Capítulo 14 - A defesa de Marcela Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 14 de 133
Obra Menu

Capítulo 14 - A defesa de Marcela

Capítulo 14 - A defesa de Marcela

A sepultura de Grisóstomo estava aberta entre as pedras e os ramos do monte, e todos os que tinham subido até ali falavam baixo, como se a própria serra tivesse tomado parte no luto. Ambrosio permanecia junto ao corpo do amigo, guardando-lhe os papéis, as palavras e a última vontade. Vivaldo, curioso e compassivo, olhava ora para o morto, ora para Dom Quixote, que assistia a tudo com gravidade de cavaleiro em campo solene.

Foram lidos versos de Grisóstomo, cheios de queixa, fogo e desespero. Neles o pastor chamava Marcela de dura, ingrata e causa de sua morte, como se uma mulher pudesse ser culpada por não corresponder ao desejo de quem a amava. Muitos dos presentes, comovidos pela dor e pela juventude do morto, repetiam a acusação sem examiná-la. A tristeza, quando se junta a multidão, muitas vezes procura um culpado antes de procurar a verdade.

Ambrosio, com os olhos vermelhos, pediu que os papéis fossem enterrados com Grisóstomo, pois assim queria o amigo. Vivaldo tentou salvar alguns deles, dizendo que tamanha arte não devia desaparecer sob a terra. A disputa ainda corria entre a piedade e a curiosidade quando uma voz se levantou acima do murmúrio. Todos voltaram o rosto para o alto de uma rocha. Ali estava Marcela.

Não vinha como culpada, nem como suplicante. Vinha vestida de pastora, clara contra a aspereza do monte, com tal compostura que o silêncio caiu de uma vez. A beleza dela, que tantos tinham transformado em tribunal, parecia naquele instante apenas o que sempre fora: uma qualidade sua, não uma promessa feita aos outros. Marcela olhou para o corpo de Grisóstomo, para Ambrosio, para os pastores reunidos, e falou sem tremor.

Disse que viera por saber que a acusavam de cruel. Não aceitava que a chamassem homicida por não amar quem a amava. Se a natureza lhe dera beleza, não lhe dera por isso obrigação de entregar a vontade. Quem nasce formosa, disse ela, não nasce devedora. Amar alguém por ser visto não cria contrato; desejar não e direito; insistir não transforma recusa em culpa.

Os pastores se entreolharam, porque a verdade, quando entra em lugar acostumado ao costume, primeiro parece insolência. Marcela prosseguiu. Lembrou que nunca prometera casamento a Grisóstomo, nem a outro homem algum. Sempre dissera que queria viver livre, entre os campos, guardando sua honra e escolhendo sua própria companhia. Se Grisóstomo tomara sua recusa por ferida mortal, essa dor era dele; ela podia lamenta-la, mas não podia ser condenada por não fingir amor.

Disse ainda que a honestidade não dependia de agradar aos que a perseguiam. Vivia nos montes para fugir de casas, pedidos, olhares e discursos que queriam fazer de sua vida uma posse alheia. Preferia a solidão limpa das serras a uma paz comprada com submissão. Não desprezava os homens por maldade; apenas não entregava a nenhum deles o governo de si mesma.

Ambrosio quis responder, ferido pela fidelidade ao amigo. Mas as palavras de Marcela tinham posto ordem onde antes havia só paixão. Ela não zombava de Grisóstomo, não diminuía sua dor, não tratava o morto com frieza. Apenas separava compaixão de culpa. Podia chorar uma morte sem admitir que sua liberdade fosse o crime que a causara.

Dom Quixote escutava com a mão sobre a espada e os olhos acesos. Naquela defesa, via uma dama cercada por vozes injustas, e também uma verdade maior que seus livros: nem todo socorro de cavaleiro consiste em vencer alguém pela força; às vezes consiste em garantir que uma pessoa possa ir embora sem ser tomada por prêmio, presa ou troféu.

Quando terminou, Marcela não esperou sentença. Disse que voltaria para a espessura do monte, onde sua vida lhe pertencia. Depois desceu da pedra com passo firme e tomou uma vereda entre as árvores. Alguns pastores, ainda presos ao costume de transformar desejo em perseguição, fizeram menção de segui-la. Então Dom Quixote avançou.

Ergueu a voz e declarou que ninguém ousasse ir atrás daquela donzela. Ela havia provado sua inocência com razões tão claras que só a injustiça poderia continuar acusando-a. Quem tentasse perturbá-la teria de responder diante dele, cavaleiro andante obrigado a proteger a liberdade ameaçada. Sancho, que nem sempre entendia as delicadezas da honra, entendeu ao menos que o amo falava sério, e ficou junto de Rocinante olhando os pastores com ar de quem preferia não participar de nova pancadaria.

A ordem bastou. Marcela desapareceu entre os verdes do monte, livre como entrara, e os homens ficaram junto ao morto, cada um entregue ao próprio desconcerto. Grisóstomo foi sepultado conforme sua vontade. Sobre a cova ficaram lagrimas, versos e uma pergunta difícil: quantas dores humanas nascem não do amor, mas da vontade de possuir o que não prometeu pertencer?

Dom Quixote permaneceu ainda um tempo em silêncio. Depois, como quem fecha um caso de honra, voltou-se para Sancho. O mundo, pensava ele, continuava cheio de agravos a corrigir. E se os montes tinham dado a ver uma pastora livre, também haveriam de dar, mais adiante, novas aventuras a um cavaleiro que confundia a estrada com o livro e o livro com a justiça.

1/1
Menu

Fazer anotação