Capítulo 82 - O palácio de Montesinos
Capítulo 82 - O palácio de Montesinos
Dom Quixote contou que, depois de cair um breve espaço dentro da cova, sentiu sono invencível. Quando abriu os olhos, achou-se no meio de prado verde, claro, fresco e tão belo que nenhum campo da superfície podia igualá-lo. Diante dele erguia-se palácio ou castelo feito de cristal transparente, cujos muros deixavam passar a luz como água parada. Da porta saiu homem venerável, com longa barba branca, vestido de modo antigo e majestoso. Aproximou-se com os braços abertos e disse que esperava havia muitos anos a presença de Dom Quixote de la Mancha, cavaleiro destinado a revelar ao mundo o que se escondia naquele encantamento.
O velho apresentou-se como Montesinos. Levou Dom Quixote para dentro do palácio e conduziu-o a uma sala onde jazia Durandarte, estendido sobre sepulcro de mármore, com a mão direita posta sobre o coração. Segundo Montesinos, ali permanecia encantado desde Roncesvales, guardando ainda a memória de Belerma, senhora por quem vivera e morrera. Contou que, no campo da morte, Durandarte lhe pedira que arrancasse seu coração e o levasse a Belerma, como última prova de amor. Montesinos cumprira a ordem, salvara o coração em sal e o entregara à dama, e desde então todos aqueles nomes de romance estavam presos por arte de Merlin no fundo da Mancha.
Dom Quixote disse ter ouvido o próprio Durandarte falar. O cavaleiro antigo, sem levantar-se, abriu os olhos, chamou Montesinos e pediu paciência, como quem espera fim de pena muito longa. Montesinos respondeu com palavras de consolação e lembrou que Merlin anunciara libertação futura pelas mãos de Dom Quixote. Nesse ponto, o narrador da visão viu passar uma procissão triste de donzelas vestidas de luto, levando entre elas Belerma. A dama parecia pálida, magra e com olhos abatidos pelo peso dos séculos. Nas mãos levava o coração de Durandarte, seco, salgado e fiel. A cena moveu Dom Quixote, que julgou grande a força do amor capaz de conservar-se mesmo em prisão tão longa.
Sancho, ouvindo o relato, arregalava os olhos e franzia a testa. O primo, ao contrário, recolhia cada detalhe como ouro para seus livros. Dom Quixote prosseguiu. Disse que Montesinos lhe mostrara o nascimento secreto do Guadiana e o mistério das lagoas de Ruidera. Ali viviam, por transformação encantada, parentes e servidores de Durandarte, mudados em águas, rios e lagoas por vontade de Merlin. O primo quase não cabia em si de contentamento, pois aquilo lhe dava matéria para obra inteira. Sancho, menos inclinado a converter rios em pessoas, perguntou se, no meio de tanto encantado, aparecera também alguma panela ou ao menos um pedaço de queijo.
Dom Quixote ignorou a irreverência e chegou ao ponto que mais lhe feria a alma. Disse que, entre as figuras vistas no palácio, apareceu Dulcineia do Toboso, tal como Sancho a mostrara no caminho: encantada em forma de lavradora, acompanhada das mesmas duas companheiras. A senhora, segundo ele, passou correndo com ligeireza estranha, sem falar. Uma das donzelas voltou depois e pediu, em nome de Dulcineia, seis reais emprestados sobre a garantia de uma saia de algodão. Dom Quixote respondeu que estava sem dinheiro, ofereceu quatro reais que Sancho trazia consigo e prometeu resgatar a prenda quando a fortuna o permitisse. Sancho quase saltou ao ouvir que seu dinheiro também descera à cova sem licença.
O escudeiro tentou desfazer a visão. Disse que, se a tal donzela pedira dinheiro, aquilo provava haver gente muito viva naquele palácio. Também estranhou que Dulcineia, senhora tão alta, mandasse pedir reais como vizinha apertada de contas. Dom Quixote tomou a dúvida como insolência e atribuiu a miséria do pedido ao encantamento que rebaixava a dama. Assim são os males causados por feiticeiros, declarou: tiram rosto, voz, perfume, traje e até renda. O primo interveio em favor do relato, explicando que grandes encantamentos admitem contradições. Sancho guardou resposta, porque já percebia que sua própria mentira criara raiz e agora crescia debaixo da terra com folhas novas.
Dom Quixote encerrou afirmando que passara três dias completos naquele mundo profundo, embora Sancho e o primo jurassem que ficara lá pouco mais de uma hora. O cavaleiro respondeu que a medida do tempo muda em lugares encantados. O que em cima parece instante, embaixo pode ser dia inteiro; e o que ali dura século, talvez no mundo dos homens se conte por tarde curta. Sancho levou a mão à cabeça e disse que então a cova era pior que taberna ruim, onde se perde tempo e dinheiro sem saber como. Dom Quixote se ofendeu, porém conteve a ira, ainda comovido por Dulcineia. Para ele, a aventura deixara missão clara: libertar a senhora e todos aqueles antigos nomes presos sob o peso de Merlin.