Capítulo 7 - A batalha contra os moinhos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 7 de 133
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Capítulo 7 - A batalha contra os moinhos

Capítulo 7 - A batalha contra os moinhos

O vento corria pela planície, trazendo poeira, calor e aquele ruído baixo que faz as coisas paradas parecerem vivas. Dom Quixote ergueu o corpo sobre Rocinante. A estrada, que até então parecia apenas estrada, subitamente se abriu diante dele como campo de prova.

Sancho Pança, atrás, viu primeiro as torres brancas. Eram moinhos de vento, conhecidos naquelas terras, altos, úteis, presos ao trabalho simples de transformar grão em farinha. As pás giravam com lentidão irregular, ora mansas, ora bruscas, conforme a força do ar. Para Sancho, aquilo significava aldeia por perto, talvez sombra, talvez água, talvez pão.

Para Dom Quixote, porém, nada havia de doméstico naquela visão. As pás se tornaram braços enormes. As torres cresceram como corpos de gigantes. O movimento do vento pareceu provocação, ameaça, desafio público aos fracos e aos indefesos. Seus olhos, educados por anos de leitura, recusaram a forma comum das coisas. Reescreveram a paisagem antes que Sancho pudesse dizer qualquer palavra útil.

Lá estão, amigo Sancho, disse o cavaleiro, mais de trinta gigantes desmedidos. Com eles penso travar batalha e tirar-lhes a vida, para que a terra fique livre de tamanha má raça. Sancho puxou as rédeas do jumento e olhou de novo, como quem espera que a loucura do outro contamine também a paisagem. Continuou vendo madeira, pedra, pano e vento.

Senhor, respondeu com cuidado, aquilo não são gigantes. São moinhos. E os braços que vos parecem braços são pás, que o vento move para moer o trigo. Falou sem zombaria, porque já aprendera que corrigir Dom Quixote era como tentar segurar água com os dedos: quanto mais firme a mão, mais depressa a coisa escapava.

Dom Quixote não ouviu a prudência. Ou ouviu e a traduziu como medo. Disse que Sancho era inexperiente em aventuras e que as aparências, no mundo dos cavaleiros, quase sempre eram enganos fabricados por encantadores. Onde o escudeiro via máquina, ele via inimigo. Onde Sancho via trabalho humano, ele via afronta mítica. A Mancha inteira se dividia entre duas leituras inconciliáveis.

Sem esperar resposta, encomendou-se a Dulcineia del Toboso, baixou a lança e apertou os calcanhares contra Rocinante. O cavalo, velho e magro, avançou com a dignidade possível aos corpos cansados. Para Dom Quixote bastava: em sua cabeça, a grandeza completava por dentro aquilo que o mundo deixava pobre por fora.

Sancho gritou. Pediu que parasse. Repetiu que eram moinhos. Gritou com a voz de quem já via o desastre antes que ele acontecesse. O cavaleiro seguia, preso a uma certeza tão limpa que nenhuma evidência conseguia manchá-la. A lança apontava para uma das pás que o vento fazia girar.

No instante do choque, a realidade respondeu com sua brutalidade simples. A ponta da lança bateu na madeira, a pá girou com força e levantou cavaleiro e cavalo como se fossem coisas leves demais para desafiar o vento. A lança se quebrou. Rocinante tombou. Dom Quixote rolou pelo chão, envolto em poeira, ferro velho e assombro.

Sancho correu até ele o mais depressa que seu jumento permitiu. Encontrou o amo caído, dolorido, já à procura de uma explicação maior que a queda. Não fora erro, disse Dom Quixote, nem imprudência. Fora obra do sábio Frestão, inimigo antigo, que transformara os gigantes em moinhos no momento final para roubar-lhe a glória da vitória.

Sancho olhou para os moinhos, depois para a lança quebrada, depois para o corpo machucado do amo. Quis responder que ali só havia vento, madeira e teimosia. Percebeu, porém, que Dom Quixote perderia coisa maior se admitisse o moinho: perderia a construção inteira que sustentava sua vida.

Ajudou-o a levantar-se. Sacudiu-lhe a poeira da armadura. Recolheu o que restava da lança. O escudeiro descobria, naquela manhã, que acompanhar Dom Quixote significava caminhar ao lado de uma visão capaz de ferir o corpo e, ainda assim, proteger a alma de reconhecer a própria derrota.

Dom Quixote, embora quebrado, manteve a voz solene. Disse que as coisas da guerra eram sujeitas a mudanças, que a fortuna ora ajudava, ora traía, e que um cavaleiro verdadeiro não media sua honra pelo resultado imediato. Sancho, que media quase tudo pelo resultado imediato, guardou a resposta. Às vezes calar era a única forma de continuar empregado pela esperança.

Seguiram viagem devagar. A cada passo, Rocinante parecia lembrar o impacto. A cada olhar para trás, Sancho via os moinhos continuarem girando, indiferentes à glória, à vergonha e aos nomes que os homens davam ao mundo. Dom Quixote, por sua vez, já transformava a queda em episódio de perseguição encantada.

A primeira grande aventura da segunda saída terminava sem gigante morto, sem prêmio e sem ilha. Ainda assim, algo havia começado. Sancho compreendera que seu amo disputava com a realidade o direito de nomeá-la. E Dom Quixote, ferido, seguia convencido de que todo moinho podia esconder um gigante, desde que houvesse alguém disposto a atacar primeiro.

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