Capítulo 112 - O fim de Baratária
Capítulo 112 - O fim de Baratária
Cide Hamete começa este ponto lembrando que nada nesta vida permanece num só estado. As estações correm em roda, mas a vida humana avança ligeira para seu fim, e por isso o governo de Sancho, que parecia cheio de causas, leis e esperanças, desfez-se depressa como sombra em fumaça. Na sétima noite de seu mando, o governador estava na cama, não farto de pão nem de vinho, mas cansado de julgar, aconselhar e fazer ordenanças. O sono começava a fechar-lhe os olhos apesar da fome, quando ouviu grande rumor de sinos, vozes, trombetas e tambores, como se a ilha inteira viesse abaixo.
Sentou-se assustado, tentou entender a causa e nada entendeu. Calçou chinelas por causa da umidade e saiu à porta do aposento sem roupa de levantar. Viu avançar pelos corredores mais de vinte pessoas com tochas acesas e espadas nuas, gritando que inimigos infinitos haviam entrado em Baratária e que todos estavam perdidos se o valor do governador não os socorresse. Sancho respondeu que de armas e pressas nada sabia; aquilo cabia melhor a Dom Quixote, capaz de resolver batalhas em dois golpes. Os outros insistiram. Sendo governador, devia ser guia e capitão. Trouxeram então dois enormes escudos de corpo inteiro, um para a frente e outro para as costas, e amarraram-no entre as tábuas sobre a camisa, deixando apenas braços de fora e uma lança nas mãos.
Emparedado daquele modo, Sancho ficou duro como fuso, sem dobrar joelhos nem mover passo. Mandaram que caminhasse, pois seria norte, lanterna e estrela da defesa. Ele respondeu que não podia mover as rótulas e que, se queriam utilidade, o levassem nos braços e o pusessem em alguma porta, onde guardaria entrada com a lança ou com o próprio corpo. Chamaram aquilo de medo, não de impedimento. Sancho tentou andar e caiu com estrondo, fechado entre os escudos como animal em concha. Em vez de compaixão, apagaram as tochas, aumentaram os gritos e começaram a passar por cima dele, dando cutiladas nas tábuas. O pobre encolheu a cabeça e se entregou a Deus, enquanto outros tropeçavam nele, caíam, subiam-lhe ao corpo e dali comandavam a batalha fingida.
Um deles, posto sobre Sancho como em atalaia, bradava ordens de guerra: fechar portas, guardar postigos, quebrar escadas, trazer resina, óleo, colchões e defesas. O governador, esmagado e suado dentro da armadura improvisada, pedia em silêncio que Deus acabasse logo com a ilha, ainda que fosse perdendo-a inteira. O céu, ou a vontade dos burladores, ouviu o pedido. De repente soaram vozes de vitória. Os inimigos fugiam vencidos, e Sancho deveria levantar-se para repartir despojos conquistados por seu braço invencível. Ele pediu que o levantassem e disse, com voz dolorida, que o inimigo por ele vencido poderia ser pregado em sua testa. Não queria repartir despojos; queria um gole de vinho e alguém que lhe enxugasse o suor, pois estava feito água.
Limparam-no, trouxeram vinho, desataram os escudos e sentaram-no na cama. Sancho desmaiou de medo, trabalho e sobressalto. Os que tramaram a burla começaram a arrepender-se de havê-la levado tão longe, mas o alívio veio quando ele recobrou os sentidos. Perguntou a hora; responderam que amanhecia. Sem dizer palavra, vestiu-se devagar, porque o corpo inteiro doía, e foi à estrebaria. Todos o seguiram, esperando o desfecho. Chegando ao rucio, abraçou-o e beijou-lhe a testa com lágrimas nos olhos. Chamou-o companheiro, amigo e parceiro de trabalhos. Enquanto vivia com ele, ocupado apenas em remendar arreios e sustentar seu corpo pequeno, seus dias eram felizes; desde que subira às torres da ambição, entraram-lhe pela alma mil misérias e quatro mil desassossegos.
Enquanto falava, albardava o asno. Depois subiu com dificuldade e voltou-se ao mordomo, ao secretário, ao mestre-sala, ao doutor Pedro Recio e aos demais. Pediu caminho para voltar à antiga liberdade. Não nascera para defender ilhas ou cidades de inimigos; entendia melhor de arar, cavar, podar e cuidar de vinhas que de dar leis e sustentar províncias. Cada um fica bem no ofício para que nasceu. Melhor lhe caía foice na mão que cetro de governador; preferia fartar-se de gazpachos a morrer de fome nas mãos de médico impertinente; preferia sombra de azinheira no verão e zamarro no inverno, com liberdade, a lençóis finos e roupas ricas sob sujeição. Entrara sem dinheiro e saía sem dinheiro, ao contrário de muitos governadores, e isso bastava como conta de seu mando.
Pedro Recio prometeu então bebida contra quedas e molimentos, além de comida abundante dali em diante. Sancho respondeu que a promessa chegava tarde. Não ficaria em Baratária nem aceitaria outro governo, ainda que lho servissem entre dois pratos. Era Pança, e os Panzas, quando diziam não, sustentavam o não contra o mundo. Mandou que ficassem ali as asas da formiga que o tinham levantado para depois entregá-lo aos pássaros. Queria voltar a andar pelo chão; se faltassem sapatos finos, bastariam alpargatas grosseiras. Cada ovelha com sua parelha, e ninguém deve estender a perna além do comprimento do lençol.
O mordomo alegou que todo governador, antes de sair, devia prestar residência. Sancho respondeu que a daria ao duque, pois a ele pertencia pedi-la, e que sua saída sem um branco já provava governo limpo. O doutor concordou que convinha deixá-lo ir, certo de que o duque gostaria muito de vê-lo. Ofereceram-lhe companhia e conforto para a viagem, mas Sancho quis apenas um pouco de cevada para o rucio, meio queijo e meio pão para si, pois o caminho era curto. Todos o abraçaram, e ele, chorando, abraçou a todos. Deixou-os admirados pela firmeza e pela discrição de sua renúncia, talvez mais governador ao abandonar o posto que enquanto o ocupava.