Capítulo 133 - Alonso Quijano, o Bom Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 133 de 133
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Capítulo 133 - Alonso Quijano, o Bom

Capítulo 133 - Alonso Quijano, o Bom

As coisas humanas caminham para seu fim, e a vida de Dom Quixote não tinha privilégio que a livrasse desse curso. Fosse pela melancolia da derrota, fosse pela disposição do céu, firmou-se nele uma febre que o reteve seis dias na cama. O cura, o bacharel e o barbeiro visitavam-no com frequência, e Sancho não saía de sua cabeceira. Todos pensavam que a tristeza por haver sido vencido e por não ver Dulcineia desencantada o pusera naquele estado; por isso tentavam alegrá-lo com a vida pastoril. Sansão dizia ter composta uma écloga superior às de Sannazaro e comprado dois cães excelentes para guardar o rebanho. Nada disso levantava o doente. Chamaram o médico, que lhe tomou o pulso e recomendou cuidado com a alma, pois a saúde do corpo corria perigo.

A ama, a sobrinha e Sancho choraram como se já o vissem morto. Dom Quixote pediu que o deixassem dormir, e dormiu mais de seis horas seguidas, tanto que as mulheres temeram que ficasse preso ao sono. Despertou enfim com voz forte, bendizendo a misericórdia de Deus. A sobrinha notou que as palavras vinham mais concertadas que de costume e perguntou que novidade havia. Ele respondeu que o juízo estava livre e claro, sem as sombras que a contínua leitura dos livros de cavalaria pusera sobre ele. Conhecia agora seus disparates e embustes, e só lhe pesava que o desengano chegasse tão tarde, sem tempo para reparar o mal com leituras melhores. Sentia-se perto da morte e queria fazê-la de modo que sua vida não deixasse apenas nome de louco.

Mandou chamar o cura, o bacharel e maese Nicolás para confessar-se e fazer testamento. Eles entraram quase no mesmo instante, e Dom Quixote lhes pediu alvíssaras: deixava o nome de Dom Quixote de la Mancha e retomava o de Alonso Quijano, a quem os costumes deram o nome de Bom. Rejeitava Amadís de Gaula e toda a linhagem dos livros de cavalaria; abominava aquelas histórias e reconhecia a loucura em que caíra. Os amigos imaginaram primeiro que outra demência o tomava. Sansão tentou puxá-lo de volta ao jogo, dizendo que Dulcineia estava a ponto de aparecer desencantada e que todos seriam pastores. Alonso Quijano cortou a burla. Sentia que morria depressa e pediu confessor e escrivão, pois em tal passo ninguém deve brincar com a alma. O cura ficou a sós com ele, e o bacharel foi buscar quem registrasse sua vontade.

Terminada a confissão, o cura saiu afirmando que Alonso Quijano morria e estava verdadeiramente em juízo. Entraram o escrivão, os amigos, a ama, a sobrinha e Sancho, todos tomados de lágrimas. O testamento começou pelas fórmulas cristãs necessárias. Depois, chegando às mandas, Alonso declarou que Sancho Pança, a quem em sua loucura fizera escudeiro, não devia prestar contas dos dinheiros que tinha entre mãos; se algo sobrasse depois de pagos os acertos, ficasse para ele e lhe fizesse bom proveito. Acrescentou que, se quando louco pôde dar-lhe governo de ilha, estando são lhe daria de bom grado o de um reino, porque a simplicidade de sua condição e a fidelidade de seu trato o mereciam. Voltando-se para Sancho, pediu perdão por tê-lo levado a parecer louco também, fazendo-o crer em cavaleiros andantes.

Sancho chorou e pediu que não morresse. A maior loucura, dizia, era deixar-se morrer sem que ninguém matasse, só pelas mãos da melancolia. Mandou que se levantasse, vestissem roupas de pastores e fossem ao campo, pois talvez atrás de alguma moita achassem Dulcineia desencantada. Se a causa da morte fosse a vergonha da derrota, a culpa podia cair nele, Sancho, por haver cinchado mal Rocinante; além disso, nos livros de cavalaria, quem hoje cai amanhã vence. Sansão apoiou a fala, tentando dar fôlego ao amigo. Alonso respondeu devagar que os ninhos de antes já não tinham pássaros naquele ano. Antes perdera-se em loucura; agora estava são. Antes usara o nome de Dom Quixote; agora era Alonso Quijano, o Bom. Pediu que sua verdade e arrependimento lhe devolvessem a estima antiga, e mandou prosseguir o testamento.

Deixou toda a fazenda à sobrinha Antonia Quijana, descontadas as mandas e o pagamento do salário devido à ama, com mais vinte ducados para um vestido. Nomeou por testamenteiros o cura e Sansão Carrasco. Determinou que a sobrinha, se quisesse casar, escolhesse homem de quem se provasse ignorar por completo os livros de cavalaria; se casasse com alguém que os conhecesse, perderia a herança, a ser distribuída em obras piedosas. Por fim, pediu aos testamenteiros que, caso viessem a conhecer o autor da falsa Segunda parte de suas façanhas, lhe rogassem perdão em seu nome, pois partia desta vida com escrúpulo de haver dado ocasião a tantos disparates. Fechou o testamento, sofreu um desmaio e estendeu-se na cama. Ainda viveu três dias, com a casa alvoroçada entre cuidados, herança, lágrimas e pequenas fraquezas dos vivos.

Recebeu todos os sacramentos e tornou a repudiar, com razões firmes, os livros de cavalaria. O escrivão, presente, disse nunca ter lido que cavaleiro andante algum morresse em seu leito tão sossegado e cristão como aquele. Entre compaixões e lágrimas dos que o amavam, Alonso Quijano entregou o espírito, isto é, morreu. O cura pediu ao escrivão testemunho de que Alonso Quijano, chamado comumente Dom Quixote de la Mancha, passara desta vida por morte natural, para impedir que outro autor o ressuscitasse falsamente e prolongasse sem fim suas façanhas. Assim terminou o engenhoso hidalgo da Mancha, cujo lugar Cide Hamete não quis nomear com precisão, deixando que todas as vilas manchegas disputassem a honra de tê-lo por seu, como cidades gregas disputaram Homero.

Não se registram aqui todos os prantos de Sancho, da ama e da sobrinha, nem os epitáfios compostos para a sepultura, embora Sansão lhe tenha dado versos em que o hidalgo forte morria cuerdo depois de viver louco. Cide Hamete falou então à sua própria pena e mandou que ficasse pendurada, guardada contra historiadores presunçosos. Para ele só nascera Dom Quixote, e ele nascera para Dom Quixote: um soube agir, o outro escrever. Pediu que ninguém tirasse da sepultura os ossos cansados do cavaleiro nem inventasse terceira saída, pois bastavam as duas já feitas para gosto das gentes. Seu desejo fora pôr em aborrecimento as histórias fingidas e disparatadas dos livros de cavalaria; com a verdadeira história de Dom Quixote, elas tropeçavam e haveriam de cair. Vale.

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