Capítulo 66 - O salário de Sancho
Capítulo 66 - O salário de Sancho
A ama, vendo que Sancho entrara para conversar a sós com Dom Quixote, saiu da casa com mais pressa do que prudência e foi procurar Sansón Carrasco. Levava nos olhos o medo de quem já via a sela posta, o cavalo magro no pátio e o fidalgo perdido por caminhos que nenhuma reza doméstica alcançava. Encontrou o bacharel e pediu-lhe, quase sem fôlego, que acudisse contra aquela nova loucura. Se ele era homem de letras, dizia ela, que usasse as letras para prender Dom Quixote à cama, à aldeia e ao caldo quente. Sansón ouviu tudo com rosto grave, prometeu ajudar e despediu a mulher com palavras tão bem arrumadas que ela voltou para casa acreditando ter encontrado defesa.
O bacharel, porém, tinha outro desígnio. Sabia que impedir Dom Quixote pela força só daria mais brilho à vontade do cavaleiro. Melhor seria empurrá-lo a sair sob forma que permitisse seguir-lhe os passos e preparar remédio mais eficaz. Guardou esse pensamento e, enquanto a ama voltava à sua vigília, Dom Quixote e Sancho discutiam dentro do quarto. Sancho, depois de ouvir promessas de ilha, fama, governo e honras futuras, pediu licença para falar de coisa menos gloriosa. Disse que sua mulher ficava com filhos, casa, necessidades e espera. Por isso, antes de nova saída, convinha acertar salário certo por mês, além das mercês que pudessem vir da fortuna.
Dom Quixote recebeu a proposta como quem ouve ranger uma porta em templo. Explicou que jamais lera em livro algum que escudeiro de cavaleiro andante servisse por soldada fixa. Os escudeiros entram na aventura por lealdade, esperança e participação nas glórias do amo; depois, quando a vitória chega, recebem ilhas, condados, honras e recompensa muito acima de qualquer salário miúdo. Se Sancho queria transformar cavalaria em contrato de lavoura, buscasse outro amo, porque ele, Dom Quixote, podia sair sem escudeiro. A ameaça acertou Sancho no ponto exato. A ilha, ainda invisível, valia mais para ele que qualquer conta mensal, e nenhum vizinho lhe pagaria por sonhar tão alto.
Sancho tentou salvar as duas coisas. Disse que não pedia por desconfiança, e sim por ordem de casa; Teresa Pança não se alimentava de esperança, nem Sanchico crescia com promessas, nem Mari Sancha podia casar levando no enxoval governo futuro. Dom Quixote respondeu que a honra requer paciência e que muitos grandes bens entram no mundo por porta estreita. O escudeiro coçou a cabeça, pensou nos alforjes, no rucio e na quantidade de pancadas que uma promessa costuma esconder, e acabou cedendo. Iria sem soldada, confiado à palavra do amo e ao que Deus pusesse no caminho. Pedia apenas que, chegando a ilha, não se lembrassem tarde demais de quem carregara fome, recados e feridas.
Nesse ponto entrou Sansón Carrasco. Fingiu surpresa ao encontrar os dois em ajuste tão sério, louvou a coragem de Dom Quixote, elogiou a prudência de Sancho e pôs sua autoridade de bacharel a serviço da partida. Disse que o mundo precisava de braços como os do cavaleiro e de bom senso como o do escudeiro. Dom Quixote inflamou-se com o apoio. Sancho, ouvindo um letrado falar bem de sua pessoa, sentiu crescer a própria importância. Ficou combinado que a saída se faria dentro de poucos dias, antes que o cura e o barbeiro pudessem atravancar o intento com sermões, lágrimas ou chaves escondidas. Sansón ofereceu segredo e conselho, embora sua cabeça já calculasse outra jogada.
A ama e a sobrinha desconfiavam de tudo. Pela casa, cada silêncio parecia conspiração e cada objeto fora de lugar anunciava fuga. Dom Quixote, para despistá-las, falava de repouso, elogiava a sopa, perguntava por vizinhos e deixava as armas quietas. Sancho ia e vinha com ar de quem procura coisa perdida, recolhendo correias, remendando alforjes, examinando o rucio e escondendo de Teresa a metade do que prometera contar. Na superfície, a aldeia continuava igual. Por baixo, três vontades trabalhavam: a do cavaleiro, desejosa de estrada; a do escudeiro, presa ao governo possível; e a de Sansón, que abria caminho para curar a loucura por meio dela mesma.