Capítulo 118 - O outro Dom Quixote
Capítulo 118 - O outro Dom Quixote
A poeira e o cansaço deixados pelos touros encontraram alívio numa fonte clara, cercada de árvores frescas. Sancho soltou o rucio, Dom Quixote deixou Rocinante sem freio, e ambos se sentaram à margem da água. O escudeiro tirou das alforjas o que chamava de conduto, lavou a boca e esperou que o amo comesse primeiro. Dom Quixote, abatido por haver sido pisado por animais quando esperava palmas e vitórias, declarou que nascera para viver morrendo, enquanto Sancho parecia destinado a morrer comendo. O escudeiro defendeu a vida com argumentos práticos: loucura maior que o desespero não havia, e um sono sobre a erva faria mais pela tristeza do cavaleiro do que qualquer jejum voluntário.
Dom Quixote aceitou comer alguma coisa e propôs, antes de dormir, que Sancho se afastasse e desse em si mesmo trezentos ou quatrocentos açoites, adiantando a conta necessária ao desencanto de Dulcineia. Sancho adiou a matéria com prudência, alegando que açoite frio era trabalho duro, especialmente em corpo mal sustentado, e prometeu cumprir quando a vontade ajudasse. Dormiram, acordaram tarde e seguiram para uma venda que se via a uma légua. Dom Quixote a chamou de venda, para alegria de Sancho, que temia vê-la transformada em castelo pela imaginação do amo. O hospedeiro prometeu abundância quase fabulosa, porém, a cada pedido de Sancho, confessava uma falta: sem frangos, sem galinhas, sem vitela, sem cabrito, restavam umas mãos de vaca cozidas com grão-de-bico, cebola e toucinho.
Sancho aceitou o prato com entusiasmo, entendendo que pouco importava serem mãos ou unhas se viessem quentes e substanciosas. Na hora da ceia, Dom Quixote se recolheu ao aposento, separado por parede fina de outro quarto. Dali ouviu uma voz pedir a certo dom Jerónimo que, enquanto chegava a comida, lessem outro capítulo da segunda parte de Dom Quixote de la Mancha. Ao ouvir o próprio nome, o cavaleiro pôs-se de pé. Escutou que o livro tratava de disparates e, pior ainda, pintava Dom Quixote como desenamorado de Dulcineia. Não suportou o golpe. Ergueu a voz e declarou que quem dissesse tal coisa mentia, pois Dulcineia não podia ser esquecida e nele não cabia esquecimento.
Os homens do outro quarto entraram admirados. Eram dom Juan e dom Jerónimo, leitores da continuação apócrifa, e logo reconheceram diante de si o verdadeiro Dom Quixote, muito diverso daquele que um autor atrevido punha em circulação. Entregaram-lhe o livro. Ele o folheou por pouco tempo e achou nele faltas suficientes para condenar o todo: palavras do prólogo que lhe desagradavam, linguagem de sabor aragonês e erro grave no nome da mulher de Sancho, chamada ali Mari Gutiérrez em vez de Teresa Pança. Sancho indignou-se com essa troca e perguntou se também lhe haviam mudado o nome. Os cavalheiros responderam que o livro o tratava como comilão, simples e sem graça, figura bem inferior ao escudeiro conhecido pela primeira história.
Dom Quixote aceitou cear com os dois, enquanto Sancho ficou senhor da panela e do hospedeiro. Durante a conversa, dom Juan perguntou por Dulcineia, e o cavaleiro relatou o encantamento da dama em figura de lavradora, a descida à cova de Montesinos e a ordem de Merlín sobre os açoites de Sancho. Os ouvintes se espantavam alternadamente com a elegância do relato e com a substância delirante do que era contado, incapazes de decidir onde terminava a discrição e começava a loucura. Sancho entrou depois, já satisfeito de comida, e declarou que o autor falso deveria ter inventado outros dois viajantes, pois o verdadeiro amo era valente, discreto e enamorado, e o verdadeiro escudeiro podia ser simples e gracioso, sem se tornar bêbado nem glutão.
Don Juan quis que Dom Quixote lesse mais do livro para comentar seus erros, porém o cavaleiro recusou. Dava-o por lido e por necio, sem conceder ao autor o gosto de saber que seus olhos haviam passeado por aquelas páginas. Quando perguntaram aonde ia, respondeu que seguia para Zaragoza, às justas do arnês. Don Juan informou que o livro falso já mandara seu Dom Quixote a essa cidade. A decisão veio imediatamente: o verdadeiro não poria os pés em Zaragoza, para que o mundo visse a mentira do historiador moderno. Iria a Barcelona, onde também havia ocasião de mostrar valor. Ao amanhecer, despediu-se dos novos amigos batendo na parede do aposento. Sancho pagou ao hospedeiro com largueza e deixou conselho seco: que gabasse menos a fartura da venda ou tratasse de tê-la mais provida.