Capítulo 27 - O relato de Cardenio
Capítulo 27 - O relato de Cardenio
Dom Quixote não quis deixar Serra Morena sem falar com o homem dos papéis. A figura que desaparecera entre as pedras parecia-lhe chamada clara da fortuna: um amante ferido, um nobre enlouquecido, uma história quebrada à espera de cavaleiro que a recolhesse. Sancho preferia recolher comida, sono e distância, mas já sabia que esses bens raramente venciam a curiosidade do amo.
Com ajuda do pastor, encontraram Cardenio numa clareira cercada de rochas. Estava sentado no chão, magro, coberto de trapos, os cabelos em desordem. Tinha os olhos fundos de quem olha sempre para uma cena que os outros não veem. Ao perceber gente próxima, levantou-se com rapidez selvagem; depois, ao ouvir palavras mansas, conteve-se. Havia nele duas pessoas disputando o mesmo corpo.
Dom Quixote aproximou-se com cortesia. Disse que desejava ajudá-lo, se havia ofensa a vingar ou dor a compreender. Cardenio respondeu com fala educada, quase nobre, pedindo que não o julgassem por suas roupas nem pelo lugar onde vivia. Fora homem de casa honrada, disse, e se agora parecia fera era porque a fortuna o tratara como presa.
Sentaram-se. Sancho ficou a meia distância, pronto para ouvir e igualmente pronto para correr. O pastor advertira que certas palavras podiam acender a fúria do pobre homem. Dom Quixote, porém, dava tanta atenção à história que esquecia o perigo. Cardenio começou devagar, como quem pisa em ponte quebrada.
Contou que nascera em Andaluzia, de família nobre, e que desde jovem amara Lucinda. Ela era bela, discreta e tão ligada a ele por afeição antiga que ambos se julgavam prometidos antes mesmo que as famílias decidissem. As cartas entre eles eram prova desse amor, e Cardenio falava delas como quem toca relíquias. Ao pronunciar o nome de Lucinda, sua voz adoçava e doía.
Disse então que tinha um amigo poderoso, Fernando, filho de grande senhor. Fernando era generoso quando queria, perigoso quando desejava, e acostumado a fazer do mundo extensão de sua vontade. Cardenio servira-lhe com lealdade, confiara-lhe segredos e, como acontece aos corações limpos demais, não percebeu a tempo que uma confidência pode virar arma.
Fernando soube de Lucinda. Primeiro ouviu como amigo; depois começou a perguntar como rival. Cardenio, ainda cego de confiança, falou de sua beleza, virtude e amor. Quanto mais dizia, mais acendia no outro aquilo que deveria ter mantido adormecido. Sancho, ouvindo, balançou a cabeça. Até ele entendia que elogiar demais a própria amada diante de homem ambicioso era abrir porta para ladrão.
Cardenio contou que precisou afastar-se por ordem de Fernando. O amigo o mandara tratar negócios, enquanto por trás preparava aproximação da casa de Lucinda. A narrativa então se quebrou. Cardenio levou as mãos à cabeça, respirou com força e começou a repetir que confiara, confiara, confiara. A palavra saía como pancada.
Dom Quixote tentou consolá-lo, dizendo que traidores de amizade merecem castigo exemplar. Isso agradou Cardenio por um instante. Ele retomou o fio: Lucinda continuava fiel, dizia, mas estava cercada pela vontade dos pais e pela posição de Fernando. As cartas dela ainda prometiam constância. Ainda assim, o mundo dos poderosos apertava o laço.
Quando Cardenio mencionou livros de cavalaria, Dom Quixote, animado, comparou sua dor a episódios de Amadis e outros cavaleiros amantes. O nome e a comparação, que para Dom Quixote eram naturais, fizeram Cardenio estremecer. Sua mente, já instável, tomou a interrupção como zombaria ou desvio. Os olhos mudaram. A voz perdeu a ordem.
Começou a falar de Fernando como traidor, de Lucinda como santa e perdida, de casamento forçado, de cartas escondidas, de punhais e igrejas. As frases vinham rápidas demais. Dom Quixote tentou perguntar, Sancho tentou pedir calma, o pastor fez sinal para que se afastassem. Tarde. Cardenio explodiu em fúria, acusando todos de não entenderem nada do que fora arrancado dele.
Num salto, agarrou pedras e avançou. Dom Quixote ergueu-se, mais surpreendido que pronto. Sancho não esperou explicação: recuou com a sabedoria de quem já conhecia pedras em várias circunstâncias. O pastor tentou acalmar o homem, mas Cardenio já se afastava, gritando nomes quebrados pela serra: Lucinda, Fernando, traição.
Logo desapareceu entre as rochas, deixando atrás de si uma história incompleta e mais perguntas que respostas. Dom Quixote ficou pensativo. Via naquele homem uma dor digna de cavaleiro, mas também uma advertência: a loucura por amor podia ter formas menos organizadas que as dos livros. Sancho, limpando poeira da roupa, comentou que histórias incompletas talvez fossem melhores que histórias completas quando o narrador tinha pedras à mão.
Decidiram permanecer na serra o bastante para descobrir o resto. Cardenio havia aberto uma porta e fugido por ela. Atrás dessa porta estavam Lucinda, Fernando e uma injustiça que parecia real demais para ser apenas fantasia de Dom Quixote. Pela primeira vez em muitas aventuras, talvez o mundo estivesse tão desordenado quanto o cavaleiro imaginava.