Capítulo 59 - O repouso e a promessa Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 59 de 133
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Capítulo 59 - O repouso e a promessa

Capítulo 59 - O repouso e a promessa

Depois que Dom Quixote foi deitado, a casa pareceu reaprender seus próprios sons. A ama andava de um lado para outro como sentinela de cozinha; a sobrinha recolhia peças de roupa, armas fora de lugar e lembranças que preferia não tocar; o cura e o barbeiro, já cansados da longa invenção da jaula, falavam baixo no aposento vizinho. Tinham trazido o fidalgo de volta, mas nenhum deles podia dizer que trouxera também, inteira e obediente, a razão que se perdera nos livros.

O cavaleiro dormia por intervalos. Quando despertava, perguntava se o sábio que o encantara já tinha revelado o reino onde sua espada seria necessária. A sobrinha respondia que o reino, por ora, era o quarto; a ama acrescentava que ali havia inimigos suficientes: febre, cansaço, magreza e teimosia. Dom Quixote sorria com piedade, como quem escuta gente simples incapaz de penetrar os mistérios altos da cavalaria andante. Contudo, obedecia. Bebia o caldo, aceitava o lençol, fechava os olhos.

O cura determinou que não se falasse de aventuras por alguns dias. O barbeiro concordou, embora soubesse que o silêncio também pode alimentar fantasias. Melhor seria dar ao corpo descanso e a imaginação pouco pasto. Trancaram os livros que restavam, afastaram as armas, vigiaram a porta do curral e recomendaram a todos da aldeia que não provocassem o fidalgo com histórias de gigantes, princesas cativas, exércitos encantados ou reinos a conquistar. A aldeia prometeu obedecer, como prometem as aldeias: com seriedade no rosto e curiosidade nas janelas.

Sancho, antes de voltar a sua própria casa, ficou algum tempo sentado perto da entrada. Parecia menos escudeiro que homem descido de sonho comprido. A mulher quis saber da ilha; os vizinhos quiseram saber das pancadas; as crianças quiseram saber se Rocinante comia como cavalo comum ou como cavalo de cavaleiro famoso. Sancho respondeu a cada um conforme a medida de sua paciência. Disse que ilha ainda não viera, mas também não morrera; que pancadas houvera muitas, e nem todas com boa razão; e que Rocinante, apesar da fama do dono, mastigava como qualquer cristão velho em corpo de cavalo magro.

Depois, quando ficou menos cercado, confessou que vira coisas impossíveis acontecerem por serem acreditadas tempo bastante. Vira uma venda transformar-se em castelo, uma bacia tornar-se elmo, uma camponesa subir ao trono do pensamento, e um homem pobre caminhar como se o mundo lhe devesse justiça antiga. Não sabia se isso era loucura, grandeza ou mistura das duas. Sabia apenas que, ao lado de Dom Quixote, a fome parecia argumento, o medo parecia prova e a esperança, mesmo ridícula, tinha pernas para seguir estrada.

No quarto, Dom Quixote chamou uma vez por Sancho. Quando o escudeiro entrou, encontrou o amo pálido, mas com os olhos acesos. O fidalgo perguntou-lhe se guardava memória das promessas feitas. Sancho, que podia ser simples, mas não era tolo, respondeu que memória tinha, e muito boa quando se tratava de ilha, salário ou recompensa. Dom Quixote apertou-lhe a mão e disse que os encantadores apenas haviam interrompido o curso natural da glória; nada estava perdido para quem nasceu destinado a reparar agravos.

Sancho não quis contrariar o enfermo. Disse que descansasse primeiro, porque até cavaleiro encantado precisa de cama, e que depois se veria o que Deus, Dulcineia e a fortuna permitiriam. Dom Quixote aprovou a prudência como se ela fosse conselho de general. Por um momento, amo e escudeiro ficaram calados, ligados não por vitória alguma, mas pela memória comum de terem passado por poeira, medo e riso sem abandonar um ao outro.

Ao cair da tarde, o cura saiu da casa mais tranquilo. O barbeiro levou consigo a certeza de que, por alguns dias ao menos, não haveria sela posta nem lança em punho. A ama fechou a porta com firmeza; a sobrinha ficou ouvindo a respiração do tio, como quem espera que cada sopro devolva um pouco do homem anterior aos livros. Mas ninguém sabia se esse homem ainda existia separado do cavaleiro, ou se ambos, Alonso Quijano e Dom Quixote, dormiam no mesmo corpo sem poderem desfazer a companhia.

Assim se encerrou aquela primeira saída grande, não com triunfo de armas, nem com desengano completo, mas com uma cama, uma casa e uma aldeia inteira tentando conter o fogo que os livros haviam acendido. O mundo la fora continuava com seus caminhos, vendas, serras, campos e injustiças. Dentro, um fidalgo repousava. Se a razão voltaria mais forte, ninguém podia jurar. Se a aventura estava acabada para sempre, menos ainda. Por ora, bastava dizer que o cavaleiro repousava, e que a estrada, embora distante, ainda sabia o nome dele.

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