Capítulo 35 - A paz dos enamorados
Capítulo 35 - A paz dos enamorados
A venda permaneceu imóvel depois das últimas palavras, como se até as paredes esperassem a decisão de Fernando. Doroteia mantinha-se diante dele sem baixar os olhos. Cardenio tremia perto de Lucinda; temia perder outra vez o que mal voltara a respirar. O cura, percebendo que a verdade enfim cercara o homem por todos os lados, não acrescentou pressa. Há momentos em que insistir demais enfraquece a própria justiça.
Fernando olhou primeiro para Lucinda. Viu nela uma fidelidade que nunca lhe pertencera. Depois olhou para Cardenio e encontrou o amigo que sua ambição havia destruído. Por fim voltou-se a Doroteia. Ali não havia fantasia de princesa, nem disfarce de serra, nem oportunidade de fuga. Havia a mulher a quem prometera casamento, a quem devia nome, reparação e respeito.
Quando falou, a voz já não trazia o mesmo orgulho. Reconheceu a culpa. Disse que seu desejo o fizera injusto, que a honra de Doroteia era sua obrigação, que Lucinda não podia ser presa a um amor que nunca aceitara. As palavras não desfaziam o dano; abriam, ao menos, a porta que a vaidade mantivera fechada. Doroteia ouviu sem triunfar. Quem recupera a própria verdade nem sempre tem forças para alegria imediata.
Lucinda aproximou-se de Cardenio. Nenhuma cerimônia foi necessária para que ambos entendessem a restituição. Ele, que na serra fora reduzido a voz quebrada, reencontrava agora a pessoa em torno da qual sua razão se perdera. Ela, que suportara imposições e calara o que queria dizer, podia enfim responder com os olhos. Cardenio tomou-lhe as mãos como quem segura algo salvo de naufrágio.
Doroteia, por sua vez, recebeu de Fernando promessa renovada e reconhecimento público. O cura fez questão de que isso ficasse claro. Diante dos presentes, Fernando assumiu que Doroteia era sua legítima esposa por palavra dada, honra recebida e obrigação moral. O costume e a lei dos homens poderiam exigir formas; a verdade essencial já não podia ser negada.
Sancho acompanhava tudo com atenção irregular. Entendia que havia casamentos, lágrimas e perdões, mas preocupava-se principalmente em saber se a Princesa Micomicona continuava princesa depois de deixar de ser Doroteia ou se Doroteia continuava princesa depois de voltar a ser ela mesma. Essa dúvida não era pequena para quem calculava ilhas. Aproximou-se do cura e perguntou em voz baixa se o reino de Micomicão ainda existia para fins de recompensa. O cura mandou que se calasse. Sancho obedeceu por fora e continuou calculando por dentro.
Dom Quixote, alheio ao centro real da resolução, interpretou o acordo como vitória natural da cavalaria. Declarou que a presença de uma dama aflita e de um cavaleiro armado sempre inclinava o mundo para a justiça. Afirmou que Fernando procedera melhor por reconhecer o devido antes que a espada precisasse falar. Ninguém teve ânimo de corrigi-lo. De algum modo torto, sua conclusão servia à cena.
O vendeiro respirou com alívio. Uma briga de nobres dentro da casa poderia quebrar bancos, portas e reputações. Uma reconciliação, embora barulhenta de lágrimas, custava menos. A estalajadeira e as mulheres da venda olharam Doroteia e Lucinda com compaixão sincera. Não entendiam todos os títulos nem todas as relações; sabiam o bastante sobre promessas masculinas e sobre o preço pago por mulheres quando essas promessas falhavam.
Cardenio contou brevemente ao grupo como a dor o levara à serra e como a notícia de Lucinda com Fernando o fizera perder o governo de si. Lucinda respondeu com sua parte: a resistência, o casamento imposto, a fidelidade escondida, a esperança quase sem forma. Doroteia acrescentou o que Fernando já não podia contradizer. Assim, as histórias deixaram de ser fragmentos espalhados e se tornaram uma só linha, dura e compreensível.
Fernando ouviu sem interromper. Cada relato o diminuía no orgulho e talvez o aumentasse um pouco na responsabilidade. Pediu perdão a Cardenio. Pediu perdão a Doroteia. A Lucinda, prometeu não voltar a cortar o caminho que seu coração já escolhera. Aquilo não fazia dele um herói. Era apenas o mínimo que a verdade exigia. Naquela venda cheia de tropeços, até o mínimo tinha peso de milagre.
A paz que se formou veio baixa, como cansaço que finalmente pode sentar. Cardenio e Lucinda ficaram juntos, ainda espantados com a própria recuperação. Doroteia aceitou a reparação de Fernando sem esquecer o custo dela. O cura viu no arranjo uma justiça possível, imperfeita, melhor que o desastre anterior. O barbeiro sorriu com discrição, satisfeito por uma trama ter se desembaraçado sem lâminas.
Restava, porém, Dom Quixote. Para ele, a Princesa Micomicona ainda dependia de seu braço contra inimigo distante. Doroteia, agora recolocada em sua verdade, precisaria continuar por algum tempo na ficção que ajudara a salvá-lo. O cura explicou aos demais, em voz baixa, que não convinha desfazer o encanto cedo demais. Primeiro levariam o cavaleiro de volta a caminho seguro; depois se pensaria em como encerrar a aventura sem quebrar-lhe o espírito.
Sancho ouviu essa parte com preocupação renovada. Se Micomicona era ficção, sua ilha podia ser fumaça. Mas se a ficção ainda precisava continuar, talvez a ilha também pudesse continuar existindo pelo menos mais algumas léguas. Concluiu que, em matéria de esperança, o melhor era não perguntar demais.
A noite assentou-se enfim sobre a venda. O que começara como mentira caridosa produzira encontro verdadeiro. Doroteia tirara a máscara e conservara a firmeza; Lucinda recuperara a voz; Cardenio recuperara o mundo; Fernando recebia, por ora, a chance de agir com honra. E Dom Quixote, enganado ainda pela aparência das coisas, permanecia convencido de ter defendido damas e endireitado injustiças. Talvez fosse pouco. Talvez fosse muito. Naquela casa, depois de tanta dor, bastava que cada um pudesse respirar com o próprio nome.