Capítulo 94 - Os três mil e trezentos açoites Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 94 de 133
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Capítulo 94 - Os três mil e trezentos açoites

Capítulo 94 - Os três mil e trezentos açoites

Ao som da música, surgiu um carro triunfal puxado por seis mulas cobertas de branco. Sobre cada uma vinha disciplinante vestido da mesma cor, segurando grande vela acesa. O carro era maior que todos os anteriores e trazia muitos outros homens em branco, também com luzes. No alto, sentada em trono, vinha uma ninfa coberta de véus de prata, com rosto delicado entrevisto pela transparência. Ao lado dela estava figura negra, longa e solene. Quando o carro parou diante dos duques e de Dom Quixote, a música cessou. A figura negra ergueu-se, afastou o manto, mostrou rosto de morte descarnada e declarou-se Merlim.

Merlim falou em versos graves, atribuindo a si ciência mágica e compaixão pela desventura de Dulcineia. Disse que soubera, nos abismos de seu estudo, da transformação da senhora em aldeã rude. Depois de consultar livros e estrelas, encontrara remédio certo: para que Dulcineia recuperasse beleza e estado, Sancho Pança deveria receber três mil e trezentos açoites nas próprias carnes. A notícia caiu sobre o escudeiro como pancada antes da pancada. Dom Quixote voltou-se para ele com alegria desesperada, vendo enfim caminho para libertar a dama. Sancho, porém, fechou o rosto. A pele era sua, a culpa não lhe parecia sua, e nenhum encantador havia pedido licença à sua retaguarda.

Dom Quixote, impaciente, ameaçou amarrá-lo a uma árvore e dobrar a conta se fosse preciso. Merlim corrigiu a proposta. Os açoites precisavam vir por vontade de Sancho, no tempo que ele escolhesse. Poderia, se quisesse, permitir que outra mão lhe desse metade, ainda que pesada, mas força pura não valeria para o desencanto. Sancho recusou tudo: mão própria, mão alheia, mão leve e mão pesada. Perguntou se por acaso parira Dulcineia para pagar com o corpo os pecados dos olhos dela. Se alguém devia açoitar-se, dizia ele, seria Dom Quixote, que chamava a dama de vida, alma, sustento e arrimo. Quanto a ele, escudeiro e quase governador, abrenunciava a semelhante contrato.

Nesse ponto a ninfa de prata se levantou, tirou o véu e mostrou rosto tão belo que todos se admiraram. Era um pajem vestido de Dulcineia, mas a composição bastava para enganar o desejo do cavaleiro. Com voz firme e pouco feminina, chamou Sancho de alma de cântaro, coração de cortiça, animal duro e criatura sem piedade. Disse que três mil e trezentos açoites eram nada diante da libertação de uma senhora presa sob casca rústica. Se pedissem a ele crimes, torres e serpentes, haveria motivo para recusar; diante de disciplina tão pequena, sua dureza espantava o céu. As lágrimas da beleza, afirmou, derretem pedras e amansam feras.

Sancho ouviu a torrente de insultos e respondeu com irritação prática. Aquilo era modo estranho de pedir favor. Quem deseja que outro abra as próprias carnes deve trazer presentes, promessas, camisa fina, escarpins, alguma dádiva; não chegar chamando o benfeitor de besta e alma de cântaro. Além disso, lamentava ainda o rasgão do traje verde e não estava em humor de aceitar feridas novas. Dom Quixote, comovido, dizia sentir a alma presa na garganta, pronta para sair ou descer conforme a resposta do escudeiro. A duquesa, o duque e toda a comitiva sustentavam a cena com seriedade calculada, vendo Sancho cercado por sua própria invenção.

Sancho tentou uma última defesa. Perguntou por Montesinos, já que o demônio correio anunciara sua chegada. Merlim respondeu que o diabo se enganara: o recado vinha dele próprio, e Montesinos continuava na cova, esperando também seu quinhão de desencanto. Depois adoçou a medicina: a disciplina faria bem à alma, por caridade, e ao corpo, porque Sancho era de compleição sanguínea e perder um pouco de sangue não lhe prejudicaria. O escudeiro concluiu que até os encantadores tinham virado médicos. Vendo todos contra si e desejando não perder a ilha prometida, aceitou a penitência sob condições rigorosas: daria os açoites quando quisesse, sem prazo fixo, sem obrigação de tirar sangue, podendo contar golpes leves como válidos, desde que Merlim acompanhasse a conta.

Merlim aceitou. Disse que, chegando ao número exato, Dulcineia apareceria livre e agradecida, sem risco de sobra ou falta. Sancho, vencido, entregou-se à própria má sorte. Imediatamente a música recomeçou, arcabuzes soaram, Dom Quixote abraçou o escudeiro e beijou-lhe rosto e testa com gratidão excessiva. O carro de Dulcineia moveu-se, a falsa senhora inclinou-se aos duques e fez grande reverência a Sancho. A madrugada já vinha clara. As flores se erguiam, os riachos corriam limpos e o ar parecia disposto a apagar a noite de fingimento. Os duques voltaram ao castelo satisfeitos: tinham fabricado aventura perfeita, e dela nasceriam outras, porque para eles nenhuma verdade divertia tanto quanto aquela mentira mantida com luxo.

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