Capítulo 64 - Teresa Pança e a ilha Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 64 de 133
Obra Menu

Capítulo 64 - Teresa Pança e a ilha

Capítulo 64 - Teresa Pança e a ilha

Quando o tradutor chegou a este ponto da história, confessou suspeitar deste capítulo, porque Sancho Pança fala nele com uma agudeza que parece maior que seu estudo. Ainda assim, por dever de ofício, conservou o que encontrou. Sancho entrou em casa tão contente que Teresa Pança percebeu a novidade antes que ele abrisse a boca. Perguntou-lhe que trazia no rosto, pois vinha alegre como homem que achou dinheiro em caminho limpo. Sancho respondeu que estaria mais satisfeito se não precisasse alegrar-se daquele modo, frase que deixou Teresa parada, tentando descobrir em que mundo uma pessoa se alegra por preferir não estar contente.

Ele explicou que Dom Quixote preparava terceira saída, e que ele próprio iria junto por necessidade, esperança e hábito. A necessidade vinha da pobreza; a esperança, de talvez encontrar novos escudos; o hábito, de já saber que sua vida quieta tinha sido mordida pela promessa de governo. Mandou Teresa cuidar do rucio por três dias, dobrar-lhe a ração, rever a albarda e deixar as correias prontas, porque não iriam a bodas, e sim a caminhos de gigantes, monstros, bramidos, mouros encantados e homens que costumavam bater antes de perguntar. Teresa suspirou. Sabia que escudeiro andante não come pão de graça, mas preferia marido vivo a governador imaginado.

Sancho declarou que cairia morto ali mesmo se não acreditasse que em pouco tempo se veria governador de uma ilha. Teresa pediu que vivesse, ainda que com suas teimosias, e que deixasse o diabo levar todos os governos do mundo. Lembrou-lhe que nascera sem governo, vivera sem governo e podia morrer contado entre as gentes sem que isso fosse desonra. Porém, se a sorte insistisse em elevá-lo, não deveria esquecer dela nem dos filhos. Sanchico já tinha idade para aprender letras, caso o tio abade quisesse encaminhá-lo à Igreja; Mari Sancha também pedia cuidado, pois moça crescida logo começa a olhar para casamento, e melhor seria casá-la com igual conhecido do que vê-la perdida por promessa alta demais.

Sancho respondeu que, se chegasse a governar, faria Mari Sancha tão senhora que todos teriam de chamá-la por título. Teresa recusou a grandeza com energia. Não queria tirar a filha dos zuecos para metê-la em sapatos de corte, nem trocar a vida conhecida por palácio onde cada gesto denunciaria nascimento pobre. Seu nome era Teresa, sem donas, dourados e penduricalhos; o pai se chamara Cascajo, e ela aceitava Pança por ser mulher de Sancho. Não desejava sentar-se na igreja entre almofadas para dar assunto às hidalgas da aldeia. Queria a filha perto, casada com Lope Tocho, moço forte, vizinho, conhecido e capaz de manter paz entre pais, filhos, genros e netos.

Sancho chamou Teresa de cabeça dura e tentou mostrar que a fortuna precisa ser agarrada quando oferece mão. Se ele pudesse pôr a filha em senhorio, tirá-la dos rastrojos, cobri-la de tratamento alto e fazê-la sentar-se em estrado, por que a mãe havia de recusar? Teresa respondeu com a sabedoria do terreiro: quem sobe depressa chama olhos, e os olhos param mais no rico recente do que no pobre antigo. Se uma mulher conhecida por fiar estopa aparecesse de repente vestida como governadora, todos lembrariam sua saia velha antes de respeitar a nova roupa. Preferia igualdade limpa a grandeza que obrigasse a família a representar papel que não sabia sustentar.

Então Sancho, armado de sermão ouvido na quaresma, falou como se a memória dos homens fosse mercado de aparências. Disse que a pessoa bem vestida, rodeada de criados e sinais de prosperidade, obriga os outros a respeito; a pobreza passada vai ficando atrás, enquanto o presente bem composto toma o lugar principal diante dos olhos. Se o elevado pela fortuna se mostrar cortês, liberal e bem criado, poucos se lembrarão de sua origem, salvo os invejosos, que nunca perdoam sorte alheia. Teresa confessou não entender tanta retórica, mas cedeu no ponto prático: se Sancho insistisse no governo, que levasse depois o filho para aprender o ofício do pai. Sancho prometeu mandar dinheiro e buscar Sanchico quando houvesse posto seguro.

A conversa terminou sem verdadeira paz. Sancho insistiu que Mari Sancha seria condessa. Teresa disse que, no dia em que a visse condessa, sentiria como se a enterrasse, porque certas alturas cobram caro de quem nasceu em chão baixo. Ainda assim, reconheceu que as mulheres carregam o peso de obedecer aos maridos, mesmo quando eles parecem feitos de madeira verde. Começou a chorar como se já visse a filha longe, cercada de palavras que a feririam mais que enxada. Sancho a consolou do modo que sabia: se tivesse de fazer a moça condessa, faria o mais tarde possível. Depois saiu para ver Dom Quixote, levando consigo a alegria da ilha e o ruído das lágrimas de Teresa.

1/1
Menu

Fazer anotação