Capítulo 78 - O caminho das bodas Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 78 de 133
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Capítulo 78 - O caminho das bodas

Capítulo 78 - O caminho das bodas

Pouco depois de deixar a casa de Dom Diego, Dom Quixote encontrou quatro viajantes sobre jumentos: dois pareciam estudantes ou clérigos, e os outros dois eram lavradores com compras de vila grande. Como todos que o viam pela primeira vez, ficaram presos à figura do cavaleiro, à magreza de Rocinante, às armas fora de estação e ao ar grave com que aquele homem antigo se movia em caminho comum. Dom Quixote saudou-os, soube que seguiam pela mesma direção e pediu companhia, porque as bestas deles andavam melhor que seu cavalo. Para justificar a demora, apresentou-se como Dom Quixote de la Mancha, Cavaleiro dos Leões, profissão de cavaleiro andante, buscador de aventuras e reparador de agravos.

Os lavradores entenderam pouco, mas os estudantes perceberam a espécie de desarranjo que sustentava tal fala. Mesmo assim, trataram-no com respeito e convidaram-no a acompanhar o grupo até uma das bodas mais ricas que a Mancha vira em muitos anos. O noivo chamava-se Camacho, rico de nome e de verdade; a noiva, Quitéria, recebia de todos o título de formosa. O casamento seria celebrado num prado junto à aldeia dela, com enramadas, danças, música, comida larga, tendas, luzes e aparato bastante para que o sol, segundo exagero do estudante, encontrasse dificuldade em visitar a relva. Sancho, ao ouvir notícia de comida abundante, sentiu que a Providência falava por bocas letradas.

O estudante contou ainda que a riqueza de Camacho não encerrava a história. Havia no mesmo povoado um jovem chamado Basílio, vizinho antigo de Quitéria, criado quase parede com parede com ela. Desde pequenos os dois se quiseram, e o povo acompanhou aquele afeto como quem segue cantiga conhecida. Basílio possuía bens de natureza em quantidade rara: corria, saltava, lutava, jogava pelota, lançava barra, cantava, tocava guitarra e manejava espada com tal destreza que os rapazes o admiravam e as moças o escutavam. Faltava-lhe, porém, dinheiro. O pai de Quitéria fechou a porta ao antigo convívio e escolheu Camacho, porque a fortuna pesa muito quando chega a hora dos contratos.

Dom Quixote ouviu a história com atenção. Disse que, se Basílio manejava espada como se afirmava, merecia não só Quitéria, mas rainha de romance, se tal rainha estivesse livre no mundo. Sancho, lembrando Teresa Pança, defendeu que cada pessoa casasse com seu igual, embora logo se inclinasse pelo pobre Basílio, pois seu coração se movia com facilidade quando via amor antigo posto de lado por dinheiro novo. Dom Quixote respondeu com discurso sobre matrimônio. Escolher companhia para a vida inteira pedia mais cuidado que escolher parceiro de viagem, porque mulher e marido dividem mesa, cama, honra, tristeza, filhos e morte. Amor cego pode errar tanto quanto ambição calculada.

O estudante concluiu a notícia de Basílio. Desde que soubera do casamento, o rapaz perdera riso, sono e juízo. Comia pouco, dormia no campo, olhava ora para o céu, ora para a terra, falava sozinho e parecia estátua vestida, movida apenas pelo vento. Todos temiam que o sim de Quitéria fosse sentença de morte para ele. Sancho respondeu com seus refrões de esperança: de um dia para outro muda o tempo, cai uma casa, chove e faz sol no mesmo ponto, e ninguém consegue pregar a roda da fortuna para que ela pare onde convém. Dom Quixote censurou-lhe as palavras emboladas, corrigiu-lhe o vocabulário e recebeu de volta a queixa habitual do escudeiro, que não estudara em Salamanca nem nascera para falar como cortesão.

A conversa abriu disputa entre os dois estudantes. Um, licenciado em cânones, defendia a clareza da linguagem e a arte da esgrima como ciência de passos, medidas, círculos e ângulos. O outro, chamado Corchuelo, zombava dessa destreza estudada, confiando mais em força, pulso e golpe direto. As espadas de exercício vieram à mão, e Dom Quixote, animado, ofereceu-se como juiz. Corchuelo atacou com fúria, golpes abundantes e confiança de quem já se via vencedor; o licenciado, com movimentos frios e medidos, aparou, tocou, esquivou e marcou o adversário até cansá-lo. A força acabou vencida pela arte, e Corchuelo, ruborizado, abraçou o companheiro, reconhecendo que a experiência lhe dera lição melhor que argumento.

Já perto da aldeia, a noite mostrou o prado iluminado. Árvores cobertas de luzes, músicas de flautas, tamborins, pandeiros e sonajas, grupos que cantavam, dançavam e levantavam palcos davam ao campo aparência de festa grande. Parecia que a alegria corria solta por todas as partes, embora a memória de Basílio pusesse sombra no brilho de Camacho. Os estudantes e lavradores convidaram Dom Quixote a entrar no povoado, mas ele preferiu dormir ao ar livre, alegando costume de cavaleiros andantes. Sancho sofreu a decisão como perda pessoal: ainda trazia na lembrança a mesa de Dom Diego e via diante de si uma noite de campo, enquanto as panelas de Camacho começavam a prometer um paraíso muito próximo.

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