Capítulo 32 - A estrada da princesa
Capítulo 32 - A estrada da princesa
Saíram de Serra Morena como quem deixa para trás uma prisão e leva consigo a chave ainda quente. Dom Quixote ia à frente, recomposto pelo dever, com Rocinante novamente elevado à condição de cavalo de empresa altíssima. A seu lado seguia Doroteia, agora Princesa Micomicona, sustentando com serenidade o papel que lhe coubera. Atrás vinham o cura, o barbeiro, Cardenio e Sancho, cada qual guardando uma parte da verdade e uma parte da invenção.
A estrada exigiu logo trabalho fino. Dom Quixote queria saber mais do reino de Micomicão: seus limites, linhagens, costumes, o nome do gigante usurpador, a distância das fortalezas e a cor dos estandartes. Doroteia respondia com prudência, inventando apenas o necessário. O cura, quando percebia uma lacuna perigosa, acrescentava um detalhe grave. O barbeiro confirmava com a cabeça, como testemunha de mapas que nunca vira.
Sancho, por sua vez, sofria de excesso de esperança. A cada menção ao reino, imaginava sua ilha mais próxima. Queria saber se em Micomicão havia terras cercadas de água, governadores gordos, rendas boas e súditos obedientes. Dom Quixote mandava que calasse a boca e esperasse a ordem natural dos feitos. Mas Sancho, que achava a ordem natural muito lenta, continuava rodeando o assunto como quem cheira panela no fogo.
A Princesa Micomicona confirmou, com graça, que os serviços de escudeiro leal seriam lembrados quando a justiça voltasse ao trono. Sancho ouviu aquilo como contrato assinado. O cura percebeu o perigo de promessas muito específicas e desviou a conversa para as virtudes de Dom Quixote, tema no qual o cavaleiro podia navegar por horas sem exigir documentos.
Dom Quixote, tocado pela confiança da princesa, declarou que nenhum gigante resistiria ao braço armado em nome de Dulcineia. Fez questão de explicar que a vitória pertenceria à sua senhora, ainda que servisse à princesa. Doroteia aceitou a hierarquia amorosa com humildade teatral. Disse que reis e rainhas de Micomicão saberiam honrar a dama invisível que inspirava tão grande cavaleiro.
Sancho achou conveniente perguntar se Dulcineia, sendo tão honrada, poderia também aprovar a entrega de uma ilha ao escudeiro. O amo fuzilou-o com os olhos. Cardenio, que caminhava silencioso, quase sorriu pela primeira vez. Naquela pequena avareza de Sancho havia mais vida que em muitos discursos nobres.
A cada légua, porém, a ficção ameaçava tropeçar. Dom Quixote perguntava por que uma princesa tão alta viajava com tão pouca comitiva. Doroteia respondeu que a desgraça a obrigara a fugir sem aparato. Perguntou por que seus criados não a chamavam pelo título. O cura explicou que o segredo era necessário para escapar dos inimigos. Perguntou por que Sancho parecia conhecê-la tão pouco. Sancho respondeu que príncipes e princesas costumavam conhecer melhor os cavaleiros do que os escudeiros, explicação tão torta que Dom Quixote, por milagre, aceitou.
O barbeiro teve de conter o riso mais de uma vez. Não por crueldade, mas porque a seriedade com que todos alimentavam a invenção produzia efeitos estranhos. Homens sensatos andavam agora como atores; uma mulher ferida usava uma coroa imaginária; um louco cavaleiro era o único que acreditava sem esforço; e justamente por isso todos dependiam dele para avançar.
Quando pararam para breve descanso, o cura se aproximou de Doroteia e perguntou se ela aguentava o papel. Ela respondeu que sim. A máscara não a assustava tanto quanto a possibilidade de encontrar Fernando e vê-lo negar outra vez o que prometera. Cardenio, ouvindo o nome, fechou as mãos. O cura pediu paciência aos dois. A venda para onde se dirigiam talvez juntasse pessoas e destinos que a serra separara em dor.
Dom Quixote não percebeu essa conversa. Estava ocupado em explicar a Sancho que a recompensa de um escudeiro dependia da grandeza da aventura e da discrição com que soubesse servir. Sancho ouviu a palavra discrição como quem ouve idioma estrangeiro. Ainda assim, prometeu ser discreto, principalmente se a discrição viesse acompanhada de governo, renda e mesa farta.
A tarde caiu sobre a estrada. Serra Morena ficou para trás com seus esconderijos, penitências e vozes partidas. O caminho para a venda parecia comum, mas nenhum deles caminhava de modo comum. Dom Quixote via uma missão régia; Sancho via uma ilha possível; Doroteia via a chance de recuperar o nome; Cardenio via a sombra de Lucinda; o cura e o barbeiro viam uma cura improvisada andando sobre pernas frágeis.
Ao longe, a venda começou a se insinuar como promessa de abrigo. Para Dom Quixote, talvez voltasse a ser castelo. Para Sancho, era pelo menos lugar onde se podia comer. Para os demais, era palco provável de encontros difíceis. A história de Micomicona precisava durar mais um pouco, firme o bastante para conduzir o cavaleiro, flexível o bastante para não quebrar diante da realidade.
E assim seguiram. Não havia ainda vitória, nem justiça, nem retorno seguro. Havia apenas uma comitiva desigual sustentando uma mentira caridosa na esperança de alcançar uma verdade melhor. A estrada, que tantas vezes desmentira Dom Quixote, agora aceitava por algumas milhas a sua linguagem: uma princesa aflita, um cavaleiro pronto, um escudeiro faminto e um mundo real esperando, logo adiante, para cobrar de todos a conta das ficções.