Capítulo 2 - A venda que parecia castelo
Capítulo 2 - A venda que parecia castelo
Dom Quixote avançou pela estrada como quem já caminhava dentro da matéria dos livros. O sol subiu com dureza sobre a planície, e a poeira cobriu Rocinante, as armas velhas e o rosto magro do novo cavaleiro. Nada havia ali de corte, trombeta ou presságio solene. Havia calor, silêncio, pedras, campos distantes e o ranger de um animal cansado. Ainda assim, para ele, cada sinal parecia carregado de promessa.
A primeira inquietação apareceu quando a fome e o cansaço comecaram a falar mais alto que a glória. Um cavaleiro andante podia desprezar o conforto, mas não podia negar que o corpo também exigia obediência. Dom Quixote olhava ao redor em busca de castelo onde pudesse ser recebido, reconhecido e, se a fortuna permitisse, armado segundo o rito que sua imaginação julgava indispensável.
Ao cair da tarde, viu uma venda pobre junto ao caminho. Para qualquer viajante comum, era abrigo modesto: paredes gastas, patio rude, cheiro de comida simples e vozes sem cerimônia. Para Dom Quixote, porém, a venda se ergueu como fortaleza. As paredes tornaram-se muralhas; o vendeiro, senhor de castelo; duas mulheres que ali estavam, damas de alta presença. O mundo não mudara. Mudara o olhar que o recebia.
Ao aproximar-se, tentou manter a gravidade que julgava própria de sua condição. As armas pesavam, o corpo doia, mas a voz procurava grandeza. Pediu acolhida com palavras tão antigas e elevadas que os presentes quase não souberam se riam ou respondiam. O vendeiro percebeu de imediato que tinha diante de si homem mais governado por livros que por juízo, mas também viu que não parecia perigoso se fosse tratado com alguma prudência.
As mulheres riram primeiro. Dom Quixote, longe de se ofender, tomou o riso por delicadeza cortes. Chamou-as de formosas senhoras, agradeceu-lhes favores que elas não haviam concedido e transformou cada gesto ordinário em sinal de nobreza. Quanto mais a cena se inclinava ao ridículo, mais ele a sustentava com uma seriedade quase dolorosa. Era esse o espanto: sua loucura não vinha da falta de grandeza, mas do excesso dela depositado no lugar errado.
Como não conseguia retirar o elmo improvisado sem ajuda, comeu com dificuldade. Serviram-lhe alimento simples, e ele aceitou como banquete de castelo. Bebeu com cuidado, ouviu vozes grosseiras como se fossem murmurinhas de salão e manteve Rocinante sob a dignidade de montaria heroica. A noite da venda, que para os outros era apenas parada de estrada, tornou-se para ele a antecamera de sua verdadeira consagração.
Faltava-lhe, contudo, um problema grave: ainda não fora armado cavaleiro por autoridade reconhecida. Sem esse rito, suas futuras aventuras pareciam incompletas. Procurou então o vendeiro e, com toda solenidade, pediu que o senhor daquele castelo lhe concedesse a honra de vela e investidura. O homem, percebendo que contrariar a fantasia talvez desse mais trabalho que acompanha-la, aceitou o papel que lhe era oferecido.
Dom Quixote passou parte da noite velando as armas no patio. Deposito de animais, passagem de viajantes e canto de gente cansada viraram, em sua cabeça, capela de honra. Quando alguém tentou mexer nas armas para usar o espaco, ele reagiu como defensor de altar sagrado. A confusão quase cresceu demais, mas o vendeiro apressou a cerimônia, menos por respeito ao rito que pelo desejo pratico de encerrar o tumulto.
Com palavras improvisadas e gestos suficientes para alimentar a crença do fidalgo, o vendeiro declarou Dom Quixote armado cavaleiro. Não houve música, corte nem testemunha digna de crônica. Houve uma venda escura, gente tentando conter o riso e um homem convencido de que pisava o limiar de seu destino. Para ele, bastou. A realidade oferecera pouco; sua imaginação completou o resto com abundância.
Ao amanhecer, Dom Quixote deixou a venda com o peito aceso. Agora se julgava inteiro: nome, dama, cavalo, armas e título. A estrada podia enfim revelar injustiças, encantadores, gigantes e cativos. Ninguém ali sabia se ele voltaria vivo, ferido ou apenas mais ridículo. Ele, porém, partiu como quem já carregava uma vitória, pois tinha recebido do mundo o minimo necessário para continuar acreditando nele.