Capítulo 93 - A caçada dos duques
Capítulo 93 - A caçada dos duques
O duque e a duquesa continuavam recebendo grande prazer das conversas de Dom Quixote e Sancho. A história da cova de Montesinos, o encantamento de Dulcineia e a confissão involuntária do escudeiro davam-lhes matéria suficiente para uma burla de aparato. Ordenaram aos criados que preparassem tudo com cuidado: figurantes, luzes, carros, música, demônios, encantadores e palavras graves. Antes, porém, levaram os hóspedes à caça de monte, com acompanhamento de monteros e caçadores digno de rei. Deram a Dom Quixote roupa de caça, que ele recusou por não poder carregar guarda-roupa em vida de armas. Sancho aceitou o traje verde, pensando vendê-lo na primeira ocasião útil.
No dia combinado, a comitiva entrou num bosque entre montanhas altas. A duquesa ia ricamente vestida, e Dom Quixote, por cortesia, tomou-lhe a rédea, embora o duque quisesse impedir tal serviço. Distribuíram postos, esconderijos e caminhos. Logo a mata se encheu de vozes, cães, buzinas e movimento. A duquesa tomou venábulo e ficou no lugar onde costumavam sair javalis. O duque e Dom Quixote puseram-se a seu lado. Sancho preferiu ficar atrás de todos, montado no rucio, pois não queria afastar-se do animal nem oferecer o corpo a fera nenhuma por honra de caça. Em sua cabeça, quem governa deve estar inteiro, e javali não respeita futuro de governador.
Mal se assentaram, um javali enorme veio rompendo pelo mato, seguido de cães e caçadores, espumando e rangendo dentes. Dom Quixote embraçou o escudo e levou a mão à espada. O duque preparou o venábulo. A duquesa teria avançado primeiro se o marido não a contivesse. Sancho, ao ver a fera, abandonou qualquer ideia de valentia, saltou do rucio e correu para uma encina. Tentou subir depressa, mas a sorte não ajudou: a rama que tomara se quebrou, e ele ficou pendurado, preso por gancho da árvore, sem chegar ao chão e sem alcançar o alto, gritando como se a boca inteira estivesse nos dentes do javali.
O animal caiu morto pelas lâminas dos caçadores, e Dom Quixote, reconhecendo os gritos do escudeiro, achou-o suspenso da árvore, cabeça baixa e roupa verde rasgada. O rucio permanecia perto, fiel à desgraça do dono. Dom Quixote soltou Sancho, que, em vez de agradecer primeiro pela vida, examinou o rasgão do traje como quem vê perder-se um patrimônio. Levaram o javali sobre uma mula, coberto de ramos, até grandes tendas armadas no meio do bosque, onde a refeição esperava com magnificência. Sancho mostrou à duquesa o estrago do vestido e condenou a caça de monte: nenhum prazer compensava esperar animal capaz de matar quem nada lhe fizera.
O duque defendeu a caça como imagem da guerra. Nela há estratégia, calor, frio, resistência, vigilância, exercício do corpo e aprendizagem de comando. Quando Sancho fosse governador, faria bem em praticá-la. Sancho recusou a lição. Bom governador deve ficar em casa para atender negociantes e pobres, não no mato buscando porco bravo. Se tivesse lazer, preferiria cartas em dias de festa e bolos aos domingos; aquelas caças e caços combinavam pouco com sua consciência. Dom Quixote pediu a Deus que as promessas do escudeiro virassem obra, pois entre dizer e fazer há grande espaço. Sancho respondeu com refrões em fila, até o amo se irritar e pedir que os duques o deixassem moer almas à vontade.
A tarde passou em conversas e inspeções pelo bosque. Ao escurecer, a encenação dos duques começou. Luzes apareceram entre árvores como se a mata pegasse fogo por todos os lados. Cornetas, tambores, clarins, instrumentos de guerra e gritos à maneira mourisca encheram o ar. O barulho era tão grande que até os servidores instruídos se assustaram. Um correio vestido de demônio passou diante deles, soprando enorme chifre. O duque perguntou quem era e que tropa vinha pela mata. O demônio respondeu que procurava Dom Quixote de la Mancha. Seis tropas de encantadores traziam a sem-par Dulcineia do Toboso em carro triunfal, com ordem para declarar o modo de seu desencanto.
Sancho tremeu. Sabia que a primeira semente daquela história tinha saído de sua própria mentira, mas agora ela voltava com luzes, demônios, trombetas e autoridade de palácio. Dom Quixote recebeu o aviso com assombro grave. O duque perguntou se ele esperaria. O Cavaleiro dos Leões respondeu que ficaria ali firme ainda que todo o inferno viesse contra ele. Sancho declarou que, se outro demônio soprasse outro chifre igual, sua coragem iria esperar em Flandres. A noite fechou mais. Vieram carros negros, velhos barbudos que se nomearam Lirgandeo, Alquife e Arcalaús, todos em cortejo de encantadores. Depois, cessado o ruído áspero, uma música suave anunciou que a parte decisiva da burla estava para entrar.