Capítulo 104 - O governo de Baratária
Capítulo 104 - O governo de Baratária
Invocado o sol para iluminar a narração do governo de Sancho Pança, a história conta que ele chegou, com todo o acompanhamento, a um lugar de cerca de mil vizinhos, um dos melhores domínios do duque. Fizeram-lhe crer que se chamava ilha Baratária, talvez por nome antigo do lugar, talvez pelo barato com que recebera o governo. À porta da vila cercada saiu o regimento local para recebê-lo; tocaram sinos, os vizinhos mostraram alegria, levaram-no com pompa à igreja maior para dar graças a Deus e, depois de cerimônias ridículas, entregaram-lhe as chaves. A roupa, a barba, a gordura e a pequena estatura do novo governador admiravam quem ignorava a burla e até muitos que a conheciam.
Tirado da igreja, Sancho foi levado à cadeira do juízo. O mordomo explicou que havia costume antigo: todo governador, ao tomar posse daquela ilha, devia responder a uma pergunta intricada, para que o povo medisse seu engenho e se alegrasse ou entristecesse com a chegada. Enquanto ouvia, Sancho olhava umas letras grandes na parede. Como não sabia ler, perguntou que pinturas eram aquelas. Responderam que ali se anotava o dia em que o senhor dom Sancho Pança tomara posse. Sancho quis saber a quem chamavam dom Sancho. Quando lhe disseram que a ele, advertiu que não tinha dom, nem o tivera seu pai, nem seu avô, todos Panzas secos, sem dons nem donas. Talvez, disse, naquela ilha houvesse mais dons que pedras, mas ele escardaria tal mato se o governo durasse quatro dias.
Entraram então dois homens: um lavrador e um alfaiate com tesouras na mão. O alfaiate contou que o lavrador lhe levara um pedaço de pano e perguntara se dava para uma carapuça. Ele medira e respondera que sim. O lavrador, desconfiando da má fama dos alfaiates, perguntou se daria para duas. O alfaiate percebeu a suspeita e continuou dizendo que sim. O outro foi aumentando: três, quatro, cinco. Agora vinha buscar as cinco carapuças e se recusava a pagar a feitura, querendo de volta o pano. Sancho mandou mostrar a obra. O alfaiate ergueu a mão e, em cada dedo, trazia uma carapucinha mínima. O governador pensou um pouco e sentenciou sem demora: o alfaiate perderia o trabalho, o lavrador perderia o pano, e as cinco carapuças seriam levadas aos presos da cadeia.
Riram todos do pleito e da sentença, mas cumpriu-se o mandado. Logo vieram dois velhos. Um reclamava dez escudos de ouro emprestados ao outro, sem testemunhas. O devedor confessou o empréstimo e pediu licença para jurar que pagara. Antes de pôr a mão na vara do governador, entregou ao credor uma cana que usava como báculo, como se o objeto o atrapalhasse. Jurou então que recebera os dez escudos e os devolvera de sua mão à mão do outro. O credor, tomando-o por homem de bem, aceitou o juramento e se deu por esquecido. O devedor pegou de volta o báculo e ia saindo quando Sancho, depois de breve pensamento, mandou chamá-lo. Pediu a cana, entregou-a ao credor e disse que ele já estava pago.
Todos estranharam, e Sancho ordenou que a cana fosse quebrada ali mesmo. Dentro dela apareceram os dez escudos em ouro. Os presentes tiveram o governador por novo Salomão. Perguntado de onde tirara a suspeita, explicou que vira o velho entregar o báculo no momento exato do juramento e dizer que devolvera o dinheiro de sua mão à mão do credor; quando tomou a cana outra vez, ficou claro onde escondia a paga. Concluíram que Deus às vezes guia quem governa, mesmo sendo simples, e Sancho acrescentou que ouvira caso parecido ao cura de sua aldeia. O escrivão, encarregado de registrar palavras e movimentos do governador, já não sabia se devia tê-lo por tolo ou por discreto.
Acabado esse caso, entrou uma mulher segurando com força um homem vestido como ganadeiro rico. Gritava por justiça, dizendo que, se não a achasse na terra, iria buscá-la no céu. Acusava o homem de tê-la encontrado no campo, aproveitado seu corpo contra a vontade e levado aquilo que ela guardara por mais de vinte e três anos, defendendo-se de todos. Sancho observou que ainda se apuraria se o acusado tinha mãos limpas. O homem, turbado, disse ser pobre criador de porcos, voltando da venda de quatro animais, dos quais impostos e cobranças quase tinham comido o preço. Encontrara aquela mulher no caminho; ambos consentiram no trato, ele pagara o suficiente, e ela, insatisfeita, agarrou-o e levou-o até o juízo, inventando força onde houvera acordo.
Sancho perguntou se ele trazia dinheiro. O ganadeiro confessou ter vinte ducados em bolsa de couro. O governador mandou entregá-la inteira à querelante. A mulher recebeu a bolsa, fez reverências, abençoou Sancho como amparo de órfãs, pobres e donzelas, conferiu a prata e saiu. Assim que ela passou a porta, Sancho ordenou ao homem que fosse atrás dela, tirasse a bolsa à força e voltasse. Ele partiu como raio. Pouco depois retornaram agarrados, ela com a saia erguida em regaço, prendendo a bolsa como tesouro, ele sem conseguir arrancá-la. A mulher berrava que até em plena rua o desalmado tentara roubar aquilo que o governador lhe dera. Sancho perguntou se ele conseguira. Ela respondeu que antes perderia a vida que a bolsa; nem tenazes, martelos ou garras de leões a fariam soltá-la.
O homem admitiu que suas forças não bastavam. Sancho pediu a bolsa, devolveu-a ao ganadeiro e disse à mulher que, se tivesse mostrado para defender o corpo o mesmo alento usado para defender o dinheiro, nem Hércules a venceria. Mandou que saísse da ilha e de seis léguas ao redor, sob pena de duzentos açoites, chamando-a embusteira e desavergonhada. Ao homem, recomendou que voltasse para sua aldeia com o dinheiro e que, se não quisesse perdê-lo, evitasse dali em diante semelhantes encontros. Os presentes ficaram de novo admirados com as sentenças do novo governador. Tudo foi anotado por seu cronista e enviado ao duque, que esperava notícias com grande desejo. A história deixa Sancho por ora, porque Dom Quixote, agitado pela música de Altisidora, chama novamente a atenção.