Capítulo 48 - O fim do relato do cativo
Capítulo 48 - O fim do relato do cativo
O cativo retomou a história no ponto em que a barca ainda tremia entre Argel e a liberdade. Disse que a madrugada se abriu sem prometer misericórdia. O mar continuava instável, e os fugitivos, cansados, já não sabiam se a costa que viam era ameaça ou caminho. Zoraida ia coberta contra o vento. Seus olhos não voltavam para trás. A decisão que a trouxera até ali parecia agora maior que o medo.
Durante horas remaram com dificuldade. O perigo de corsários e patrulhas ainda os perseguia, mesmo quando nenhuma vela aparecia ao longe. Em fuga, a imaginação vê inimigo em cada sombra. Alguns companheiros quiseram tomar rumo diferente; outros temiam que a água e o cansaço os vencessem antes de alcançarem abrigo. O cativo, apoiado pela firmeza de Zoraida, insistiu que seguissem para terras cristãs.
Houve momentos de desespero. A comida era pouca, a sede crescia, e o mar parecia multiplicar distâncias. Zoraida ofereceu parte do que levava para manter os homens unidos. Aquilo segurou a cobiça e lembrou a todos que a salvação, naquele barco, dependia de uma comunidade frágil. Quem fraquejasse, afundaria os demais. Quem traísse, perderia também a própria esperança.
Na venda, Sancho escutava com respeito raro. Talvez porque fome, sede e medo no mar fossem coisas compreensíveis mesmo para quem nunca governara ilha. Dom Quixote, ao contrário, via na viagem matéria de epopeia. Disse em voz baixa que Zoraida merecia ser cantada por poetas. O cura não discordou. Algumas coragens merecem poesia, mesmo quando nascem longe dos livros de cavalaria.
O cativo contou que a fortuna, depois de tanto testar, deu enfim sinal favorável. Avistaram costa onde podiam aproximar-se sem cair de imediato em mãos inimigas. Ainda assim, o desembarque foi cercado de cautela. Havia receio de serem confundidos com saqueadores, mouriscos fugitivos ou gente suspeita. A presença de Zoraida, com vestes e língua estrangeiras, confirmava a aventura e aumentava a desconfiança.
Quando pisaram terra mais segura, o cativo sentiu que o corpo ainda balançava como se o mar continuasse por dentro. Zoraida ajoelhou-se ao tocar o chão. Não sabia ainda como seria recebida, batizada, nomeada, compreendida. Tinha deixado uma vida e alcançado outra margem. Entre uma e outra, havia perdas que ninguém naquela praia podia medir.
Foram acolhidos primeiro com cautela, depois com compaixão. O cativo explicou quem era, de onde vinha, como fora preso, como Zoraida o ajudara e por que ela desejava a fé cristã. Alguns ouviram com maravilha; outros, com suspeita. O olhar do mundo demora a acompanhar a mudança de destino de uma pessoa. A história, as joias restantes, os testemunhos dos companheiros e a firmeza de Zoraida acabaram abrindo caminho.
A partir daí, disse ele, começou outra viagem: deixavam para trás a fuga de Argel e tentavam regressar ao mundo cristão. Buscaram lugares seguros, encontraram ajuda, perderam dinheiro, ganharam proteção, enfrentaram perguntas. Zoraida precisou aprender palavras, costumes e receios novos. O cativo precisou aprender que salvar-se do cativeiro não devolve imediatamente todos os anos perdidos. A liberdade também exige aprendizagem.
Doroteia ouviu com atenção profunda. Lucinda também. A história de Zoraida tocava algo que ambas conheciam: a passagem entre o lugar imposto e o lugar escolhido. Fernando e Cardenio, homens acostumados a pensar em honra como nome público, pareciam perceber ali outra espécie de honra, feita de ruptura, fé e coragem solitária.
O cativo explicou então como chegaram, por muitos desvios, àquela venda. Ainda havia providências por cumprir. Zoraida precisava de acolhimento religioso e social mais firme. Ele procurava modo de recompor vida, nome e sustento. A estrada os trouxera até ali como trazia todos: com fome, cansaço e história inacabada. Em Argel, o futuro tinha paredes; agora vinha aberto, incerto, exigente.
Zoraida foi convidada a falar e respondeu pouco. Suas palavras em castelhano eram frágeis; sua vontade, firme. Disse apenas, com ajuda do cativo, que queria ser cristã e que confiava em Maria. O cura recebeu a declaração com delicadeza, sem transformar sua coragem em espetáculo. Prometeu ajudá-la no que fosse necessário quando chegassem a lugar adequado.
Dom Quixote declarou que, se algum inimigo tentasse reclamar Zoraida, teria de passar por sua lança. Sancho, já menos disposto a ironias diante daquela história, disse que também ajudaria, desde que o inimigo não viesse por mar. A venda riu de leve, e esse riso pareceu bom. Depois de tanto perigo, rir sem crueldade era forma pequena de descanso.
O relato terminou. A venda aquietou-se, agora de modo diferente do que acontecera após o Curioso Impertinente. A história de Anselmo deixara ruína criada pela desconfiança; a do cativo e de Zoraida deixava cansaço, risco e esperança. Uma casa se perdera por exigir certeza demais. Outra ficara para trás porque uma mulher buscara liberdade e fé.
O cura agradeceu ao cativo. Fernando ofereceu ajuda. Doroteia e Lucinda cuidaram de Zoraida como podiam. O vendeiro, que media o mundo por camas, comida e pagamento, pareceu também tocado, embora disfarçasse perguntando quem ocuparia qual aposento. Sancho voltou a lembrar que histórias longas abrem apetite. Ninguém o contradisse muito, pois era verdade prática.
A venda, então, preparou-se para nova noite. O relato do cativo se encerrara, e a chegada dele e de Zoraida acrescentara mais fios ao grande nó da estalagem. Dom Quixote ainda precisava ser conduzido para casa; Micomicona ainda existia enquanto útil; outros viajantes podiam chegar; contas podiam ressurgir; a estrada chamava. O mundo de Cervantes não deixava repousar por muito tempo.
Por alguns instantes, porém, houve uma ordem rara. O cativo terminara de falar. Zoraida estava viva, em terra cristã, cercada por pessoas que começavam a vê-la além da condição de estrangeira. E todos, mesmo Dom Quixote à sua maneira, compreenderam que nem toda aventura pede castelo encantado. Algumas começam numa janela, descem por uma cana com bilhete e enfrentam o mar até encontrar um lugar onde possam ser contadas.