Capítulo 24 - Os galeotes
Capítulo 24 - Os galeotes
Dom Quixote seguia satisfeito com o elmo de Mambrino, que para Sancho continuava tendo forma insistente de bacia. A estrada, porém, não deixou que discutissem por muito tempo. Ao longe apareceu um grupo de homens a pe, acorrentados uns aos outros, escoltados por guardas armados. O som dos ferros vinha antes deles, seco e triste, marcando o passo de quem caminha sem escolher o destino.
Sancho reconheceu logo o perigo. Disse ao amo que eram galeotes, condenados enviados às galés do rei por crimes julgados. A palavra rei deveria bastar para afastar qualquer interferência. Mas em Dom Quixote produziu efeito contrário. Se homens eram levados contra a vontade, acorrentados, cabia perguntar se a força era justa. E se a justiça não lhe parecesse clara, cabia a um cavaleiro andante corrigi-la.
Sancho tentou explicar que havia juizes, sentenças e autoridades. Dom Quixote respondeu que a cavalaria existia justamente para socorrer os oprimidos quando as autoridades falhavam. Não aceitava que uma pessoa fosse conduzida contra seu querer sem ao menos ser ouvida. Aproximou-se, portanto, com gravidade, e pediu aos guardas licença para falar com os presos.
Os guardas, vendo aquele cavaleiro magro com uma bacia na cabeça e um escudeiro aflito ao lado, trocaram olhares. Talvez por espanto, talvez por diversão, permitiram que perguntasse. Dom Quixote foi então de homem em homem, perguntando a causa de suas correntes. Cada galeote contou sua história, ora com ironia, ora com mentira, ora com aquela habilidade dos culpados que sabem transformar delito em desventura.
Um dizia que fora condenado por amor excessivo ao dinheiro alheio; outro, por cantar sob tormento verdades que preferia ter esquecido; outro ainda, por servir de intermediário em negócios escuros. Cada resposta, em vez de esclarecer, tornava aos olhos de Dom Quixote a pena mais duvidosa. Para ele, eram homens fracos, mal guiados, castigados por uma sociedade dura demais. Para Sancho, eram criminosos falando bonito.
Entre eles destacou-se Gines de Pasamonte, sujeito vivo de olhos agudos e língua pronta. Tinha fama ruim, orgulho grande e uma confiança insolente na própria esperteza. Disse que escrevia a história da própria vida e que nenhum livro de pícaro seria mais verdadeiro que o seu. Mesmo acorrentado, falava como quem já planejava a próxima fuga. Dom Quixote ouviu nele não perigo, mas espírito.
Quando terminou o interrogatório, o cavaleiro voltou-se aos guardas e pediu que soltassem os homens. Alegou que Deus fizera todos livres e que não cabia a outros homens arrastar seus semelhantes contra a vontade. Os guardas responderam que cumpriam ordem do rei e que soltar condenados seria crime. Dom Quixote, inflamado, disse que onde a ordem contradizia a misericórdia, a cavalaria deveria escolher a misericórdia.
Sancho sentiu o chão fugir antes mesmo da luta começar. Suplicou ao amo que não se metesse contra oficiais armados. Mas Dom Quixote já avançava. A discussão virou choque. O cavaleiro atacou um guarda, os presos se agitaram, as correntes bateram, e logo a estrada se encheu de gritos. Alguns galeotes, percebendo a chance, ajudaram como puderam: puxaram ferros, empurraram guardas, agarraram armas caídas.
A confusão favoreceu os acorrentados. Os guardas, surpreendidos por inimigo tão absurdo e por presos tão interessados na própria liberdade, recuaram. Um caiu, outro fugiu, outro largou parte do equipamento. Os galeotes romperam a ordem da escolta e, com esforço, foram se livrando das correntes. Gines de Pasamonte mostrou especial rapidez em transformar gratidão futura em liberdade presente.
Dom Quixote, vendo-os soltos, ergueu a voz como vencedor justo. Ordenou que todos se apresentassem diante de Dulcineia del Toboso para contar-lhe a façanha de seu libertador. Era, segundo ele, tributo pequeno para benefício tão grande. Os galeotes se entreolharam. Tinham acabado de escapar da justiça; a última coisa que desejavam era marchar em comitiva para prestar homenagem a uma dama desconhecida.
Gines respondeu com cautela insolente. Disse que caminhos de fugitivo não combinavam com visitas formais, e que levar correntes quebradas até Toboso seria quase pedir nova prisão. Dom Quixote entendeu a recusa como ingratidão. Sua voz endureceu. A liberdade que acabara de conceder exigia reconhecimento, e ele não admitiria que homens salvos por sua lança desprezassem Dulcineia.
Sancho, ao lado, percebeu que a aventura mudava de forma. A aventura saíra da libertação dos galeotes e chegara à sobrevivência diante deles. Os homens livres, sem a menor vontade de trocar galés por devoção cavaleiresca, começaram a juntar pedras e paus. A gratidão, naquela estrada, durou menos que o brilho da bacia de Mambrino.
Dom Quixote ainda acreditava estar diante de homens redimidos, prontos a reconhecer a grandeza do ato. Sancho via melhor: eram presos soltos, guardas longe, poeira no ar e uma ingratidão ganhando peso nas mãos. A libertação estava feita. A consequência vinha logo atrás.