Capítulo 8 - A carruagem e o homem da Biscaia
Capítulo 8 - A carruagem e o homem da Biscaia
Depois dos moinhos, Dom Quixote seguia ferido no corpo e inteiro na convicção. A queda não diminuíra sua certeza; pelo contrário, parecia ter-lhe dado uma prova a mais de que encantadores poderosos vigiavam seus passos. Sancho Pança, mais atento às dores visíveis do que aos inimigos invisíveis, caminhava em silêncio, calculando quanto tempo ainda faltava para que a promessa de uma ilha produzisse ao menos uma refeição decente.
A estrada trouxe então nova cena. Ao longe vinham dois frades montados em mulas, com panos de viagem e guarda-sois contra o sol. A pouca distância seguia uma carruagem, acompanhada por criados e por um homem da Biscaia, robusto, armado o bastante para defender a senhora que viajava ali dentro. Para qualquer pessoa descansada, era apenas um pequeno cortejo em deslocamento.
Para Dom Quixote, nada na estrada podia ser apenas o que parecia. Os frades tornaram-se feiticeiros. A carruagem virou prisão nobre. A senhora, que talvez desejasse somente chegar ao destino sem poeira nem sobressaltos, foi elevada por ele a princesa raptada. O mundo, mais uma vez, ofereceu fatos simples; o cavaleiro respondeu com uma leitura grandiosa e perigosa.
Sancho percebeu a mudanca no olhar do amo antes mesmo de ouvir a explicação. Já conhecia aquele brilho: era o sinal de que a realidade acabara de perder uma disputa dentro da cabeça de Dom Quixote. Tentou prevenir o desastre. Disse que eram religiosos, viajantes, gente de paz. Disse que a carruagem não parecia cativeiro. Disse tudo que a prudência mandava dizer.
Dom Quixote ouviu como quem escuta o vento bater numa porta fechada. Declarou que os frades carregavam uma dama contra a vontade e que cabia a ele, cavaleiro andante, desfazer tamanha violência. Sancho, que já vira madeira transformar-se em gigante por força de imaginação, entendeu que a nova aventura estava decidida antes de começar.
Com a lança quebrada substituida pela espada e pela solenidade, Dom Quixote avançou contra os frades, ordenando que libertassem a alta senhora que levavam sequestrada. Os homens, assustados, negaram tudo. Não sabiam de princesa, nem de sequestro, nem de encantamento. Mas a negativa, aos ouvidos do cavaleiro, só confirmava a culpa. Quem prática maldade, pensava ele, sempre se esconde atrás de palavras comuns.
Um dos frades esporeou a mula e fugiu antes que a loucura ganhasse corpo. O outro, menos rápido ou menos afortunado, acabou no chão. Dom Quixote voltou-se para a carruagem com a gravidade de quem julgava ter vencido a primeira guarda do inimigo. Pediu a senhora que retornasse ao Toboso e se apresentasse diante de Dulcineia, contando-lhe como fora salva pelo mais fiel de seus servidores.
A senhora, tomada de medo, não compreendia aquela mistura de cortesia e ameaça. Seus criados se agitaram. Sancho, vendo o frade caido, aproximou-se com uma ideia muito prática: se havia batalha, talvez houvesse despojos. Tentou tirar-lhe parte da roupa, convencido de que escudeiros também tinham direito a algum lucro nas aventuras de seus senhores.
A resposta veio sem poesia. Os homens do cortejo caíram sobre Sancho e lhe ensinaram, com pancadas, que nem toda fantasia de cavaleiro criava direitos reconhecidos pelos outros. O escudeiro ficou estendido no chão, mais pobre do que antes, e com menos vontade de discutir as regras da cavalaria. Dom Quixote, ocupado com sua própria cena, demorou a perceber a desgraça doméstica que se armava atrás dele.
Foi então que o homem da Biscaia se colocou entre o cavaleiro e a carruagem. Falava com sotaque duro, palavras quebradas, mas a intenção era clara: ninguém tocaria na senhora enquanto ele pudesse levantar a espada. Dom Quixote recebeu o desafio como confirmação final. Se havia defensor armado, havia aventura digna. Se havia resistência, havia honra a conquistar.
Os dois se insultaram com a seriedade feroz de homens que acreditam representar algo maior do que si mesmos. Dom Quixote defendia uma princesa que não existia. O biscainho defendia uma viajante real, assustada e impaciente. Entre os dois, a verdade ficou sem advogado, comprimida pela poeira, pelos criados, pela carruagem parada e pelo corpo dolorido de Sancho.
As espadas se ergueram. O homem da Biscaia usou uma almofada da carruagem como escudo improvisado, protegendo-se com a inteligencia rápida de quem não tinha interesse em morrer por uma confusão absurda. Dom Quixote, inflamado, atacou com a força de todos os livros que havia lido. Cada golpe lhe parecia escrito antes, prometido antes, necessário antes.
O combate prendeu a estrada inteira. A senhora gritava, os criados hesitavam, Sancho se levantava com dificuldade, e os animais recuavam diante do brilho das laminas. Por um instante, a fantasia de Dom Quixote conseguiu sua maior vitória: obrigou todos ao redor a viverem dentro dela. Mesmo quem não acreditava em cavaleiros precisou agir como se estivesse em uma aventura.
Quando as espadas desceram uma contra a outra, o mundo pareceu suspender a respiração. Dom Quixote vinha por cima, certo de que a glória o esperava. O biscainho firmou os pes, disposto a abrir a armadura e encerrar a loucura pela via mais curta. A história parou nesse choque, como se até o narrador tivesse perdido por um momento o fio dos papéis e das testemunhas.
Ficaram, portanto, dois homens no meio da estrada: um defendendo uma mentira nobre, outro defendendo uma verdade prática. Sancho, coberto de poeira, talvez fosse o unico a entender que ambas podiam machucar do mesmo jeito. E a carruagem, causa involuntaria de tudo, esperava que alguém devolvesse ao caminho sua forma mais simples: a de caminho.