Capítulo 127 - A noite dos porcos
Capítulo 127 - A noite dos porcos
A noite estava escura, embora a lua andasse no céu por lugar onde pouco ajudava. Dom Quixote dormiu apenas o primeiro sono; Sancho, como de costume, entregou-se ao descanso inteiro. As preocupações do cavaleiro logo o despertaram, e ele acordou o escudeiro para censurar a liberdade de sua condição. Enquanto Dom Quixote velava, chorava e jejuava, Sancho dormia, cantava e às vezes ficava pesado de tão satisfeito. Pediu-lhe então, com rogo em vez de força, que se afastasse um pouco e se desse trezentos ou quatrocentos açoites pela conta de Dulcineia. Depois, prometia, passariam o resto da noite cantando, já em ensaio da vida pastoril: ele a ausência, Sancho a firmeza.
Sancho recusou o programa com argumentos de sono. Não era religioso para levantar-se no meio da noite e disciplinar o próprio corpo, nem via caminho natural entre dor de açoite e música. Pediu que o deixassem dormir, sob pena de jurar que nunca tocaria sequer no pelo do gibão, quanto menos nas carnes. Dom Quixote chamou-o de alma endurecida e lembrou que por ele Sancho fora governador e ainda podia ser conde quando o ano passasse. Sancho respondeu que, enquanto dormia, não tinha medo, esperança, trabalho nem glória. Louvou o sono como capa de todos os pensamentos humanos, comida contra a fome, água contra a sede, fogo contra o frio e moeda comum que igualava pastor e rei. Dom Quixote admirou a elegância do discurso, e Sancho logo notou que o amo também deixava cair refrões quando lhe convinha.
A conversa foi cortada por ruído surdo e áspero que crescia pelos vales. Dom Quixote pôs mão à espada; Sancho escondeu-se junto ao rucio, protegido pela albarda e pelo fardo das armas. Vinham mais de seiscentos porcos conduzidos para uma feira, grunhindo, bufando e correndo com tal pressa que nem cavaleiro nem escudeiro entenderam a tempo o que se aproximava. A piara passou por cima de tudo: derrubou Dom Quixote, Sancho, Rocinante e o rucio; espalhou armas, albarda e provisões; deixou no chão mais confusão que batalha. Sancho levantou-se pedindo a espada para matar meia dúzia daqueles senhores descomedidos. Dom Quixote o conteve, aceitando o vexame como pena de seu pecado e castigo devido a cavaleiro andante vencido.
Sancho observou que, se o céu castigava cavaleiros vencidos com porcos, também castigava escudeiros com fome, moscas e piojos sem que eles tivessem culpa de parentesco. Perguntou o que tinham os Panças com os Quixotes e propôs dormir o pouco que restava da noite. Dom Quixote, incapaz de repousar, disse que daria saída aos pensamentos num pequeno canto composto de memória. Sancho respondeu que pensamentos capazes de fazer versos não deviam ser muitos e dormiu de novo como quem não deve nada a fianças, tristezas ou pancadas. O cavaleiro, encostado a uma árvore, cantou versos sobre amor, morte e vida, acompanhados de suspiros e lágrimas, pois a derrota na praia e a ausência de Dulcineia ainda lhe feriam o ânimo.
Ao amanhecer, Sancho viu o estrago dos porcos nas provisões e lançou contra a piara maldições que preferiu não medir. Voltaram ao caminho e, perto do fim da tarde, avistaram dez homens a cavalo e alguns a pé, todos armados com lanças e adargas. Dom Quixote disse que, se pudesse usar as armas e se a promessa não lhe prendesse os braços, tomaria aquela gente por coisa fácil; preso à palavra, só lhe restava esperar. Os cavaleiros chegaram em silêncio, rodearam-no e puseram lanças diante de seu peito e costas. Um dos homens fez sinal para que calassem, tomou o freio de Rocinante e tirou-o do caminho; outros conduziram Sancho e o rucio, picando-os quando tentavam falar. A noite fechou, o passo acelerou e os prisioneiros ouviram insultos de nomes estranhos, como trogloditas, antropófagos e Polifemos, que Sancho entendia tortamente e temia por inteiro.
Dom Quixote procurava achar sentido nos nomes e nos gestos, e de todos tirava pouca esperança. Depois de quase uma hora de noite, chegaram a um castelo que ele reconheceu: era o dos duques. A lembrança não o tranquilizou. Naquela casa tudo fora cortesia, sim, mas para vencidos o bem podia virar mal e o mal, coisa pior. Entraram no pátio principal e o acharam preparado com aparato tão estranho que a admiração dos dois cresceu junto do medo. Luzes, silêncio, gente ordenada e sinais de cerimônia anunciavam que a aventura dos porcos fora apenas entrada para burla maior. Dom Quixote e Sancho, sem armas de defesa e sem licença para perguntas, ficaram entregues à máquina que os esperava.