Capítulo 9 - O manuscrito e o fim da batalha Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 9 de 133
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Capítulo 9 - O manuscrito e o fim da batalha

Capítulo 9 - O manuscrito e o fim da batalha

A história havia deixado Dom Quixote e o homem da Biscaia suspensos no instante mais perigoso, ambos com as espadas erguidas, ambos certos de que o próximo golpe decidiria mais do que uma briga de estrada. Era como se o próprio relato tivesse perdido o folego diante da cena: de um lado, o cavaleiro da Mancha; do outro, um escudeiro robusto, irritado e protegido por uma almofada arrancada da carruagem.

Essa interrupção, que em qualquer história comum pareceria descuido, aqui fazia parte do encanto e da suspeita. Quem narrava confessava não ter encontrado, naquele ponto, mais notícias escritas sobre o caso. A aventura ficara quebrada no ar, com metal, poeira e medo parados como figuras de pintura. E a falta do desfecho doia justamente porque Dom Quixote, com toda a sua loucura, já parecia exigir cronista próprio.

O narrador procurou por rastros. Pensou nos arquivos da Mancha, nas memorias das aldeias, nos papéis esquecidos que o tempo costuma devorar sem pedir licença. Não queria acreditar que um homem tão entregue a uma fantasia pudesse ter ficado sem alguém que registrasse seus feitos. Afinal, nos livros de cavalaria, nenhum cavaleiro importante caminhava pelo mundo sem sábio, mago ou historiador atento às suas glorias e disparates.

A resposta apareceu onde as grandes respostas às vezes se escondem: entre papéis velhos vendidos na rua. Em Toledo, no mercado de Alcana, o narrador encontrou uns cadernos escritos em caracteres arabes. Não podia le-los, mas reconheceu neles a promessa de uma história. Chamou um mourisco que soubesse traduzir e, pela risada do homem ao abrir as folhas, percebeu que havia ali coisa viva.

O riso vinha de uma nota sobre Dulcineia del Toboso, lembrada não como dama celestial, mas como mulher de mão excelente para salgar porcos. A observação, grosseira e doméstica, abria uma fenda deliciosa na imagem ideal que Dom Quixote carregava. Justamente por isso, parecia verdadeira. A grande dama dos pensamentos do cavaleiro voltava ao chão da Mancha, com cheiro de trabalho, sal e carne.

Quando o tradutor leu o título, a suspeita virou certeza: aqueles papéis continham a história de Dom Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador arabe. O narrador comprou tudo com pressa, levou o tradutor consigo e mandou verter os cadernos para a lingua comum, pedindo que nada fosse tirado nem acrescentado. Assim a história recuperou o fio perdido.

No primeiro papel, vinha desenhada a própria batalha interrompida. Dom Quixote aparecia sobre Rocinante, seco e comprido como se o cavalo fosse também uma frase exagerada. Sancho segurava o jumento, de barriga e pernas bem marcadas. O biscainho estava com a espada erguida e a almofada diante do corpo, pronto para receber ou devolver a desgraça.

Retomada a cena, foi o homem da Biscaia quem golpeou primeiro. O corte veio com tanta força que, se a lamina tivesse descido inteira, talvez ali terminassem a carreira do cavaleiro e todas as promessas feitas a Sancho. Mas a sorte, que parecia gostar de conservar Dom Quixote para novas quedas, desviou parte do dano. Ainda assim, o golpe arrancou pedacos da armadura e feriu-lhe a orelha.

A dor acendeu nele uma fúria limpa. Dom Quixote se ergueu nos estribos, segurou a espada com as duas mãos e descarregou sobre o adversário um golpe capaz de romper almofada, orgulho e prudência. O biscainho sangrou pelo rosto, perdeu o equilíbrio e acabou caindo da mula, mais vencido pelo impacto e pelo susto do que por qualquer elegância de combate.

Dom Quixote desceu de Rocinante e correu até ele com a ponta da espada diante dos olhos do inimigo. Exigiu rendição. Se o homem recusasse, prometeu cortar-lhe a cabeça. A cena era terrível e ridícula ao mesmo tempo: um cavaleiro que inventara a causa da batalha agora cobrava do vencido a seriedade de uma lei imaginária.

As mulheres da carruagem, apavoradas, suplicaram pela vida do biscainho. Dom Quixote aceitou poupa-lo, mas impos uma condição: o homem deveria ir ao Toboso, apresentar-se diante de Dulcineia e contar-lhe como fora derrotado por seu cavaleiro. As damas prometeram tudo sem discutir. Ninguém ali tinha força nem vontade de perguntar quem era Dulcineia ou por que aquela viagem absurda seria necessária.

Assim terminou a batalha. Não com justiça, nem com entendimento, mas com uma promessa arrancada pelo medo. Dom Quixote saiu convencido de que acrescentara nova honra ao próprio nome. Sancho, ainda dolorido das pancadas dos criados, viu na vitória uma possibilidade prática e logo pensou na ilha que lhe fora prometida. A fantasia do amo continuava perigosa, mas também parecia, por instantes, capaz de produzir recompensas.

O verdadeiro ganho, porém, era outro: a história encontrara sua segunda voz. Daquele ponto em diante, Dom Quixote já não seria apenas homem confundindo mundo e livros. Seria também personagem de papéis achados, traduzidos, comentados e duvidosos. A aventura passava a carregar uma pergunta dentro de si: quem conta a verdade quando todos, até o narrador, dependem de manuscritos, tradutores e fé?

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