Capítulo 88 - O barco encantado
Capítulo 88 - O barco encantado
Dois dias depois, Dom Quixote e Sancho chegaram ao Ebro. A vista do rio alegrou o cavaleiro. As margens verdes, a água clara, o curso sereno e a largura da corrente renovaram nele pensamentos de amor e aventura. Lembrou a cova de Montesinos, o macaco de Maese Pedro, Dulcineia pedindo dinheiro sob encantamento e todas as dúvidas que Sancho carregava como pedras no alforje. Seguiam assim quando viram, preso a uma árvore da margem, um pequeno barco sem remos nem apetrechos. Dom Quixote olhou em torno, não viu dono algum e desceu imediatamente de Rocinante. Mandou Sancho fazer o mesmo e atar bem juntos o rucio e o cavalo.
Sancho perguntou o motivo. Dom Quixote respondeu que aquele barco o chamava para socorrer pessoa nobre em grande aperto. Era costume dos encantadores, nas histórias de cavalaria, pôr navio, nuvem ou outro meio súbito diante de cavaleiro necessário, para levá-lo em instantes a terras remotas. Sancho advertiu que o barco parecia de pescadores do rio, gente que talvez o usasse para apanhar sabogas, peixe famoso por aquelas águas. O cavaleiro não aceitou prosa tão baixa. Cortou a amarra, entrou na embarcação e fez o escudeiro entrar também. O barco afastou-se devagar, levado pela corrente, enquanto o rucio zurrava na margem e Rocinante tentava livrar-se.
Sancho começou a chorar. Via os animais perto, a margem perto, o perigo perto e, mesmo assim, sentia-se levado por loucura sem governo. Dom Quixote repreendeu-o por medir grande viagem com olhos curtos. Segundo ele, já poderiam ter passado linhas, paralelos, signos e medidas do mundo, embora a margem parecesse a poucos passos. Falou de cosmografia, de Ptolomeu e de sinais que marinheiros usam ao passar a linha equinocial. Sancho respondeu que, se a experiência valesse por olhos, ainda estavam quase no mesmo lugar. O cavaleiro mandou que se examinasse para ver se conservava os mesmos bichos no corpo, sinal, segundo sua ciência incerta, de não terem cruzado linha misteriosa.
Sancho obedeceu com desgosto e concluiu que a experiência ou era falsa ou eles não haviam passado por lugar algum. Nesse momento, a corrente começou a levar o barco com mais força. Adiante surgiram grandes azenhas no meio do rio. Dom Quixote viu nelas castelo, cidade ou fortaleza onde devia estar preso algum cavaleiro, rainha ou princesa. Sancho reconheceu rodas de moinho e avisou que ali se moía trigo. O amo mandou que se calasse. Encantamentos mudam as aparências das coisas, dizia ele, e bastava lembrar Dulcineia para entender que moinho podia ocultar prisão nobre. Pôs-se de pé, puxou a espada e começou a ameaçar as figuras brancas que saíam às margens do moinho.
Os moleiros, cobertos de farinha, gritaram que aqueles homens iam morrer nas rodas. Pegaram varas longas para deter o barco antes que a corrente o lançasse contra o engenho. Dom Quixote tomou as vozes como insolência de carcereiros. Ordenou que soltassem imediatamente a pessoa oprimida naquela fortaleza. Sancho, de joelhos, rezava para que Deus o livrasse das vontades atrevidas de seu senhor. Os moleiros conseguiram conter a embarcação, mas o esforço virou o barco e lançou ambos na água. Dom Quixote sabia nadar, porém as armas o puxaram para baixo duas vezes. Os próprios moleiros, que ele chamava de malandrins, entraram no rio e tiraram cavaleiro e escudeiro mais encharcados que mortos.
Logo chegaram os pescadores, donos do barco, vendo a embarcação quebrada pelas rodas. Quiseram cobrar o prejuízo e ameaçaram despir Sancho para garantir pagamento. Dom Quixote, com serenidade absurda para homem recém-saído da água, disse que pagaria de boa vontade, se antes libertassem a pessoa mantida naquela fortaleza. Os moleiros responderam que ali só havia farinha e trabalhadores. Diante da insistência, Sancho pagou o barco com dor de bolsa e alma. Dom Quixote olhou para as azenhas, suspirou e concluiu que a aventura devia pertencer a outro cavaleiro, ou que os encantadores haviam fechado a passagem antes de sua chegada. A derrota molhada pesava menos nele que em Sancho, pois a imaginação seca depressa; as roupas do escudeiro, nem tanto.