Capítulo 11 - Os cabreiros e a Idade de Ouro Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 11 de 133
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Capítulo 11 - Os cabreiros e a Idade de Ouro

Capítulo 11 - Os cabreiros e a Idade de Ouro

A noite fechou-se sobre a serra com uma rapidez que parecia vir do próprio chão. Dom Quixote e Sancho chegaram as cabanas dos cabreiros cansados, feridos e famintos, trazendo atrás de si o peso das ultimas aventuras: a carruagem, o biscainho, a orelha cortada, a ilha sempre prometida e sempre adiada. Para Sancho, qualquer teto era agora sinal de misericordia. Para Dom Quixote, até uma cabana podia converter-se em sala nobre, desde que a imaginação se sentasse primeiro.

Os cabreiros receberam os viajantes com a simplicidade de quem não tinha muito, mas sabia repartir o pouco. Estenderam peles no chão, aproximaram-nos do fogo e ofereceram aquilo que havia: leite, queijo, bolotas e carne rustica. Sancho olhou para a comida com gratidão imediata. Dom Quixote, embora ferido e com fome, tratou a ceia como se fosse banquete digno de reis antigos.

Sentaram-se todos em volta das chamas. Os homens da serra falavam pouco, medindo os estranhos com curiosidade discreta. Sancho comeu com a concentracao de quem não confia em promessas futuras quando existe comida presente. Dom Quixote observava a cena como se cada rosto iluminado pelo fogo confirmasse uma verdade antiga: havia mais honra naquela pobreza compartilhada do que em muitas cortes cheias de metal, perfume e mentira.

O cavaleiro pediu que Sancho se sentasse ao seu lado, não atrás nem abaixo, mas junto dele. Disse que todos os que pertenciam a ordem da cavalaria andante eram iguais em dignidade, e que seu escudeiro devia participar daquela mesa como companheiro de fadigas. Sancho obedeceu, embora preferisse comer sem discursos. A igualdade lhe parecia bela, mas menos urgente do que o queijo.

Quando viu as bolotas diante de si, Dom Quixote pareceu entrar por outro tipo de porta. Pegou algumas na mão e ficou olhando para elas como se fossem relíquias. Então começou a falar da Idade de Ouro, tempo distante em que, segundo os poetas, os homens não conheciam o teu e o meu, a terra dava seus frutos sem ser ferida pelo arado, e ninguém precisava de leis porque a inocência ainda bastava para governar a vida.

Falava com solenidade, e o fogo ajudava. As sombras alongavam seu rosto magro, a ferida na orelha parecia selo de martirio, e até os cabreiros, que talvez não entendessem metade do discurso, perceberam que aquele homem habitava uma região diferente da conversa comum. Dom Quixote dizia que naquele tempo as fontes eram claras, as árvores generosas, as pastoras andavam livres e seguras, e o amor não precisava esconder-se atrás de interesse ou violência.

Depois comparou esse mundo perdido ao presente. Agora, disse ele, a malicia obrigava as donzelas a se guardarem; a cobica fazia cercas; a justiça precisava de armas; e os cavaleiros andantes existiam justamente porque a inocência se quebrara. Se antes bastava viver, agora era preciso defender. Se antes a verdade andava nua pelos campos, agora precisava de escudo, lança e nome.

Sancho mastigava devagar, tentando descobrir se a Idade de Ouro tinha também bom vinho e camas macias. Não ousou interromper. Conhecia aquele tom do amo: era o som de uma estrada interior por onde Dom Quixote caminhava sozinho, mesmo cercado de gente. Os cabreiros ouviam em silêncio, mais por cortesia do que por compreensao, mas a cortesia já era muito naquela noite.

Havia algo belo e desconcertante na fala. Dom Quixote, que causava desordem quando tentava consertar o mundo com a espada, parecia por um instante acertar o centro da dor humana. O mundo realmente perdera alguma coisa. Talvez não tivesse havido uma idade perfeita, talvez a memória dos poetas exagerasse, mas era verdade que os homens viviam agora cercados de medo, posse, suspeita e necessidade de defesa.

Quando terminou, os cabreiros agradeceram como puderam, sem saber se tinham recebido uma lição, uma bênção ou apenas a fala de um homem muito estranho. Para retribuir, um deles chamou um rapaz que sabia cantar. O jovem trouxe seu instrumento e ofereceu versos simples, desses que não pretendem vencer o tempo, apenas acompanhar uma noite.

A música caiu sobre o grupo com suavidade. Sancho relaxou, satisfeito por a conversa ter descido de volta a coisas que não exigiam governo de ilha nem entendimento filosofico. Dom Quixote ouviu com gravidade, como se cada canção confirmasse que a poesia ainda resistia entre os homens comuns. Os cabreiros, orgulhosos do próprio cantor, sorriam dentro da luz instável do fogo.

Depois da ceia, trataram melhor a ferida do cavaleiro. Um dos cabreiros, mais pratico que todos os discursos, aplicou folhas mastigadas e um curativo rude sobre a orelha ferida. Dom Quixote aceitou o cuidado sem abandonar a pose, mas a dor lhe arrancou algumas contrações discretas. Sancho reparou nelas e guardou para si o comentário, porque até um escudeiro aprende quando o silêncio cura mais do que a verdade.

A noite se acomodou em volta das cabanas. Pela primeira vez em muitos dias, a aventura não terminava em pancada nem fuga. Havia comida, fogo, música e uma hospitalidade sem perguntas demais. Dom Quixote transformara bolotas em prova de uma idade perdida; Sancho transformara a mesma mesa em descanso; os cabreiros, sem saber, tinham recebido em sua pobreza uma das grandes fantasias da literatura.

Mas a serra ainda guardava outras histórias. Antes que a noite acabasse de fechar os olhos, sinais de tristeza começaram a rondar a conversa dos pastores. Falava-se de um estudante morto de amores, de uma mulher bela chamada Marcela e de um enterro que aconteceria no dia seguinte. Dom Quixote escutou o nome da pastora como quem sente ao longe o chamado de nova causa. A Idade de Ouro mal terminara de ser louvada, e o mundo real já batia a porta outra vez.

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