Capítulo 33 - De volta à venda Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 33 de 133
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Capítulo 33 - De volta à venda

Capítulo 33 - De volta à venda

A venda apareceu inteira ao fim da estrada, com suas paredes modestas, seus ruídos de pouso e seu poder antigo de enganar Dom Quixote. Para Sancho, era venda e basta: lugar de comida, cama possível e contas perigosas. Para Dom Quixote, porém, continuava sendo castelo, ou coisa bastante parecida, pois agora chegava escoltando uma princesa aflita e uma missão de alto nome. A realidade, sempre teimosa, precisou outra vez vestir roupa de fantasia.

O cura percebeu isso antes de todos. Pediu discrição ao barbeiro, prudência a Doroteia e silêncio a Sancho, três pedidos quase impossíveis de cumprir ao mesmo tempo. Cardenio vinha recolhido, com o capuz baixo e o coração em sobressalto. Sabia que a estrada os levava a abrigo, notícias, encontros e talvez à figura de Fernando, cuja sombra ainda governava sua dor.

A estalajadeira e os que estavam na casa reconheceram Sancho e Dom Quixote com uma mistura de surpresa e receio. A última passagem deles por ali deixara lembranças de pancadas, contas mal pagas, bálsamo, gritos noturnos e mantas em movimento. O vendeiro olhou primeiro para Sancho, como quem mede se desta vez haveria dinheiro. Sancho desviou os olhos com a dignidade de um homem que não pretende discutir dívidas antes do jantar.

Dom Quixote entrou com solenidade. Apresentou Doroteia como senhora de alto nascimento, vítima de grande injustiça e confiada a seu braço. A venda, que para os demais cheirava a palha, suor e cozinha, foi elevada por suas palavras a fortaleza temporária da Princesa Micomicona. Doroteia sustentou o papel com rosto grave. O cura completou a encenação, pedindo aposentos e recato para a dama.

Sancho aproveitou o movimento para sondar se haveria comida. A missão de Micomicão podia ser sublime, mas a fome era imediata. Dom Quixote repreendeu-o, lembrando que escudeiros de cavaleiros famosos deviam saber suportar privações. Sancho respondeu que também deviam saber suportar caldos, pão e queijo quando aparecessem, pois Deus não punha uma venda na estrada sem intenção prática.

Enquanto se acomodavam, o cura e o barbeiro procuraram manter Dom Quixote ocupado. Falaram da jornada que ainda faltava, dos perigos do reino usurpado, da necessidade de descanso antes do combate. O cavaleiro concordou, embora declarasse que partiria a qualquer hora se a princesa ordenasse. Doroteia, entendendo o jogo, pediu-lhe que conservasse forças para a empresa maior. Era uma ordem doce e bastante eficaz.

Cardenio ficou à parte, observando entradas e corredores. A venda parecia pequena demais para conter tudo o que traziam. Sua história com Lucinda, a de Doroteia com Fernando, a loucura de Dom Quixote, o medo do cura, a fome de Sancho e os velhos ressentimentos do vendeiro se cruzavam como fios jogados sobre a mesma mesa. Bastava uma pessoa entrar para que o nó se apertasse.

Doroteia também sentiu isso. Ao deixar por um instante a postura de princesa, perguntou ao cura se era possível que Fernando passasse por ali. O cura não podia prometer nem negar. As estradas tinham seus caprichos, e aquela venda parecia especialmente inclinada a reunir o que deveria estar separado. Pediu-lhe firmeza. Se o encontro viesse, seria preciso transformar a vergonha em palavra clara.

Dom Quixote não ouviu essa conversa. Estava ocupado examinando mentalmente os deveres da aventura. Perguntou a Sancho se o elmo de Mambrino estava em segurança. Sancho lembrou a bacia com menos entusiasmo do que convinha. O barbeiro, ouvindo de longe, tossiu para esconder uma lembrança incômoda da própria profissão. A venda reunia também objetos mal nomeados, e nenhum deles estava livre de voltar à cena.

O vendeiro, por sua vez, queria apenas ordem. Não entendia princesas de Micomicão, cavaleiros andantes ou penitências de serra. Entendia quartos, animais, refeições e pagamentos. Ainda assim, vendo o cura mais sensato que os demais, aceitou moderar a desconfiança. O cura garantiu que desta vez tudo seria pago e que o fidalgo seria conduzido sem causar desastre, promessa que fez com mais esperança que certeza.

Ao cair da tarde, a venda tornou-se palco silencioso. Doroteia repousava em seu papel; Cardenio vigiava a própria agitação; Sancho farejava jantar; o barbeiro cuidava para que nenhuma parte do disfarce se desfizesse; o cura calculava o próximo passo; Dom Quixote, satisfeito, julgava-se hospedado em castelo digno de guardar uma princesa antes da grande restituição de seu reino.

Mas o ar indicava que a história não permaneceria estável. A venda, como antes, não era lugar onde as fantasias ficassem quietas. Ali elas batiam em portas, trombavam com contas, encontravam testemunhas, recebiam nomes verdadeiros. Se Serra Morena fora o espaço do esconderijo, a venda seria o espaço da revelação. Cada rosto que chegasse poderia desmanchar uma mentira ou curar uma verdade ferida.

Por isso o cura decidiu que todos deveriam descansar e observar. Não convinha apressar as confissões. A ficção de Micomicona ainda mantinha Dom Quixote conduzível; Doroteia ainda precisava de coragem; Cardenio ainda precisava de prova; Sancho ainda precisava de comida. A noite, se viesse calma, já seria vitória. Mas ninguém que conhecesse aquela venda apostaria muito alto na calma.

Assim terminou a entrada da estranha comitiva. Uma princesa inventada ocupava o centro, um cavaleiro verdadeiro apenas em sua própria cabeça prometia defendê-la, e homens feridos por promessas reais esperavam sem saber quem entraria pela porta. O castelo de Dom Quixote era uma venda; a venda dos outros era agora teatro de justiça. E, sob o mesmo teto, ficção e verdade preparavam-se para cobrar uma da outra o que faltava.

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