Capítulo 67 - A estrada de El Toboso Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 67 de 133
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Capítulo 67 - A estrada de El Toboso

Capítulo 67 - A estrada de El Toboso

Quando chegou a hora combinada, Dom Quixote e Sancho saíram da aldeia sem trombetas, sem despedidas e sem o alvoroço que costuma denunciar grandes empresas. Era noite. A casa dormia com sono vigiado, e a ama talvez sonhasse com chaves, livros queimados e santos protetores de fidalgos teimosos. Rocinante avançou magro, solene, quase satisfeito por sentir outra vez o peso conhecido. O rucio seguiu com paciência de animal que aceita a filosofia dos homens desde que lhe deem cevada. Sancho levava alforjes, medo, esperança e a lembrança insistente de Teresa, que ficara em casa medindo a ilha prometida pelo tamanho real da despensa.

A madrugada abriu espaço entre os campos, e Dom Quixote respirou como homem devolvido ao próprio elemento. Disse a Sancho que aquela era a mais necessária de suas saídas, pois já não buscavam apenas reparar agravos ocultos; agora tinham leitores, fama impressa e olhos distantes julgando cada passo. O escudeiro respondeu que olhos distantes não saravam costelas próximas, e que desejava, antes de qualquer combate, visitar Dulcineia para que ela abençoasse a jornada. Dom Quixote acolheu a ideia com fervor. Ir ao Toboso parecia obrigação primeira: nenhum cavaleiro parte limpo para o mundo sem receber licença da senhora que governa seu coração.

Enquanto caminhavam, falaram de glória. Dom Quixote explicou que a fama é uma forma de vida que resiste ao corpo, e que homens valentes buscam feitos capazes de sobreviver aos ossos. Sancho ouviu com atenção desigual. Entendia a parte da fama quando ela vinha com comida, governo ou dinheiro; a outra parte, feita de nome sem proveito, parecia-lhe moeda fina demais para estômago pobre. O cavaleiro citou exemplos de santos que ganharam eternidade por obras de virtude, e Sancho perguntou se não seria melhor tornar-se santo do que cavaleiro, já que santos iam ao céu sem receber tantas pancadas de estalajadeiros, galeotes, clérigos e lavradores.

Dom Quixote respondeu que cada caminho tem sua vocação. Os santos combatem com oração, jejum e martírio; os cavaleiros andantes combatem com lança, espada, vigílias, abstinência e risco. Ambos servem ao alto, se cada qual conservar pureza no ofício. Sancho achou a explicação respeitável, embora preferisse ofício em que o corpo sofresse menos. Lembrou que os santos, ao menos nos altares, recebiam velas, flores e devoção; os cavaleiros, pelo que vira, recebiam mais poeira que incenso. Dom Quixote tomou a observação como rusticidade graciosa e falou longamente das virtudes necessárias a quem pretende merecer memória limpa.

A estrada para El Toboso crescia diante deles. Dom Quixote imaginava torres, salas, donzelas, pátios de honra e a presença alta de Dulcineia, capaz de fazer humilde qualquer rei. Sancho, que conhecia Aldonza Lorenzo e os arredores da aldeia, caminhava com incômodo crescente. A mentira da embaixada antiga voltava agora como dívida. Ele nunca entregara carta, nunca vira palácio, nunca recebera palavra de Dulcineia; inventara tudo para sair de apuro. Quanto mais o amo falava da dama, mais Sancho sentia que o caminho o levava para perto de uma conta difícil de pagar. A noite, que antes ajudara a fuga, começou a parecer-lhe pouca cobertura.

Dom Quixote pediu detalhes do encontro que Sancho tivera com Dulcineia na outra jornada. O escudeiro repetiu o que já inventara, ajustando lembranças falsas com o cuidado de quem remenda saco furado. Disse que ela estava ocupada em trabalhos de trigo, que recebera notícia do cavaleiro com modéstia e que sua grandeza podia esconder-se sob aparências simples, como ouro guardado em pano pobre. Dom Quixote transformou cada resposta em confirmação de amor discreto. Se Dulcineia não vivia em aparato visível, maior era sua excelência; se usava mãos em ofícios comuns, mais brilhava a humildade. Sancho agradeceu em silêncio a capacidade do amo de salvar mentiras alheias com imaginação própria.

Ao cair da noite seguinte, avistaram as primeiras sombras de El Toboso. Dom Quixote quis entrar quando a aldeia estivesse quieta, para buscar o palácio de Dulcineia sem tumulto e sem olhos curiosos. Sancho sentiu frio no estômago. Cada rua escura poderia pedir nome, cada porta poderia negar a invenção. Mesmo assim, seguiu ao lado do amo. Rocinante pisava devagar; o rucio procurava cheiros mais honestos que o da glória. Entre casas baixas, muros e silêncio, os dois entraram no lugar onde Dom Quixote esperava encontrar a senhora de seus pensamentos e Sancho esperava não encontrar ninguém capaz de fazer perguntas claras demais.

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