Capítulo 49 - O ouvidor na venda Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 49 de 133
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Capítulo 49 - O ouvidor na venda

Capítulo 49 - O ouvidor na venda

A história do cativo deixou a venda em silêncio por algum tempo. Ninguém ali, nem mesmo os que tinham chegado por acaso, conseguiu voltar imediatamente aos pequenos cuidados da noite. Zoraida permanecia recolhida junto das mulheres, ainda sem possuir todas as palavras daquela terra, mas entendendo bastante para perceber que seu nome passara de boca em boca com respeito. O cativo, cansado de narrar tanto sofrimento, parecia mais leve e mais ferido ao mesmo tempo, como se tivesse tirado o peso dos ombros apenas para vê-lo inteiro diante dos outros.

O cura louvou a constância do homem e a coragem da mulher que o acompanhava. Doroteia olhou para Zoraida com uma ternura especial, pois também conhecia o peso de ter a própria vida julgada por vozes alheias. Cardenio e Lucinda escutavam como quem reconhece, em uma desventura estrangeira, a mesma matéria de que se fazem as dores proximas. Sancho, que nunca perdia completamente o senso pratico, achava tudo muito admirável, mas também calculava se histórias tão compridas atrasavam ou ajudavam a prometida conquista do reino de Micomicona.

Dom Quixote, por sua vez, recebeu o relato como prova nova de que o mundo ainda estava cheio de cativeiros, princesas ocultas, mouros, traições, resgates e conversões. Para ele, a venda deixara de ser uma simples casa de caminho e virara um castelo onde a Fortuna reunia, sob um mesmo teto, todos os fios que um cavaleiro andante devia desembaraçar. O vendeiro, mais acostumado a contas que a mistérios, via apenas que sua casa estava cheia demais e que, se continuassem chegando pessoas, faltariam camas antes que faltassem histórias.

Mal essa ideia lhe passara pela cabeça, ouviu-se do lado de fora o rumor de nova comitiva. Entraram criados, animais, malas e vozes fatigadas de viagem. No meio deles vinha um homem de aspecto grave, bem vestido sem ostentação, trazendo consigo uma jovem de rara delicadeza. Chamavam-no de ouvidor, homem de leis e cargo, acostumado a medir palavras antes de entregá-las ao mundo. A moça, sua filha, chamava-se Clara, e vinha tão recolhida que parecia querer cruzar a venda sem que a noite a notasse.

O vendeiro, vendo a qualidade dos recem-chegados, apressou-se em oferecer o que ainda podia. A casa, porém, já estava tomada por Dom Quixote, Sancho, o cura, o barbeiro, Doroteia, Fernando, Lucinda, Cardenio, o cativo, Zoraida e outros que compunham aquela assembleia improvável. Comecaram então as acomodações possíveis: uma cama cedida, um canto dividido, uma promessa de descanso mais honesta que confortável. Nessa confusão, ninguém reparou de imediato que o cativo mudara de cor ao olhar para o ouvidor.

Ele fitou o homem grave com atenção crescente. Primeiro pareceu apenas recordar um rosto antigo. Depois levou a mão ao peito, como se uma memória tivesse batido ali de dentro. O cura percebeu a alteração e aproximou-se. O cativo pediu-lhe, em voz baixa, que lhe dissesse quem era aquele cavaleiro recem-chegado. Quando ouviu o nome e a origem do ouvidor, ficou sem fala. Era seu irmão, ou ao menos assim o coração lhe afirmava antes que a razão ousasse confirmar.

Havia muitos anos que os dois se tinham separado. Um seguira pelas armas, outro pelos estudos e pelas leis. A fortuna levara o primeiro ao mar, a prisão e a Argel; ao segundo, a cargos, audiências e viagens. Entre eles se abrira o intervalo enorme em que as famílias guardam lembranças como quem guarda cartas sem resposta. O cativo, temendo enganar-se e temendo também acertar, contou ao cura alguns sinais: o nome da família, a terra natal, o pai comum, os caminhos diferentes que os irmãos haviam tomado.

O cura, prudente e comovido, não quis entregar a descoberta de maneira brusca. Aproximou-se do ouvidor com conversa discreta, perguntou de sua origem, de seus parentes, de um irmão que em tempos antigos se destinara a carreira das armas. O magistrado respondeu com aquela tristeza serena de quem já repetiu muitas vezes a mesma ausência. Disse que tivera, sim, um irmão soldado, perdido havia anos, do qual a família recebera notícias confusas e depois silêncio. A cada palavra, o cativo empalidecia mais, até que já não conseguia ficar sentado.

Então o reconhecimento rompeu a cautela. O cativo levantou-se, aproximou-se do ouvidor e disse o nome que só um irmão poderia dizer daquele modo. O homem grave encarou-o primeiro como se olhasse uma aparição. A barba, as cicatrizes, a roupa de viajante e o sofrimento tinham quase apagado o jovem de sua lembranca; mas a voz, o nome do pai e certos sinais da infância devolveram-lhe num instante o que os anos pareciam ter enterrado. Abracaram-se diante de todos, e a venda inteira, que já vira naquela noite tantas mudancas de destino, assistiu a mais uma.

Clara chorou sem entender tudo, mas compreendendo o bastante: aquele estrangeiro cansado era sangue de seu pai. Zoraida, ao lado das mulheres, olhava a cena com atenção profunda. Para ela, que deixara uma casa, uma lingua e um pai distante, aquele reencontro trazia uma alegria misturada a sombra. Doroteia tomou-lhe a mão, e esse pequeno gesto explicou mais que muitas frases. O cativo apresentou Zoraida ao irmão, contando em resumo a divida de vida e liberdade que tinha para com ela.

O ouvidor recebeu Zoraida com cortesia e espanto. Viu nela não uma estranha trazida por aventura, mas a pessoa por cuja decisão seu irmão estava vivo. Prometeu ajuda, proteção e o cuidado necessário para que ela fosse instruida na fé que desejava receber. Zoraida entendeu pouco das palavras, mas entendeu o tom. Inclinou a cabeça com humildade, e sua presença deu a cena uma gravidade que até Sancho respeitou por alguns momentos.

Dom Quixote, vendo abracos, lagrimas, damas nobres e homens de honra reunidos depois de longos perigos, tomou tudo como confirmação de seu próprio mundo. Declarou que encantamentos bons também existiam, pois só um poder alto poderia juntar naquela venda tantos destinos separados. Sancho murmurou que, se aquele castelo continuasse achando parentes perdidos, talvez acabassem encontrando também a ilha que lhe fora prometida. O cavaleiro não ouviu, ou fingiu não ouvir.

A noite, contudo, ainda não terminara de abrir portas. Enquanto o ouvidor e o cativo trocavam notícias de família, Clara mantinha os olhos baixos, mas o ouvido alerta. Havia nela uma inquietação que não pertencia apenas ao cansaço da viagem. De vez em quando, parecia escutar algo que ninguém mais escutava, como se esperasse uma voz do lado de fora. A venda tinha recebido um irmão perdido; agora, sem que quase ninguém percebesse, preparava-se para receber também um amor escondido.

Por ora, a casa acomodou a alegria como podia. O cativo sentou-se ao lado do ouvidor, e ambos falaram em voz baixa, recompondo anos por meio de perguntas interrompidas. Clara permaneceu junto das mulheres. Zoraida foi tratada com nova deferência. O cura observava tudo com satisfação cautelosa, sabendo que a mesma providência que reune também costuma complicar. E Dom Quixote velava sobre aquela assembleia como se fosse guarda de um castelo encantado, pronto para defender qualquer segredo que a noite ainda trouxesse.

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