Capítulo 108 - A ronda de Baratária
Capítulo 108 - A ronda de Baratária
Deixamos Sancho aborrecido com o lavrador pintor e malicioso, instruído pelo mordomo e pelo duque para continuar a burla. O governador, porém, mantinha-se firme. Disse aos presentes e ao doutor Pedro Recio, que voltara à sala depois de acabado o segredo da carta, que agora entendia por que juízes e governadores precisavam ser de bronze. A todo tempo aparecem requerentes querendo despacho imediato, sem lembrar que juiz também possui carne, ossos, sono e estômago. Se não são atendidos na hora da fome ou do descanso, murmuram, roem-lhes a fama e remexem até na linhagem. Sancho acrescentou que ele, pior que os outros, nem comida dava à própria natureza, por culpa do médico Tirteafuera, que chamava fome de saúde.
Todos se admiravam de ouvi-lo falar com tanta ordem. Alguns atribuíam aquilo ao peso do cargo, que às vezes arruma entendimentos antes broncos. O doutor, talvez temendo a ira pública do governador, prometeu deixá-lo cear naquela noite, ainda que Hipócrates se incomodasse. A hora veio, e Sancho recebeu salpicão de vaca com cebola e mãos de vitela cozidas. Entregou-se aos pratos com mais gosto que se lhe dessem faisões de Roma ou perdizes raríssimas. Voltou-se ao médico e pediu, dali em diante, comida que seu estômago reconhecesse: cabra, vaca, toucinho, carne seca, nabos, cebolas e panelas grossas, onde entrasse tudo quanto fosse de comer.
Depois de satisfeito, falou de governo com nova energia. Não perdoaria direito nem aceitaria suborno, e todos deveriam andar alerta, porque se lhe dessem ocasião veriam maravilhas. O mordomo louvou-lhe as palavras e prometeu obediência dos insulanos. Sancho respondeu que assim convinha, e pediu que cuidassem de seu sustento e do rucio, pois esses eram os pontos mais importantes daquela administração. Em seguida quis sair à ronda, disposto a limpar a ilha de vagabundos, gente baldia e maus costumes. Comparou os ociosos a zangões de colmeia, que comem o mel das abelhas trabalhadoras, e prometeu favorecer lavradores, respeitar hidalgos, premiar virtudes e honrar a religião.
Ao anoitecer, saiu acompanhado de mordomo, secretário, mestre-sala, cronista, alguacis e escreventes, quase um esquadrão inteiro. Sancho ia no meio, vara na mão, quando ouviram rumor de espadas. Encontraram dois homens brigando. Um acusava o outro de sair de uma casa de jogo com mais de mil reais ganhos, sabe Deus como, depois de receber sua ajuda em sortes duvidosas. Como recompensa esperava ao menos alguns escudos de agrado, mas o ganhador lhe dera apenas quatro reais. O vencedor respondeu que quatro bastavam a quem vive de assistir mesas, apoiar sem-razões e evitar pendências conforme o interesse; se não dera mais, era sinal de que ganhara com limpeza, pois os trapaceiros pagam tributo aos mirones que os conhecem.
Sancho sentenciou sem demora. O ganhador pagaria cem reais ao que reclamava e mais trinta aos pobres da cadeia. O outro, por viver sem ofício nem benefício e sobrar na ilha como peça solta, receberia os cem reais e sairia de Baratária no dia seguinte, desterrado por dez anos, sob pena de picota se voltasse antes. Cumpriu-se a ordem, e Sancho declarou que, se pudesse, acabaria com casas de jogo. Um escrivão explicou que aquela pertencia a pessoa grande, contra a qual talvez não conviesse mexer; os garitos menores é que faziam maior dano, descascando vivos os infelizes depois da meia-noite. Sancho percebeu que havia muito a discutir nesse ponto, mas a ronda seguiu.
Logo trouxeram um moço preso por correr ao ver a justiça. Sancho perguntou por que fugia. O rapaz respondeu que era para evitar perguntas. Perguntado pelo ofício, disse ser tecelão; perguntado pelo que fazia, disse que fabricava ferros de lança. Sancho entendeu a troça e perguntou aonde ia. O moço respondeu que ia tomar ar; perguntado onde se tomava ar na ilha, respondeu que onde ele soprava. O governador mandou levá-lo à cadeia para dormir ali sem ar. O moço replicou que Sancho podia prendê-lo, carregá-lo de ferros e ameaçar o carcereiro, porém não poderia fazê-lo dormir se ele resolvesse ficar acordado. O secretário reconheceu o ponto. Sancho soltou-o, aconselhando-o a não brincar com a justiça, pois outra autoridade talvez lhe quebrasse a graça na cabeça.
Mais adiante vieram dois alguacis trazendo uma pessoa vestida de homem, que na verdade era mulher. À luz das lanternas apareceu rosto de moça de dezesseis anos ou pouco mais, cabelos presos em rede de ouro e seda verde, roupas masculinas ricas, punhal fino, anéis nos dedos e beleza capaz de suspender os presentes. Ninguém a reconheceu, nem mesmo os que conheciam os planos de burla contra Sancho. O governador perguntou quem era, aonde ia e por que viera assim. Ela, envergonhada, pediu segredo, dizendo apenas que não era criminosa, e sim donzela infeliz levada por ciúmes a romper decoro. A gente foi afastada, ficando só mordomo, mestre-sala, secretário e governador.
A moça, perturbada, começou mentindo o nome do pai, mas logo corrigiu-se: era filha de Diego de la Llana, fidalgo rico que guardava a filha tão fechada desde a viuvez que nem o sol parecia ter licença para vê-la. Chorando, explicou que nada grave acontecera. Pedira ao irmão que lhe desse roupa de homem e a levasse, uma única noite, para ver as ruas da própria vila enquanto o pai dormia. O irmão vestira roupa dela, pois ainda sem barba parecia donzela formosíssima, e ambos saíram com um criado. Ao avistarem a ronda, o irmão correu; ela caiu de susto e foi presa. Os alguacis trouxeram depois o irmão, vestido de mulher, e ele confirmou tudo. Sancho chamou aquilo de grande criancice, repreendeu-os por tanto suspiro para tão pouca aventura e levou os dois à casa do pai, onde entraram por uma grade aberta por criada avisada. O mestre-sala ficou enamorado da moça; Sancho imaginou o irmão como possível marido para Sanchica. Com esses projetos, acabou a ronda daquela noite, e dentro de dois dias acabaria também o governo, frustrando tais imaginações.