Capítulo 122 - Ana Félix nas galés Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 122 de 133
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Capítulo 122 - Ana Félix nas galés

Capítulo 122 - Ana Félix nas galés

Dom Quixote passou a pensar sem descanso nas respostas da cabeça encantada, tomando como certa a promessa do desencanto de Dulcineia. Sancho, apesar de jurar que abominava governos, ainda sentia a tentação de mandar e ser obedecido, sinal de que mesmo o poder de brincadeira deixa gosto difícil de apagar. Naquela tarde, don Antonio levou os dois, acompanhado de amigos, às galés. O comandante, avisado da visita, preparou recepção magnífica: música, tiros de saudação, esquife adornado com tapetes e almofadas, e a tripulação saudando Dom Quixote como pessoa principal. O cavaleiro, tratado com cerimônia quase militar, sentou-se na popa cheio de contentamento, enquanto Sancho examinava homens, remos e cordas com suspeita crescente.

O que parecia festa tornou-se tormento para o escudeiro. Um marinheiro, instruído para a brincadeira, agarrou Sancho e o passou de banco em banco por cima dos braços da chusma, que o recebeu e lançou adiante com tanta rapidez que ele perdeu a vista dos próprios movimentos. Quando voltou à popa, estava moído, suado e certo de haver sido carregado por demônios. Dom Quixote perguntou ao comandante se aquela cerimônia se aplicava a todos que entravam nas galés, pois ele não pretendia professar em tal ordem e tiraria a alma a quem tentasse fazê-lo voar daquele modo. Logo depois baixaram a antena com estrondo enorme, e Sancho, pensando que o céu caía sobre sua cabeça, encolheu-se todo. Ao ver os remadores recebendo golpes do comitre, concluiu que aquilo era inferno ou purgatório. Dom Quixote aproveitou a cena para sugerir que seus açoites, recebidos entre tantos, talvez contassem por muitos no desencanto de Dulcineia.

A conversa foi interrompida por sinal vindo de Montjuïc: havia um barco de remos na costa, do lado do poente. O comandante suspeitou de corsários de Argel e ordenou movimento imediato. Duas galés saíram pelo largo, a capitânia seguiu mais perto da terra, e o pequeno bergantim tentou fugir. A embarcação não tinha força para escapar. Quando já podia ouvir as ordens de rendição, dois turcos dispararam contra a capitânia e mataram dois soldados. O comandante jurou enforcar todos os capturados. O barco foi tomado, trazido à praia e cercado por curiosos, entre eles o vice-rei. Ao perguntarem pelo arráez, apontaram um moço belíssimo, de menos de vinte anos, já com as mãos atadas e a corda pronta. O vice-rei, comovido pela aparência humilde e formosa, perguntou-lhe se era turco, mouro ou renegado. A resposta veio em castelhano claro: era mulher cristã.

Deram-lhe licença para contar sua história antes da execução. Ela disse ter nascido de pais moriscos, embora criada na fé cristã verdadeira, e que fora levada a Berberia por parentes durante o desterro de seu povo. Chamava-se Ana Félix. Seu pai, prudente, saíra antes em busca de lugar seguro e deixara escondidos na Espanha dinheiro, perlas e joias, confiando a ela o segredo. Também ficara em sua vida um jovem cristão, don Gaspar Gregorio, apaixonado por ela, que se misturou aos moriscos para acompanhá-la no exílio. Em Argel, o rei soube da beleza de Ana e das riquezas escondidas; soube também da formosura de Gaspar, o que o pôs em perigo maior. Para salvá-lo, Ana o vestiu de mulher e apresentou-o assim, conseguindo que fosse guardado entre mulheres enquanto ela voltava à Espanha num bergantim, acompanhada de um renegado espanhol e de dois turcos, com a missão de buscar o tesouro.

Os turcos, gananciosos, desviaram-se do plano e resolveram fazer alguma presa na costa antes de deixá-la em terra. Foram descobertos pelas galés e tudo terminou como se via. Ana pediu apenas que a deixassem morrer como cristã, pois não participara das culpas atribuídas aos de sua nação. Enquanto falava, um peregrino idoso, que entrara com o vice-rei, fixava os olhos nela. Mal ouviu o nome, lançou-se a seus pés: era Ricote, o mesmo morisco encontrado por Sancho depois de Baratária, pai de Ana Félix. Sancho o reconheceu e confirmou ao comandante que aquele homem dizia verdade ao menos quanto à filha. Ricote explicou que voltara para procurar Ana e o tesouro escondido; achara as riquezas, e agora, por volta estranha da fortuna, achava o tesouro maior, sua própria filha.

As lágrimas de pai e filha dobraram o rigor do comandante. Ana Félix foi poupada, e o vice-rei ainda pediu que a vingança contra os turcos fosse suspensa, pois a execução fria já não tinha a mesma aparência de justiça. Passaram então a tratar do resgate de don Gaspar Gregorio, ainda em Argel vestido como mulher e cercado de perigo. Ricote ofereceu mais de dois mil ducados em joias para a empresa. O renegado espanhol propôs voltar em barco pequeno, com remadores cristãos, afirmando conhecer lugar, tempo e casa onde Gaspar estava. Houve dúvida sobre confiar nele, e Ana se pôs por fiadora de sua intenção, enquanto Ricote se obrigou a pagar o resgate se algo desse errado. O vice-rei desembarcou, e don Antonio levou consigo Ana Félix e Ricote, encarregado de tratá-los com todo cuidado. A visita às galés, começada em brincadeira contra Sancho, terminava em caso de lágrimas, perdão e esperança.

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