mostrar que certas loucuras não precisam de armadura para causar ruína; bastam inteligência mal dirigida, curiosidade soberba e desejo de controlar aquilo que só vive quando é confiado.

O cura continuou a leitura, e todos, por motivos diferentes, escutaram. Por algumas horas, Dom Quixote foi mantido dentro de uma ficção alheia. Esse desvio parecia bom sinal. Naquela venda, onde cada um trouxera uma história quebrada, outra história começava a ser contada. E, como tantas vezes acontece, ninguém sabia ainda se ouvir a queda dos outros ajudaria a evitar a própria.

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