Capítulo 92 - Sancho na sala da duquesa Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 92 de 133
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Capítulo 92 - Sancho na sala da duquesa

Capítulo 92 - Sancho na sala da duquesa

Sancho não dormiu a sesta. Cumprindo a palavra dada, foi depois de comer à sala fresca onde a duquesa o esperava com donzelas e dueñas ao redor. A senhora mandou que se sentasse numa cadeira baixa junto dela, como governador futuro e escudeiro presente. Sancho hesitou por educação insegura, mas obedeceu. As mulheres fizeram silêncio, desejosas de ouvir aquele homem que misturava ingenuidade, malícia, fidelidade e medo com uma naturalidade impossível de fabricar em corte. A duquesa abriu a conversa dizendo que queria resolver dúvidas nascidas da história impressa de Dom Quixote, principalmente certas passagens em que Sancho parecia ter servido mal a verdade.

A primeira dúvida tocou a carta de Dulcineia. Se Sancho nunca vira a senhora, se jamais lhe entregara a mensagem escrita na Serra Morena, como se atrevera a fingir resposta e a contar que a encontrara joeirando trigo? Sancho levantou-se, pôs dedo nos lábios e percorreu a sala olhando tapeçarias, portas e cantos, para certificar-se de que ninguém os escutava às escondidas. Depois voltou ao assento e falou com liberdade. Tinha por certo que seu amo era louco rematado, embora às vezes dissesse coisas tão bem ordenadas que nem o diabo as melhoraria. Justamente por conhecer essa loucura, atrevia-se a fazê-lo crer em disparates sem pé nem cabeça.

Confessou então a burla da carta e também a mais recente invenção do encantamento de Dulcineia, que ainda não estava escrita em livro. Contou como, apertado pela obrigação de achar senhora que não conhecia, tomara três lavradoras como saída, apresentara uma delas ao amo como Dulcineia e deixara que a imaginação de Dom Quixote transformasse o resto em obra de encantadores. As ouvintes receberam a confissão com grande prazer. A duquesa, mais aguda que piedosa, percebeu logo o uso que poderia fazer daquela notícia. Se Dom Quixote cria no encantamento, e Sancho sabia que a mentira nascera dele mesmo, havia ali material bastante para novas burlas e para prender ambos em rede mais fina.

Mas a duquesa quis testar o escudeiro. Disse que uma voz interior lhe levantava escrúpulo: se Dom Quixote era louco, se Sancho o sabia e mesmo assim o seguia por promessas de ilha, talvez o escudeiro fosse ainda mais tolo que o amo. Como poderia governar outros quem não sabia governar a si mesmo? Sancho recebeu o golpe sem se irritar. Admitiu que, se fosse inteiramente discreto, já teria deixado o cavaleiro havia muito. Contudo, destino, costume, aldeia comum, pão comido, gratidão pelos presentes recebidos e afeição verdadeira prendiam-no ao amo. Só a pá e a enxada da sepultura poderiam separá-los de modo definitivo.

Se a duquesa não quisesse dar-lhe governo por considerá-lo tonto, ele saberia suportar. Talvez fosse melhor para sua consciência continuar Sancho escudeiro que virar Sancho governador. Lembrou, porém, que ninguém nasce ensinado e que de homens se fazem bispos, não de pedras. Refrões vieram em fileira: quem coze e amassa não deve ter a hogaza furtada; gato de noite perde cor; todos entram na terra por espaço estreito; atrás da cruz pode estar o diabo; nem tudo que reluz tem valor. Doña Rodríguez, que escutava, meteu-se na conversa para confirmar histórias antigas sobre reis comidos por bichos depois da morte. A duquesa riu da dueña e de Sancho, mas não desprezou a esperteza viva que havia sob aquela fala rústica.

Então prometeu que o duque cumpriria a palavra e lhe daria ilha ou governo quando chegasse a hora. Pediu apenas que tratasse bem os vassalos, que, segundo ela, seriam leais e bem nascidos. Sancho respondeu que isso não precisava ser encomendado. Era caritativo de sua natureza, tinha compaixão de pobres, não deixaria enganá-lo com dado falso e sabia onde o sapato apertava. Os bons teriam com ele mão aberta; os maus não achariam entrada. Bastaria começar, e talvez em quinze dias soubesse mais do ofício de governar que da lavoura em que fora criado. A duquesa reforçou a confiança, dizendo que ninguém chega ao mundo com ciência pronta.

A conversa terminou com Sancho mais seguro e a duquesa mais decidida a prolongar a brincadeira. Para Sancho, a sala cheirava a governo próximo. Para a duquesa, aquele escudeiro era personagem vivo, capaz de dar prazer à casa inteira. Nenhum dos dois dizia a mesma coisa quando falava em ilha. Ele pensava em justiça, comida, respeito, Teresa, filhos e mudança de fortuna. Ela pensava em espetáculo, engenho cortesão e experiência divertida com um homem simples posto diante de aparato falso. Assim, enquanto Dom Quixote descansava das honras recebidas e o duque preparava novas ordens para tratá-lo segundo os livros, Sancho saía da conversa mais preso do que nunca à promessa que o acompanhava desde a primeira estrada.

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