Capítulo 12 - Grisóstomo e a pastora Marcela
Capítulo 12 - Grisóstomo e a pastora Marcela
A noite entre os cabreiros ainda guardava calor de fogo quando a conversa mudou de tom. Depois da comida simples, do canto e do discurso de Dom Quixote sobre a Idade de Ouro, um nome começou a circular entre os homens da serra com peso diferente: Grisóstomo. Trazia o peso de um morto recente, de alguém conhecido, de uma tristeza que ainda não tivera tempo de virar história.
Um dos cabreiros contou que Grisóstomo fora estudante rico, homem de família boa, acostumado mais aos livros do que aos caminhos duros da montanha. Tinha deixado os estudos e as comodidades para vestir-se de pastor, não por pobreza nem vocação simples, mas por amor. Seu amor chamava-se Marcela, e bastava esse nome para que os homens ao redor do fogo se inclinassem um pouco, como se a beleza dela ainda passasse invisível pela cabana.
Marcela, disseram, era filha de Guilherme, lavrador respeitado e já morto. Herdara beleza, fortuna e uma liberdade rara. O tio, que a criara, quis casa-la muitas vezes, pois pretendentes não faltavam; mas ela recusava todos. Não por frieza vazia, nem por promessa secreta, mas porque queria guardar a própria vida. Preferia andar pelos campos como pastora, entre outras mulheres, livre da posse que tantos chamavam de amor.
Essa liberdade, em vez de ser entendida, virou acusação. Os homens que a desejavam chamavam-na cruel porque ela não devolvia o desejo. Faziam versos, suspiravam, abandonavam casas, vestiam-se de pastores e depois culpavam Marcela pelo próprio desgoverno. A serra encheu-se de pretendentes feridos mais pelo orgulho do que pelo destino, cada um convencido de que sua dor lhe dava direito sobre a vontade dela.
Grisóstomo fora o mais famoso entre eles. Trocara roupa, habito e futuro para seguir os passos de Marcela pelos montes. Tinha cantado, esperado, pedido, sofrido e, por fim, morrido. Uns diziam que morrera de amor; outros, de desesperanca; outros ainda, de uma teimosia tão parecida com a de Dom Quixote que Sancho, se pensasse nisso com cuidado, talvez ficasse inquieto.
Dom Quixote escutava com atenção crescente. A história tinha todos os sinais capazes de acordar seu ofício: uma mulher perseguida por juízos alheios, um morto, um enterro marcado, uma multidão pronta para transformar dor em acusação. Mas havia ali também algo que desafiava sua fantasia. Marcela não parecia donzela raptada nem dama pedindo socorro. Parecia alguém que queria apenas não pertencer a ninguém.
O cabreiro contou que Grisóstomo deixara pedido estranho: queria ser enterrado no campo, no lugar onde vira Marcela pela primeira vez. Seus amigos, Ambrosio entre eles, cumpririam a vontade no dia seguinte. O enterro reuniria pastores, curiosos, apaixonados frustrados e todos aqueles que gostam de assistir a dor dos outros quando ela vem acompanhada de beleza e escandalo.
Sancho ouviu com interesse limitado. Morte por amor lhe parecia uma forma pouco economica de morrer. Se Grisóstomo tinha bens, estudos e comida, por que entregar tudo a uma mulher que nunca prometera nada? Mas guardou a pergunta, porque já aprendera que certas loucuras recebiam nomes nobres quando ditas por homens letrados, enquanto as loucuras de seu amo ao menos vinham com promessa de ilha.
Dom Quixote, ao contrário, sentiu a estrada abrir-se outra vez. Declarou que desejava ir ao enterro para ver com os próprios olhos o desfecho daquela história. Não sabia ainda se defenderia a honra do morto, a fama da pastora ou alguma verdade mais difícil entre os dois. Mas já percebia que a causa tocava algo maior do que uma paixão infeliz. Tocava o direito de uma pessoa existir sem ser transformada em prêmio.
Os cabreiros aceitaram a companhia dos viajantes. Alguns pareciam curiosos para ver o que aquele cavaleiro magro diria diante do corpo de Grisóstomo e, talvez, diante da própria Marcela. A fama da pastora era feita de contradições: para uns, santa de beleza intocável; para outros, fera ingrata; para quase todos, espelho onde cada homem via a própria carência devolvida como ofensa.
A noite terminou com esse nome suspenso. Marcela. Sancho deitou-se pensando que, se toda mulher bela trouxesse tantos problemas, talvez fosse melhor governar uma ilha de gente feia e tranquila. Dom Quixote permaneceu acordado por mais tempo, recompondo em sua cabeça os sinais da nova aventura. O mundo tinha oferecido comida, fogo e abrigo; agora oferecia julgamento.
Ao amanhecer, a serra parecia mais fria. Os cabreiros prepararam-se para o caminho, e Dom Quixote montou Rocinante com a solenidade de quem se aproxima de tribunal. Sancho ajeitou os alforjes e seguiu atrás, ainda dividido entre curiosidade e sono. Iriam ao enterro de Grisóstomo. E, sem saber, caminhavam também para ouvir uma das defesas mais claras que aquela terra já dera a uma mulher livre.