Capítulo 106 - O doutor Pedro Recio
Capítulo 106 - O doutor Pedro Recio
A história volta a Sancho, que foi levado do tribunal a um palácio onde deveria jantar. As mesas estavam postas com fartura, e ele, depois de tantas sentenças, olhava os pratos como quem reconhece verdadeira razão de Estado. Mal se sentou, porém, aproximou-se um personagem de varinha na mão. A cada prato que punham diante do governador, o homem tocava nele e mandava retirá-lo. Frutas foram condenadas por úmidas; carnes quentes, por perigosas; perdizes, por agravarem certos humores; coelhos, por comida peluda; vitela, por pesada; a grande panela, orgulho da cozinha, também foi afastada, embora Sancho a olhasse como cidade perdida.
O censor dos pratos apresentou-se como doutor Pedro Recio de Agüero, natural de Tirteafuera, formado em medicina. Sua obrigação era conservar a saúde do governador, e para isso não deixaria que comesse coisa capaz de ofendê-lo. Explicou que os governadores vivem cercados de negócios, ardis, venenos e mudanças de humor; assim, convinha dar-lhes alimento leve, pouco e seguro. Sancho perguntou se afinal havia naquele jantar algo que não fosse suspeito. O doutor ofereceu algumas obreias e um pouco de marmelada, por serem sutis e confortativas. O governador sentiu que a fome lhe subia mais que a paciência.
Sancho pediu então um pedaço de pão e quatro libras de uvas, pois preferia coisa simples e conhecida a tanta ciência que matava pela prudência. Acrescentou que, se o doutor voltasse a tocar em sua comida com aquela vareta, ele próprio quebraria a vara e talvez o doutor junto dela. Mandou que o deixassem comer, porque a melhor medicina para governador faminto era dar-lhe de jantar. Pedro Recio insistiu na obrigação de impedir excessos. Sancho respondeu que nenhum inimigo da ilha lhe parecia mais perigoso que médico capaz de matar de fome por zelo de saúde. Se persistisse, seria lançado em cadeia ou mandado para longe, onde poderia curar pedras e troncos.
Nesse ponto entrou um correio trazendo carta do duque. O papel avisava que inimigos ameaçavam a ilha naquela noite e que quatro pessoas disfarçadas buscavam tirar a vida de Sancho. Recomendava cautela com o que comesse e atenção aos rostos suspeitos. A notícia deu ao governador nova razão para olhar de lado o médico, que por pouco não foi tratado como envenenador oficial. Pediu ao secretário que guardasse a carta e mandou redobrar as rondas. Apesar de toda a ameaça, sua maior preocupação continuava sendo o vazio do estômago. Pediu novamente pão, queijo, fruta ou qualquer alimento que não precisasse de parecer de Salamanca.
O secretário tentou acalmá-lo dizendo que logo viriam negócios importantes. Sancho respondeu que de governo entendia pouco, mas de fome entendia muito, e que nenhuma ilha pode ser bem governada por barriga oca. Ainda assim, foi obrigado a receber um lavrador que entrava pedindo audiência. O homem, depois de rodeios intermináveis sobre sua aldeia, seus filhos, seu casamento e as graças de uma moça chamada Clara Perlerina, chegou enfim ao assunto. Queria que Sancho escrevesse ao sogro da pretendida, homem rico e orgulhoso, para que aceitasse seu filho como genro, embora o rapaz tivesse alguns defeitos de corpo e a moça, segundo o próprio lavrador, também viesse carregada de imperfeições.
Sancho escutava enquanto a fome lhe mordia por dentro. O lavrador multiplicava nomes, parentes, doenças e comparações, até que pediu também certa quantia, primeiro trezentos ducados, depois seiscentos, para ajudar no casamento. O governador entendeu que aquele homem não buscava justiça, conselho nem proteção da ilha, mas carta de recomendação e dinheiro. Perguntou se todos os súditos vinham governar o governador antes que ele governasse a ilha. O lavrador ainda tentou explicar que era pobre, honrado e pai zeloso, e que a autoridade de Sancho resolveria a recusa da família Perlerina.
Então o novo governador, que se contivera diante do alfaiate, do credor e da mulher astuta, perdeu a compostura. Mandou o lavrador sair antes que levasse sobre si a vara e o resto da paciência. Disse que mal pusera o pé na ilha e já queriam arrancar-lhe cartas, dinheiro e comida. Se o homem desejava casamento, que tratasse com padres, parentes e moedas próprias; se desejava esmola, que a pedisse sem embrulhá-la em genealogia interminável. Os presentes riram, e o lavrador se retirou entre queixas e reverências, sem saber ao certo se fora atendido, repreendido ou apenas expulso pela fome oficial.
Sancho voltou-se ao doutor Pedro Recio e ao secretário. Declarou que, se sua primeira noite de governo começava com ameaça de morte, jantar roubado, médico tirânico e lavrador pedinte, a ilha Baratária prometia menos descanso que as estradas com Dom Quixote. Ainda assim, jurou cumprir o ofício o melhor que pudesse, desde que lhe dessem algo de comer antes de outra sentença. A narrativa deixa-o nesse ponto, entre cartas, alertas e prato vazio, porque no castelo o cavaleiro ferido pelos gatos receberia visita mais inesperada que o próprio encantador felino.