Capítulo 126 - O pastor Quijótiz Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 126 de 133
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Capítulo 126 - O pastor Quijótiz

Capítulo 126 - O pastor Quijótiz

Muitos pensamentos fatigavam Dom Quixote antes da derrota, e muitos mais o cercaram depois dela. À sombra da árvore onde esperava Sancho, dividia a imaginação entre o desencanto de Dulcineia e a vida que teria de levar durante o ano de recolhimento. Quando o escudeiro voltou satisfeito com a comida de Tosilos, elogiando a liberalidade do lacaio, Dom Quixote admirou-se de que ele ainda tomasse por verdadeiro aquele mensageiro. Para o cavaleiro, o mesmo poder que pusera Dulcineia em figura de lavradora e o Cavaleiro dos Espelhos em aparência de bacharel podia muito bem fingir Tosilos outra vez. Perguntou se Sancho ao menos indagara por Altisidora, se chorava a ausência dele ou se entregara seus amores ao esquecimento.

Sancho respondeu que, diante de vinho e queijo, não tivera cabeça para bobeiras amorosas. Dom Quixote então distinguiu amor e agradecimento. Um cavaleiro podia ser desamado, dizia, mas jamais ingrato. Altisidora lhe dera toucas, chorara sua partida, maldizera seu nome em público, e todas essas violências eram sinais de paixão. Ele nada podia dar-lhe em troca, pois suas esperanças pertenciam a Dulcineia, e os tesouros de cavaleiros andantes costumavam desaparecer como dinheiro de duendes. Sancho trouxe a conversa para os açoites e duvidou que as próprias nádegas servissem ao desencanto de senhora alheia; parecia-lhe remédio tão estranho quanto ungir os joelhos para curar dor de cabeça. Ainda assim, prometeu cumprir quando tivesse vontade e ocasião.

Continuaram caminho e chegaram ao prado onde antes haviam encontrado os pastores fingidos e as pastoras ricas. Reconhecendo o lugar, Dom Quixote viu nele solução para o ano de suspensão das armas. Se não podia ser cavaleiro andante por algum tempo, seria pastor. Compraria ovelhas, instrumentos e tudo o que conviesse ao exercício campestre; chamar-se-ia pastor Quijótiz, Sancho seria pastor Pancino, e ambos andariam pelos montes e prados cantando ausências, bebendo das fontes, sentando-se sob árvores e fazendo versos que os tornassem famosos nos séculos presentes e futuros. Sancho gostou da ideia de imediato, especialmente porque imaginou que o bacharel Sansão Carrasco, o barbeiro Nicolás e talvez até o cura quisessem entrar no mesmo aprisco.

Dom Quixote começou a distribuir nomes. Sansão poderia ser pastor Sansonino ou Carrascón; Nicolás viraria Niculoso; o cura, se aceitasse o jogo, talvez Curiambro. Dulcineia conservaria seu nome, pois servia tanto a pastora quanto a princesa. Sancho escolheu Teresona para Teresa, por combinar com o corpo da mulher e manter o próprio nome. Disse ainda que o cura faria melhor em dispensar pastora, por dar bom exemplo, e que o bacharel cuidasse da alma se quisesse uma. Dom Quixote passou então a falar dos sons do campo, das gaitas, rabeles, tamborins, sonajas e albogues. Como Sancho ignorasse estes últimos, explicou-lhe que eram peças metálicas de som rústico e aproveitou para ensinar que muitas palavras castelhanas iniciadas por al vinham do árabe, entregando ao escudeiro uma lição de língua no meio da estrada.

A nova vida, em sua fantasia, teria poesia abundante. Ele queixaria ausências; Sancho celebraria firmeza; Carrascón cantaria desdéns; o cura trataria do que melhor lhe servisse. Sancho, por sua vez, via colheradas, migas, natas, guirlandas e pequenas obras de madeira feitas por suas mãos, suficientes para lhe dar fama de engenhoso. Pensou em Sanchica levando comida ao rebanho, mas logo se alarmou, pois a filha era vistosa e nem todos os pastores seriam simples. Começou a despejar refrões sobre perigos do amor nos campos e nas cidades, até Dom Quixote mandá-lo parar. Sancho respondeu que o amo o repreendia por refrões enquanto soltava os seus de dois em dois. A discussão terminou como muitas: Dom Quixote alegou propósito e medida, Sancho aceitou pouco e a noite caiu. Comeram tarde e mal; Sancho dormiu pensando que nem sempre havia castelos, bodas de Camacho ou casas de don Antonio, enquanto Dom Quixote velou entregue às próprias ideias.

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