Capítulo 4 - O regresso quebrado
Capítulo 4 - O regresso quebrado
A noite encontrou Dom Quixote ainda caido entre a poeira e a vergonha. O corpo doia em partes que ele preferia não contar, mas a imaginação trabalhava com uma disciplina mais forte que a dor. Onde qualquer outro homem veria derrota, ele procurava uma cena adequada aos livros: um cavaleiro traido por encantadores, ferido por inimigos sem honra, abandonado pela fortuna apenas para que sua glória futura parecesse maior.
Rocinante permanecia perto, tão abatido quanto o dono, e parecia partilhar daquela miséria sem entender sua causa. O campo escurecia devagar. As sombras alongavam as pedras, apagavam as marcas da estrada e davam ao silêncio uma espessura quase solene. Dom Quixote tentou erguer-se, mas as armas pesavam, os golpes respondiam no peito e nos ombros, e cada movimento lhe devolvia a lembranca dos mercadores.
Foi nesse estado que um lavrador de sua aldeia passou pelo caminho. Reconheceu primeiro o animal, depois a figura estendida, depois a voz conhecida que insistia em falar como se estivesse dentro de outra história. Aproximou-se com espanto e cuidado. O homem caido era Alonso Quijano, vizinho discreto, leitor excessivo, fidalgo pobre de habitos antigos. Mas o que ele dizia já não pertencia inteiramente a Alonso.
Dom Quixote respondeu ao chamado com nomes de cavaleiros, reinos e traições. Misturava sua queda com antigas aventuras, como se a memória dos livros tivesse ocupado o lugar da memória recente. O lavrador compreendeu apenas o suficiente: o vizinho estava ferido, desorientado e precisava voltar para casa antes que a noite fizesse da estrada um perigo maior.
Com paciência, retirou parte das armas, acomodou Dom Quixote sobre o jumento e recolheu o que ainda podia ser levado. O cavaleiro aceitava a ajuda sem abandonar a grandeza. Via no vizinho talvez um servidor, talvez uma personagem enviada por algum destino escondido. A realidade, por sua vez, era mais simples e mais triste: um homem machucado sendo conduzido de volta ao lugar de onde fugira.
A chegada aconteceu tarde, quando a casa já estava tomada pela preocupação. A ama, a sobrinha, o padre e o barbeiro discutiam a causa do desaparecimento. Todos conheciam os livros de cavalaria que enchiam os aposentos de Alonso Quijano, mas até então aquela mania parecera exagero domestico, não ameaça concreta. Agora o próprio corpo do fidalgo trazia a prova de que a leitura havia invadido a casa.
Ao verem Dom Quixote naquele estado, a aflição virou pressa. Levaram-no para dentro, deitaram-no, examinaram os ferimentos e ouviram suas explicações com uma mistura de pena e susto. Ele falava de inimigos poderosos, encantadores invejosos e combates que não correspondiam a nada do que o lavrador narrava. Quanto mais tentavam chamá-lo de volta, mais ele se defendia dentro da ficção.
Para a ama e a sobrinha, a conclusão parecia evidente: os livros eram culpados. Não apenas tinham entretido o fidalgo; tinham devorado seu juízo, substituido os limites da vida comum por uma ordem perigosa de sinais, promessas e obrigações imaginárias. O padre e o barbeiro, homens mais dados a opiniões e remédios sociais, concordaram que seria preciso agir sobre a biblioteca.
Enquanto Dom Quixote dormia, a casa começou a conspirar contra os volumes. Aqueles livros, antes empilhados como companhia, passaram a ser vistos como armas carregadas. Cada capa prometia uma nova fuga, cada história parecia capaz de abrir outra fenda entre Alonso Quijano e o mundo que precisava dele vivo, inteiro e reconhecível.
A decisão de interditar a biblioteca nasceu de cuidado, mas também de medo. Ninguém ali sabia curar a ferida mais profunda, porque ela não estava apenas no corpo. Estava na forma como Dom Quixote havia aprendido a desejar o mundo. Queimar, esconder ou condenar livros podia impedir uma saída imediata; não garantia, porém, que a estrada deixasse de chamá-lo.
Na cama, entre febre e cansaço, o cavaleiro repousava como quem apenas espera uma nova ordem de partida. A casa acreditava ter recuperado Alonso Quijano. Dom Quixote, no entanto, continuava vivo por baixo do sono, reorganizando a derrota em promessa. O regresso marcou somente a pausa necessária para que a loucura encontrasse companheiros, justificativas e uma forma ainda mais resistente.