Capítulo 6 - Sancho entra na estrada Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 6 de 133
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Capítulo 6 - Sancho entra na estrada

Capítulo 6 - Sancho entra na estrada

Nos dias em que a casa vigiava Alonso Quijano como quem vigia uma febre antiga, Dom Quixote aprendeu a esconder a própria chama. Falava pouco, comia o necessário, respondia com mansidão às perguntas da sobrinha e deixava que a ama celebrasse cada tarde sem aventura como se fosse vitória definitiva. Por dentro, continuava armando a guerra.

A perda da biblioteca não lhe parecia derrota doméstica, e sim agressão de encantadores. Se os livros haviam desaparecido, era porque sua missão já incomodava poderes ocultos. Se a porta fora apagada, era porque seus inimigos temiam a grandeza que ainda viria. Essa leitura alimentava nele uma paciência nova: não bastava sair outra vez; era preciso sair melhor preparado.

Foi então que pensou no que faltara em sua primeira jornada. Um cavaleiro andante precisava de escudeiro. A própria ordem das histórias exigia alguém que carregasse recados, cuidasse de provisões, testemunhasse feitos e recebesse, no futuro, parte das recompensas. A cabeça de Dom Quixote, privada dos livros, continuava cheia de regras tiradas deles.

Na aldeia havia um lavrador pobre, casado, pai de família, homem de corpo pesado e juízo rente ao chão, chamado Sancho Pança. Não era tolo, embora muitos o julgassem simples. Sabia o preço do pão, o peso da dívida, a distância entre promessa e panela cheia. Também sabia que a pobreza torna certas fantasias mais audíveis, sobretudo quando chegam vestidas de oportunidade.

Dom Quixote o procurou sem alarde. Falou-lhe de aventuras, de fama, de serviços prestados ao mundo e de recompensas próprias aos fiéis companheiros de cavaleiros. Sancho ouviu com cautela, coçando a barba, desconfiado da armadura velha e da solenidade excessiva. Quando o fidalgo mencionou a possibilidade de conquistar uma ilha e entregá-la ao escudeiro para governo, alguma coisa se abriu em sua imaginação prática.

Uma ilha, para Sancho, tinha gosto de comida garantida, respeito público, roupa melhor para a mulher, futuro menos estreito para os filhos. Não imaginava mapas nem batalhas navais. Imaginava uma cadeira alta, vizinhos obedecendo, o nome de sua família pronunciado com consideração. A promessa absurda encontrou nele um desejo bastante real.

Teresa, sua mulher, recebeu a ideia com a severidade de quem conhece a casa por dentro. Perguntou que ilha era essa, onde ficava, quem a entregaria, como se governava terra que ninguém sabia apontar. Sancho respondeu como podia: se homens importantes prometiam, talvez soubessem alguma coisa. E se nada viesse, ao menos haveria salário, comida de estrada, talvez alguma moeda perdida entre os feitos do amo.

A verdade é que Sancho não acreditava como Dom Quixote acreditava. Ele entrava na aventura por uma mistura de esperança, necessidade e curiosidade. Via a loucura do fidalgo, mas também via nele uma espécie de generosidade perigosa. Dom Quixote podia confundir venda com castelo, mas falava de honra como quem oferece lugar no mundo a homens que o mundo quase nunca chama pelo nome.

Combinaram a partida em segredo. Dom Quixote preparou as armas remendadas, escolheu palavras graves para a despedida que não faria e tornou a visitar Rocinante com olhos de comandante. Sancho arrumou um jumento, alforjes, algum pão, queijo, cebola e vinho. Onde o cavaleiro levava destino, o escudeiro levava mantimento. Entre os dois, sem que ainda percebessem, nascia a forma mais duradoura da aventura.

Antes do amanhecer, quando a aldeia ainda dormia e os galos pareciam hesitar diante do frio, os dois saíram. Dom Quixote ia ereto sobre Rocinante, certo de que o mundo enfim receberia sua segunda e mais verdadeira aparição. Sancho seguia atrás, balançando no jumento, medindo mentalmente a distância entre casa, promessa e perigo.

A estrada abriu-se seca diante deles. Para Dom Quixote, cada sombra podia esconder agravo, cada poeira podia anunciar exército, cada moinho distante podia ocultar uma prova destinada aos valentes. Para Sancho, a mesma estrada era pedra, fome futura, sede possível e conversa necessária para encurtar o medo. Ainda assim, seguia. A ilha, mesmo improvável, puxava-o para a frente.

Dom Quixote falou longamente sobre o dever dos cavaleiros, a glória dos antigos, a obediência devida a Dulcineia e a fortuna reservada aos escudeiros leais. Sancho respondeu com provérbios, perguntas sobre pagamento e observações sobre o estado do tempo. O cavaleiro erguia cada frase até o céu; o escudeiro trazia cada ideia de volta ao chão. Daí nasceria a conversa que sustentaria a estrada.

Quando o sol cresceu, a Mancha revelou suas linhas duras: campos abertos, vento insistente, homens pequenos contra uma paisagem sem consolo. Dom Quixote sentiu que a história voltava a obedecer-lhe. Sancho, olhando adiante, viu construções altas movendo braços ao longe e pensou apenas que talvez houvesse trabalho, farinha ou gente por perto.

O cavaleiro, porém, apertou a lança. Seus olhos mudaram antes de suas palavras. Onde Sancho via moinhos, Dom Quixote começava a ver gigantes. A segunda saída encontrava sua primeira grande prova, e o escudeiro, que ainda calculava o valor de uma ilha prometida, estava prestes a descobrir quanto custava caminhar ao lado de um homem que transformava o mundo antes de tocá-lo.

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