Capítulo 23 - O elmo de Mambrino
Capítulo 23 - O elmo de Mambrino
Depois dos pisoeiros, Dom Quixote seguia com a dignidade de quem precisava reencontrar depressa uma aventura verdadeira. Sancho, ainda lembrando o riso que lhe custara pancadas, mantinha uma prudência trabalhada: olhava o mundo com atenção e segurava a língua sempre que podia. A manhã vinha úmida, com nuvens baixas, e a estrada brilhava em alguns pontos como se tivesse sido lavada pela noite.
Ao longe apareceu um homem montado em asno, vindo pela mesma estrada. Trazia algo reluzente sobre a cabeça, objeto que piscava ao sol entre as gotas da chuva. Era um barbeiro de aldeia, que, para proteger-se da água, pusera sobre a cabeça a bacia de latão usada em seu ofício. A bacia, polida e molhada, refletia a luz como se carregasse dentro dela um pequeno incêndio amarelo.
Dom Quixote parou Rocinante. Seus olhos se acenderam. Disse a Sancho que enfim a fortuna se mostrava generosa: ali vinha o famoso elmo de Mambrino, peça encantada, de valor incomparável, desejada por cavaleiros antigos. Aquele brilho não podia pertencer a coisa vulgar. Era sinal de destino.
Sancho apertou a vista. Viu um homem simples, um asno simples e uma bacia muito simples, embora reluzente. Teve vontade de dizer isso com todas as letras, mas lembrou-se dos pisoeiros e escolheu palavras menos perigosas. Comentou que talvez o tal elmo estivesse meio parecido com bacia de barbeiro. Dom Quixote respondeu que a ignorância costuma diminuir as maravilhas, e que encantadores podiam disfarçar objetos grandes sob formas humildes.
O barbeiro vinha tranquilo, mais preocupado com a chuva do que com a glória. Quando viu aquele cavaleiro magro avançar de lança em riste, perdeu toda curiosidade sobre o motivo. Dom Quixote gritou que largasse o elmo conquistado por meios indignos, ou se preparasse para combate. O barbeiro entendeu apenas a lança, a pressa e a ameaça. Saltou do asno e correu pelo campo, deixando para trás a bacia e o animal.
Dom Quixote não precisou lutar. Tomou a fuga como confissão e recolheu a peça com solenidade. Virou a bacia nas mãos, examinou o brilho, lamentou que faltasse parte do encaixe próprio de um elmo, e logo explicou a falha: algum possuidor anterior a teria cortado ou deformado por ignorância. Ainda assim, a essência encantada permanecia. Pôs a bacia na cabeça da melhor maneira possível.
Sancho olhou a cena e sentiu a realidade balançar, como sempre acontecia perto do amo. A bacia ficava torta, ridícula e resplandecente. Parecia proteger mais a imaginação de Dom Quixote do que seu crânio. O escudeiro, porém, aprendeu a negociar com o delírio. Disse que, se era elmo, era elmo estranho; se era bacia, era bacia de grande proveito. Em todo caso, o objeto era deles.
Havia ainda o asno do barbeiro, melhor equipado que o pobre animal de Sancho em alguns pontos. O escudeiro, lembrando perdas, pancadas e injustiças da estrada, pediu licença para trocar alguns arreios e aproveitar o que fora abandonado. Dom Quixote permitiu, julgando que os despojos de uma vitória justa podiam servir a seu companheiro. Sancho aceitou a autorização com alegria prática: há momentos em que a cavalaria, mesmo confusa, produz bons resultados.
Enquanto Sancho examinava os arreios, Dom Quixote discursava sobre Mambrino, encantamentos e a honra de recuperar peças famosas. Dizia que aquele elmo, restaurado, completaria sua figura de cavaleiro e aumentaria o terror de seus inimigos. Sancho pensou que, se os inimigos fossem barbeiros, talvez funcionasse muito bem. Guardou o comentário para si.
O barbeiro, de longe, observava escondido e indignado. Não tinha coragem de voltar para enfrentar o cavaleiro, mas também não tinha como aceitar em paz que sua bacia e parte de seus apetrechos fossem transformados em tesouro de romance. Para ele, não havia elmo, encantamento nem honra: havia roubo com vocabulário elegante.
Dom Quixote e Sancho retomaram a estrada. O cavaleiro seguia satisfeito, a bacia brilhando torta sobre a cabeça, como se o próprio sol confirmasse sua fantasia. Sancho vinha atrás, dividido entre o riso e a vantagem dos arreios novos. A cada passo, olhava o elmo-bacia e pensava que talvez o mundo do amo fosse perigoso, mas de vez em quando deixava sobras aproveitáveis.
Assim a aventura terminou sem sangue, mas não sem consequência. Dom Quixote ganhara o elmo de Mambrino; Sancho ganhara algum conforto; o barbeiro perdera a bacia; e a estrada ganhara mais uma prova de que, nas mãos daquele cavaleiro, qualquer objeto comum podia ser promovido a destino.