Capítulo 77 - A casa de Dom Diego Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 77 de 133
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Capítulo 77 - A casa de Dom Diego

Capítulo 77 - A casa de Dom Diego

A casa de Dom Diego de Miranda era ampla, limpa e própria de aldeia rica. Trazia armas de pedra sobre a porta, pátio com bodega, cova fresca para mantimentos e muitas tinajas ao redor. Ao vê-las, Dom Quixote lembrou-se de El Toboso e de Dulcineia, pois aquelas grandes vasilhas de barro lhe devolveram o nome da senhora encantada com força súbita. Suspendeu a voz em versos lembrados de Garcilaso e saudou as tinajas como prendas que lhe traziam doçura e amargura. Doña Cristina, mulher de Dom Diego, e Dom Lorenzo, filho do casal, saíram para receber o hóspede. Ambos ficaram presos entre cortesia e espanto, porque jamais lhes chegara à casa figura semelhante: cavaleiro magro, armas sujas, fala elevada e fama impossível.

Dom Diego apresentou-o como o mais valente e discreto cavaleiro do mundo. A senhora recebeu Dom Quixote com urbanidade, e ele respondeu com razões tão medidas que por um momento a estranheza diminuiu. Sancho ajudou o amo a desarmar-se. O cavaleiro ficou em trajes simples, manchados pelo uso das armas, e lavou rosto e cabeça com água bastante para que ainda se visse nela o rastro dos requeijões de Sancho. Vestiu capa parda, ajeitou a espada e apareceu em outra sala, onde Dom Lorenzo o esperava para conversar enquanto se preparava a mesa. Nesse intervalo, Dom Diego advertiu o filho: o hóspede fazia coisas de louco completo, mas dizia razões tão boas que confundia qualquer juízo apressado.

Dom Lorenzo resolveu tomar-lhe o pulso. Dom Quixote começou elogiando a inclinação poética do moço, e Dom Lorenzo respondeu com humildade, dizendo que gostava de versos sem pretender grandeza. O cavaleiro aprovou a modéstia, embora observasse que poucos poetas deixam de acreditar, no fundo, que ocupam lugar mais alto do que os demais. Perguntou que versos trazia em mãos e ofereceu conselho para justas literárias: o primeiro prêmio costuma sofrer influência de favor, nome ou posição; o segundo muitas vezes se aproxima mais da justiça; e o terceiro pode valer mais que ambos, quando a sentença nasce torta. Dom Lorenzo sorriu, percebendo que ali havia loucura armada e também experiência fina sobre vaidade humana.

O moço perguntou que ciências Dom Quixote estudara. O cavaleiro respondeu que estudara a cavalaria andante, ciência que abraça muitas outras. Quem a professa deve saber leis para dar a cada um o que lhe cabe, teologia para defender a fé, medicina de ervas para curar feridas nos despovoados, astronomia para conhecer horas e caminhos pelas estrelas, matemática para ocasiões de medida e cálculo, além de nadar, ferrar cavalo, reparar sela, guardar fidelidade a Deus e à dama, ser casto no pensamento, honesto na palavra, liberal na obra, valente no perigo, paciente no trabalho e defensor da verdade ainda que a vida se perca nesse serviço. Dom Lorenzo ouviu tudo e concluiu em silêncio que a loucura do hóspede tinha intervalos muito luminosos.

Chamaram-nos para comer. A mesa confirmou o que Dom Diego dissera sobre seus costumes: abundância sem grosseria, limpeza sem ostentação e silêncio quase monástico. Sancho apreciou aquela casa como homem que encontra porto depois de muitos dias de vento ruim. Depois da refeição, Dom Quixote pediu a Dom Lorenzo que recitasse a glosa preparada para a justa. O jovem aceitou e disse versos sobre o desejo impossível de devolver o passado ao presente, sobre fortuna perdida e temor do que virá. Dom Quixote ergueu-se ao fim, tomou-lhe a mão e o louvou com entusiasmo. Declarou que merecia coroa de poeta em academias antigas e modernas, e pediu ainda versos maiores para medir por inteiro seu engenho.

Dom Lorenzo, embora julgasse o cavaleiro fora de prumo, sentiu a força agradável do elogio. Recitou então um soneto sobre Píramo e Tisbe, o muro, a fenda, o amor e a morte dos amantes. Dom Quixote ouviu com atenção verdadeira e voltou a bendizer o talento do rapaz. Pai e filho se admiravam da mistura que tinham diante dos olhos: o mesmo homem capaz de falar dos leões como adversários enviados por encantadores sabia reconhecer boa poesia, aconselhar estudo e distinguir favor de mérito. Durante quatro dias ficou Dom Quixote naquela casa, bem tratado, limpo, alimentado e recebido com respeito. Sancho aproveitou cada refeição como se quisesse guardar no corpo reserva contra todos os alforjes pobres do futuro.

Ao cabo desses dias, Dom Quixote pediu licença para partir. Disse que cavaleiro andante não deve entregar-se por muito tempo ao regalo, pois seu ofício pede estrada, risco e serviço. Pretendia buscar novas aventuras até chegarem as justas de Zaragoza, e antes desejava visitar a cova de Montesinos, de que se contavam maravilhas por toda a região, além de conhecer a origem das lagoas de Ruidera. Dom Diego e Dom Lorenzo ofereceram casa, bens e amizade. Na despedida, Dom Quixote aconselhou o jovem poeta: se quisesse chegar depressa ao templo da Fama, podia deixar a poesia e tomar a estreitíssima vereda da cavalaria; se continuasse poeta, ouvisse parecer alheio, porque pais e autores raramente enxergam feiúra nos filhos do próprio entendimento. Com licença de Doña Cristina, partiram ele e Sancho, o cavaleiro feliz por voltar ao caminho e o escudeiro triste por deixar mesa tão segura.

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