Capítulo 25 - A ingratidão dos libertos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 25 de 133
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Capítulo 25 - A ingratidão dos libertos

Capítulo 25 - A ingratidão dos libertos

Os galeotes estavam livres, mas a liberdade que receberam de Dom Quixote não tinha a forma que ele imaginava. Para o cavaleiro, cada corrente quebrada era dívida de honra com Dulcineia del Toboso. Para os libertos, cada elo solto era apenas chance de desaparecer antes que a justiça voltasse com reforços. Entre essas duas ideias, a gratidão durou pouco.

Dom Quixote ordenou que todos seguissem imediatamente para Toboso, onde deveriam apresentar-se diante de Dulcineia e contar, um a um, como haviam sido libertados pelo Cavaleiro da Triste Figura. Os homens escutaram com impaciência. Alguns ainda esfregavam os pulsos marcados. Outros olhavam para os montes próximos. Gines de Pasamonte, mais atento que todos, media a distância entre a ordem absurda e a primeira vereda de fuga.

Gines respondeu que era impossível cumprir tal mandato. Disse que homens recém-libertos das galés não podiam caminhar em grupo por estradas públicas, muito menos procurar uma dama desconhecida para fazer relato de suas culpas. Seria o mesmo que entregar-se de novo. A fala tinha lógica, mas vinha temperada de insolência. Dom Quixote ouviu nela menos prudência que desrespeito.

O cavaleiro endureceu. Lembrou aos galeotes que a liberdade não os dispensava da cortesia. Tinham obrigação de reconhecer o favor recebido. Se não podiam ir todos juntos, que fossem separados; se temiam guardas, que fossem escondidos; mas que fossem. Dulcineia deveria saber que seu cavaleiro aumentara a justiça do mundo.

Sancho puxou discretamente a manga do amo. Pediu que deixasse os homens partir. Aqueles rostos, dizia, não prometiam devoção; prometiam problema. Dom Quixote não cedeu. Acreditava que uma boa ação cria nobreza em quem a recebe. Sancho, mais vivido em pancadas recentes, suspeitava que uma boa ação às vezes apenas solta gente perigosa.

Os galeotes começaram a rir. Primeiro baixo, depois com mais atrevimento. Um deles pegou uma pedra. Outro imitou. Gines deu o tom: se o cavaleiro queria resposta para Dulcineia, que levasse ele mesmo a mensagem das pedras. Antes que Dom Quixote pudesse investir, a primeira voou. Acertou perto. A segunda veio melhor. Logo uma chuva de pedras caiu sobre cavaleiro, escudeiro, Rocinante e asno.

Dom Quixote tentou erguer a lança, mas estava cercado por homens que já não tinham correntes, nem gratidão, nem vontade de ouvir discursos. Sancho se abaixou como pôde, protegendo a cabeça e amaldiçoando, em silêncio, a misericórdia mal aplicada. Rocinante recuou. O asno deu passos confusos. O elmo de Mambrino, ou bacia, ressoou com uma pancada que a fez parecer menos encantada e mais metálica.

Os libertos não se contentaram com as pedras. Tomaram o que puderam: peças de roupa, pequenos pertences, restos de provisão. Gines de Pasamonte, especialmente ligeiro, sumiu entre o pó e os arbustos com a habilidade de quem nascera para escapar. Em pouco tempo, o grupo desapareceu em direções diversas, deixando para trás a estrada revolvida, os guardas derrotados ao longe e os libertadores mais pobres do que antes.

Dom Quixote ficou no chão, atônito. Custava-lhe aceitar que homens libertados por ele pudessem responder daquele modo. Procurou explicação entre encantadores, ingratidão universal e rudeza de gente baixa. Sancho não precisava de explicação. Para ele, o caso era claro: tinham soltado criminosos e recebido pagamento próprio de criminosos.

Ainda assim, o escudeiro ajudou o amo a levantar. Recolheu o que restava, ajeitou os animais e olhou a estrada com medo de que os guardas voltassem. Esse pensamento, por fim, entrou também na cabeça de Dom Quixote. Libertar condenados do rei não era aventura que se explicasse facilmente a oficiais armados. Se permanecessem ali, poderiam trocar pedras por prisão.

Sancho sugeriu que se escondessem. Dom Quixote, depois de breve resistência, aceitou que a prudência podia servir à cavalaria quando a injustiça do mundo ainda não estava pronta para entender seus feitos. Serra Morena, com seus caminhos ásperos e esconderijos naturais, apareceu como destino conveniente. Ali poderiam escapar da perseguição e talvez encontrar novas ocasiões de glória.

Partiram feridos e apressados. A estrada aberta ficou para trás; os montes começaram a aproximar-se. Dom Quixote levava a convicção machucada, mas viva. Sancho levava a certeza de que toda aventura tinha conta, e que quase sempre ela vinha parar em suas costas. No alto, Serra Morena esperava, cheia de solidão, desvarios e histórias partidas.

Assim terminou a liberdade dos galeotes para quem a concedera. Para os libertos, fora fuga. Para Dom Quixote, serviço mal compreendido. Para Sancho, lição dura: nem todo acorrentado é inocente, e nem toda corrente quebrada abre caminho para gratidão.

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