Capítulo 26 - Na Serra Morena
Capítulo 26 - Na Serra Morena
Serra Morena recebeu Dom Quixote e Sancho com aspereza. Depois das pedradas dos galeotes, a serra parecia menos paisagem que refúgio necessário. Havia caminhos torcidos, pedras soltas, arbustos duros e uma solidão capaz de engolir vozes. Sancho olhava para trás a cada ruído, temendo que guardas, galeotes ou qualquer outra consequência viesse cobrar a aventura anterior.
Dom Quixote, embora ferido, via na serra um lugar próprio para cavaleiros perseguidos por injustiças e encantadores. Dizia que muitos heróis antigos haviam escolhido montanhas para provar constância, sofrer por suas damas e preparar feitos maiores. Sancho, mais modesto, achava que montanhas serviam para esconder gente que fizera coisa perigosa demais perto da estrada real.
Subiram por veredas cada vez mais estreitas. Rocinante tropeçava com nobreza cansada; o asno, mais sensato, escolhia os passos com cuidado. A fome voltava a rondar. O silêncio era cortado apenas por pássaros, vento e pelo murmúrio distante de água entre pedras. Aos poucos, a serra apagou a estrada atrás deles.
Foi Sancho quem primeiro viu algo estranho junto a umas rochas: uma mala velha, rasgada, meio escondida entre mato e pedra. Perto dela havia roupas abandonadas, algum dinheiro espalhado, folhas soltas e sinais de que alguém estivera ali em grande desordem. O achado acendeu em Sancho uma alegria prática. Se o mundo lhes tirava provisões e couro, talvez agora devolvesse alguma coisa esquecida por outro infeliz.
Dom Quixote mandou que examinassem tudo com respeito, pois objetos perdidos em solidão costumam trazer histórias. Entre os papéis havia versos, cartas e lamentos escritos por mão agitada. Falavam de amor traído, amizade quebrada, honra ferida e uma mulher chamada Lucinda. As palavras não vinham inteiras como confissão tranquila; pareciam pedaços de alma arrancados às pressas.
Sancho entendeu pouco dos versos, mas reconheceu sofrimento quando ele se repetia demais. Dom Quixote, por sua vez, ficou profundamente atento. Amor infeliz, serra deserta, papéis abandonados: tudo anunciava aventura de alto valor sentimental. Talvez ali houvesse algum cavaleiro, pastor ou nobre enlouquecido por amor, como nos livros que tanto o guiavam.
Seguindo sinais pelo terreno, encontraram pegadas confusas, marcas de pés descalços e restos de comida mal tocada. Mais adiante, um pastor da região apareceu com cautela. Vendo que não eram ladrões comuns, contou que havia por ali um homem estranho, ora manso, ora furioso, vestido em farrapos, capaz de falar com grande cortesia e logo depois desaparecer entre as pedras como animal assustado.
O pastor disse que esse homem às vezes surgia pedindo comida, outras vezes atacava quem tentava ajudá-lo. Tinha modos de pessoa bem-nascida, mas a mente partida por alguma dor. Chamavam-no, quando conseguiam nomeá-lo, de Cardenio. Ninguém sabia toda a história. Sabiam apenas que falava de Lucinda, de um amigo traidor e de uma desgraça que o empurrara para a serra.
Dom Quixote se iluminou com interesse. A loucura de outro homem parecia-lhe espelho e convite. Se Cardenio enlouquecera por amor, talvez merecesse socorro de cavaleiro. Se fora traído, talvez houvesse injustiça a reparar. Sancho, ouvindo falar de homem que atacava benfeitores, lembrou-se dos galeotes e preferiu manter distância prudente de todos os ingratos, apaixonados ou não.
Continuaram subindo até encontrar, de longe, uma figura entre rochas. Era um homem magro, de barba crescida, roupas rasgadas e postura inquieta. Parava, andava, voltava, como se conversasse com lembranças invisíveis. Por um instante pareceu nobre; no instante seguinte, selvagem. A serra inteira parecia caber naquele corpo dividido.
Dom Quixote quis aproximar-se de imediato. Sancho segurou-o com cuidado, lembrando que até tristezas elegantes podem ter mãos fortes. O pastor aconselhou prudência. Cardenio podia falar com doçura, mas bastava uma palavra errada para que se transformasse. O nome de Lucinda, especialmente, parecia abrir nele ferida viva.
Ficaram observando. Cardenio levou as mãos à cabeça, murmurou algo que o vento quebrou, depois desapareceu por trás de um rochedo. Restaram os papéis, os versos e a sensação de que Serra Morena escondia uma história mais funda que todas as pancadas da estrada.
Dom Quixote decidiu que não sairiam dali sem entender aquela desventura. Sancho suspirou. Tinham fugido de guardas e galeotes para encontrar um louco amoroso entre montanhas. A estrada mudava de cenário, mas não de costume: sempre havia alguém perdido, e seu amo sempre acreditava ter sido chamado para resolver a perda.