Capítulo 47 - A fuga de Zoraida Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 47 de 133
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Capítulo 47 - A fuga de Zoraida

Capítulo 47 - A fuga de Zoraida

O cativo continuou, e todos na venda se inclinaram para a parte mais arriscada da história. Disse que, depois de muitas mensagens, o plano enfim encontrou noite possível. A barca estava combinada, os companheiros escolhidos, o dinheiro de Zoraida convertido em promessas e subornos. Restava o passo mais difícil: tirar a própria Zoraida da casa do pai sem que amor, medo ou vigilância destruíssem tudo.

A noite chegou sobre Argel como cúmplice imperfeita. Nenhuma escuridão é completa quando há guardas, cães, vizinhos, criados e o coração batendo alto demais. O cativo e seus companheiros moveram-se com cautela até perto da casa. Zoraida esperava. Desceu sem leveza de fugitiva feliz; parecia arrancar a própria vida de um lugar onde criara raízes. Levava joias, algum dinheiro e uma decisão mais firme que qualquer bagagem.

O pai de Zoraida interrompeu a fuga. A história, disse o cativo, recusou essa facilidade. Em algumas versões da dor, o pai acorda tarde demais; naquela noite, ele apareceu quando a filha já se afastava da casa. Houve surpresa, súplica, mãos que se ergueram, vozes abafadas. Os fugitivos precisaram contê-lo sem feri-lo gravemente. Zoraida chorou. Escolher o próprio destino não apagava o rosto de quem ficava.

Na venda, Zoraida ouviu essa parte com os olhos úmidos. Doroteia segurou-lhe a mão. O cativo falou com respeito pelo velho pai, como já fizera antes. Em sua lembrança, ele era um homem preso ao outro lado da mesma ruptura. A fuga perdia qualquer brilho de triunfo e ganhava peso humano. A liberdade de Zoraida trazia junto a perda de outro.

Conduziram-na à barca. O mar, que parecia caminho de salvação quando visto da prisão, tornou-se ameaça tão logo os recebeu. A noite escondia e confundia. Era preciso remar sem chamar atenção, orientar-se sem luz, guardar a voz entre homens exaustos e uma mulher que deixava para trás casa, língua e pai. O cativo sabia que qualquer embarcação inimiga, qualquer patrulha, qualquer erro de direção podia devolvê-los a castigo pior.

Nos primeiros momentos, a esperança vinha misturada ao medo. A costa afastava-se devagar. Argel ficava para trás como massa escura, cheia de perigos que ainda pareciam estender mãos. Zoraida olhava a água. O cativo não sabia se deveria consolá-la. Que palavra consola alguém que escapa e perde na mesma noite? Disse apenas que estavam no caminho. Ela respondeu, com língua ainda incerta, que confiava em Lela Mariem.

Dom Quixote, ouvindo, murmurou que toda dama de coragem devia ter estrela que a guiasse. Sancho achou que, em barco pequeno, além de estrela convinha ter remador bom. O cura fez sinal para que ambos deixassem o cativo seguir.

O perigo veio antes que a esperança se firmasse. O mar levantou vento, e a barca, pesada de gente e medo, começou a obedecer mal. Alguns companheiros discutiram em voz baixa sobre direção. Um queria afastar-se mais da costa; outro temia perder rumo; outro via sinais de embarcação distante. Cada escolha carregava vida e morte. O cativo, habituado à disciplina militar, tentou impor ordem; fugitivos, porém, não se alinham como soldados em campo claro.

Em determinado momento, ouviram vozes ao longe. Não sabiam se vinham de pescadores, corsários ou da imaginação assustada. Apagaram qualquer sinal, recolheram movimentos, deixaram a barca quase respirar sozinha. Zoraida ficou imóvel. O pai, retido ou deixado para trás conforme o tumulto permitira, pesava na consciência de todos. A noite inteira virou espera.

As vozes passaram ou se perderam. Remaram de novo. A liberdade tinha frio, cansaço, sede e incerteza. Os joelhos doíam, as mãos abriam feridas, a água entrava na barca. Zoraida, criada em casa de riqueza, não reclamou. Essa firmeza impressionou até os homens mais duros. O cativo disse que ali compreendeu de vez: ela fugia por decisão de alma.

A madrugada trouxe claridade pálida e com ela novo medo: serem vistos. A costa ainda não desaparecera o bastante. Precisavam escolher se avançavam mar adentro ou buscavam enseada onde repousar. O dinheiro de Zoraida comprara o começo da fuga; o fim continuava entregue ao vento, aos remos e à sorte. O mar não se suborna. O cativo repetiu essa frase e a venda entendeu.

Houve ainda outro risco. Alguns dos homens, vendo as joias e percebendo a fragilidade da situação, começaram a olhar com cobiça. O cativo percebeu e armou-se de autoridade. Lembrou-lhes que todos dependiam uns dos outros. Se traíssem Zoraida, traíam a fuga inteira. A ganância recuou, sem desaparecer. Em viagens perigosas, o inimigo nem sempre vem de fora.

Zoraida, percebendo os olhares, entregou parte do que levava ao cativo, como se dissesse: use para salvar-nos, não para enriquecer-nos. A atitude recompôs a ordem dentro da barca. Os homens viram que ela compreendia o preço do caminho. Ela participava da empresa; não seguia como carga preciosa transportada por outros. Essa diferença, disse o cativo, talvez tenha salvado a todos naquele momento.

O relato parou quando o barco ainda estava entre perigos. Já tinham saído de Argel sem alcançar segurança. Tinham deixado a prisão e ainda não tocavam a liberdade. O mar abria diante deles uma página sem garantia. O cativo disse que a parte seguinte contaria como a fuga prosseguiu, que encontros tiveram e de que modo, depois de tanto medo, vieram parar em terra cristã.

Na venda, ninguém reclamou da pausa. O aperto da fuga bastava para encher o intervalo. Dom Quixote parecia pronto a montar guarda contra todos os corsários do mundo. Sancho, mais modesto, agradecia por estar em chão firme, ainda que esse chão fosse venda endividada. Zoraida permanecia quieta, como quem ainda escuta o mar. E o cativo, olhando para ela, deixava claro que aquela liberdade nascera sobretudo da coragem de uma mulher que abrira caminho para ambos.

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