Capítulo 99 - Clavileño, o Alígero Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 99 de 133
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Capítulo 99 - Clavileño, o Alígero

Capítulo 99 - Clavileño, o Alígero

O narrador interrompe a aventura para louvar Cide Hamete, atento até às miudezas da história, pois nada deixa escondido quando se trata de pensamentos, dúvidas e imaginações. Assim que Sancho viu a Dolorida com sinais de desmaio, jurou pela vida dos Panzas que nunca vira caso semelhante. Maldizia Malambruno por escolher castigo tão impertinente. Se queria punir aquelas pecadoras, dizia ele, podia tirar metade dos narizes, ainda que falassem fanhosas; pôr barba em dueñas era condená-las a despesa impossível, porque nenhuma delas parecia ter dinheiro para pagar barbeiro bastante.

Uma das doze respondeu que a verdade estava com ele. Não possuíam bens para manter rostos limpos, e algumas já recorriam a emplastros pegajosos: colavam-nos na face, puxavam de golpe e ficavam lisas como fundo de almofariz. Havia em Candaya mulheres que passavam de casa em casa arrancando pelos, compondo sobrancelhas e vendendo outras receitas, porém as dueñas da condessa não as admitiam, por cheirarem a medianeiras de amores. Se Dom Quixote não as socorresse, iriam à sepultura barbudas. O cavaleiro prometeu que antes raparia a própria barba em terra de mouros que deixar aquelas senhoras sem remédio.

A promessa trouxe a Trifaldi de volta aos sentidos. Ela disse que o som daquelas palavras penetrara seu desmaio e a fizera recobrar a alma. Pediu então que a generosa intenção se convertesse em obra. Dom Quixote respondeu que por ele nada faltaria, e a Dolorida explicou o caminho. Daquele castelo ao reino de Candaya havia cinco mil léguas por terra, talvez duas a mais ou a menos; pelo ar, em linha reta, eram três mil duzentas e vinte e sete. Malambruno prometera enviar, quando surgisse o libertador, montaria mais apta que cavalos de aluguel: o mesmo cavalo de madeira com que Pierres levara a linda Magalona.

A máquina se governava por uma clavija na testa, servindo de freio. Voava com tanta ligeireza que parecia levada por demônios, embora caminhasse tão lisa e repousada que o passageiro poderia segurar uma taça cheia sem derramar gota. Fora obra de Merlim, emprestada a Pierres para grandes jornadas, e depois ficara em poder de Malambruno, que a usava para estar hoje ali, amanhã na França e depois em Potosí. Não comia, não dormia, não gastava ferraduras e não precisava de asas. Sancho concedeu que, para andar calmo, seu rucio competia com qualquer montaria, ainda que se contentasse com a terra.

A Dolorida afirmou que, se Malambruno desejasse dar fim à desgraça, antes de meia hora de noite o cavalo estaria ali. Sancho perguntou quantos cabiam nele. Dois, respondeu ela: um na sela e outro na garupa, geralmente cavaleiro e escudeiro quando faltava donzela raptada. Perguntou depois o nome. A condessa explicou que não se chamava Pégaso, Bucéfalo, Brilladoro, Baiarte, Frontino nem Orelia. Sancho apostou que também não teria nome tão próprio quanto Rocinante. Trifaldi concordou com a grandeza do nome do cavalo de Dom Quixote, mas disse que o seu convinha muito bem: Clavileño, o Alígero, por ser de madeira, mover-se por clavija e correr leve no ar.

Sancho quis saber por que freio se conduzia semelhante aparelho. A condessa repetiu que bastava virar a clavija para um lado ou outro, fazendo-o subir, descer, rasar a terra ou seguir pelo meio, que é sempre caminho aconselhável nas ações ordenadas. O escudeiro declarou que gostaria de vê-lo, porém subir nele, na sela ou na garupa, seria pedir peras ao olmo. Mal se sustentava no rucio, com albarda mais branda que seda; em tábua nua, sem almofada, não se moeria para tirar barba de ninguém. Além disso, parecia-lhe injusto que cavaleiros ficassem com a fama e escudeiros com o trabalho. Dom Quixote poderia ir sozinho; ele ficaria com a duquesa e talvez, nos tempos vagos, adiantasse alguns açoites de Dulcineia.

A Trifaldi respondeu que sem Sancho nada se faria. A duquesa censurou a má vontade dele contra dueñas, e doña Rodríguez, sentindo-se chamada, lembrou que boas ou más, barbudas ou lisas, todas nasceram de mães como as demais mulheres. Dom Quixote declarou confiar que Sancho obedeceria e que, diante de Malambruno, sua espada raparia do pescoço a cabeça do gigante com mais facilidade que navalha no rosto de dueña. A Dolorida ergueu então lamentação tão comovida sobre o gênero dueñesco, abominado por boticários, escudeiros e pajens, que arrancou lágrimas dos circunstantes e umidade dos olhos de Sancho. No coração, ele aceitou acompanhar o amo até o fim do mundo se disso dependesse livrar aqueles rostos veneráveis de sua lã.

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