Capítulo 63 - As contas de Sancho
Capítulo 63 - As contas de Sancho
Sancho voltou depois de comer, mais disposto a defender sua honra do que a satisfazer curiosidade de bacharel. Sentou-se diante de Dom Quixote e Sansón Carrasco como homem chamado a juízo, ainda que seu rosto trouxesse a confiança de quem acha que sofreu bastante para ter direito a qualquer resposta. O bacharel pediu notícias do jumento, pois os leitores da história estranhavam que o animal sumisse e reaparecesse sem explicação bastante. Sancho pigarreou, tomou o caso desde a noite em que fugiram da Santa Hermandad e contou que, na Serra Morena, dormira tão pesado sobre o rucio que o ladrão pôde erguer-lhe o corpo com estacas, tirar o animal debaixo dele e deixá-lo acordar em queda vergonhosa.
Dom Quixote achou o artifício possível, lembrando façanhas de ladrões famosos nas velhas histórias de cavalaria. Sancho prosseguiu, dizendo que chorara pelo rucio como quem perde parente útil, e que, se o autor não registrara aquela lamentação, deixara fora uma das coisas melhores de sua vida. Depois reconhecera o animal nas mãos de Ginés de Pasamonte, vestido como cigano, o mesmo homem que ambos tinham tirado da corrente dos galeotes. Sansón explicou que a dificuldade dos leitores estava em outro ponto: antes de o rucio aparecer de novo, o livro já punha Sancho montado nele. O escudeiro levantou os ombros. Ou o historiador se enganara, disse, ou o impressor dormira sobre o trabalho.
Vieram então os cem escudos achados em Serra Morena. Sancho declarou que os gastara em proveito de sua pessoa, de sua mulher e de seus filhos, e que esse dinheiro ajudara Teresa a tolerar as ausências, os caminhos e as promessas que ainda não tinham virado ilha. Se voltasse para casa sem rucio, sem escudos e sem esperança, talvez encontrasse no próprio lar pior acolhida que nas vendas. Acrescentou que, se cada pancada recebida naquelas aventuras fosse paga a preço baixo, outros cem escudos não bastariam para indenizar metade de seus ossos. Cada um, concluiu, devia pôr a mão no peito antes de julgar as contas alheias, pois os homens são como Deus os fez e, muitas vezes, um pouco piores.
Sansón prometeu lembrar tudo isso ao autor, se a história tivesse nova impressão. Dom Quixote perguntou se o livro prometia continuação. O bacharel respondeu que sim, embora houvesse dúvida sobre o paradeiro dos papéis seguintes e sobre a conveniência de uma segunda parte. Alguns diziam que segundas partes raramente conservam o vigor da primeira; outros queriam mais feitos de Dom Quixote e mais palavras de Sancho. O escudeiro tomou a notícia como chamado direto. Se o autor procurava matéria, ali estavam eles, vivos, cheios de caminhos por fazer, capazes de fornecer aventuras suficientes para cem partes. Bastava que seu amo aceitasse conselho e tornasse aos campos sem demora.
Nesse instante, Rocinante relinchou no pátio. Dom Quixote recebeu o som como sinal feliz, e a decisão que já crescia dentro dele ganhou forma. Dentro de poucos dias sairia outra vez, e perguntou a Sansón por onde convinha iniciar a jornada. O bacharel sugeriu o reino de Aragão e a cidade de Zaragoza, onde festas e justas de São Jorge dariam ao cavaleiro ocasião de fama diante dos melhores. Louvou a resolução, mas aconselhou prudência nos perigos, pois a vida de Dom Quixote pertencia a todos os necessitados que ainda poderiam receber amparo de sua mão.
Sancho apoiou a prudência com entusiasmo interessado. Disse que seu amo atacava cem homens armados com a mesma pressa com que um menino guloso procura fruta madura, e que havia tempo de avançar e tempo de guardar a pele. Aceitava acompanhá-lo, desde que ficasse entendido que Dom Quixote cuidaria das batalhas, enquanto ele trataria da limpeza, do regalo, dos recados e da fidelidade de escudeiro. Fama de valente não lhe faltaria, porque nunca a buscara; bastava-lhe a fama de leal. Se a ilha aparecesse, receberia a mercê de bom grado. Se não aparecesse, Sancho nascera Sancho e morreria Sancho, embora não fosse homem tão sem juízo que recusasse reino caído do céu.
Sansón riu e afirmou que Sancho falava como catedrático. Dom Quixote pediu-lhe então versos para a despedida de Dulcineia, com as letras do nome dela escondidas no princípio de cada verso. O bacharel achou dificuldade no número das letras, prometeu resolver como poeta pudesse e guardou segredo sobre a partida. Ficou combinado que a nova saída se daria dali a oito dias, sem notícia ao cura, ao barbeiro, à ama ou à sobrinha, para que ninguém levantasse barreira contra resolução tão honrada. Sansón se despediu prometendo amizade e silêncio. Sancho saiu para preparar alforjes, rucio, contas domésticas e a coragem que sempre lhe chegava misturada com medo.