Capítulo 73 - O duelo dos espelhos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 73 de 133
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Capítulo 73 - O duelo dos espelhos

Capítulo 73 - O duelo dos espelhos

O Cavaleiro do Bosque contou a Dom Quixote que servia Casildea de Vandalia, dama sem par em formosura e crueldade. Por ordem dela, enfrentara trabalhos desmedidos: desafiara a Giralda de Sevilha, pesara os Toros de Guisando, descera à sima de Cabra e correra províncias obrigando cavaleiros a confessar a supremacia de sua senhora. Entre esses vencidos, afirmou, estava o famoso Dom Quixote de la Mancha, homem seco, alto, de rosto alongado, amigo de Rocinante, senhor de Sancho Pança e devoto de Dulcineia. Com essa vitória, dizia ele, toda a fama do manchego passara para sua conta, como riqueza tomada em combate justo.

Dom Quixote ouviu com a mão perto da espada e a paciência tensa. Quis chamar mentiroso ao outro cavaleiro, mas preferiu responder com ordem. Disse que esse Dom Quixote era seu maior amigo, tão unido a ele que quase poderia falar por sua própria pessoa. As descrições batiam ponto por ponto, e justamente por isso denunciavam obra de encantadores. Talvez algum inimigo, desejoso de roubar a glória do verdadeiro cavaleiro, tomara sua aparência e aceitara derrota falsa. Havia prova recente do poder desses malfeitores: dois dias antes, Dulcineia fora mudada em lavradora diante de seus olhos. Se podiam rebaixar tal senhora, também podiam fabricar um Dom Quixote vencido.

O Cavaleiro do Bosque sustentou o contrário. Jurou que vira, combatêra e vencera o próprio Dom Quixote. O manchego, então, declarou que ali estava o verdadeiro e que defenderia essa verdade a pé, a cavalo ou como o adversário quisesse. O outro aceitou o desafio, mas propôs aguardar a manhã. Cavaleiros não deviam fazer armas em plena sombra, como ladrões. Combateriam ao nascer do sol, com pacto claro: o vencido ficaria à vontade do vencedor, desde que a ordem imposta permanecesse dentro das leis da cavalaria. Dom Quixote aceitou. Foram acordar os escudeiros, que dormiam abraçados à bota, e mandaram que tivessem prontos os animais para combate singular.

Sancho ficou gelado ao saber do duelo. Tinha ouvido do escudeiro do Bosque tantas bravatas sobre o senhor dele que já imaginava Dom Quixote partido em pedaços. Piorou quando o companheiro anunciou uma regra andaluza: enquanto os amos lutassem, os escudeiros também deveriam medir forças. Sancho recusou a lei com argumentos de paz e economia. Se houvesse multa por escudeiro pacífico, pagaria em cera, pois sairia mais barato que curar cabeça rachada. O outro ofereceu sacos de pano iguais para lutarem a golpes. Sancho quase aceitou, até descobrir que os sacos levariam pedras lisas dentro. Preferiu deixar a cólera adormecida. Se o outro tentasse despertá-la com bofetadas, ele usaria um pau para fazer a cólera alheia dormir em lugar definitivo.

A manhã trouxe luz, canto de aves e a visão que mais assustou Sancho: o escudeiro do Bosque tinha nariz enorme, curvo, verrugoso e escuro, pendendo sobre a boca como se quisesse governar o rosto inteiro. Sancho decidiu que receberia duzentas bofetadas antes de lutar contra semelhante figura. Dom Quixote olhou também o adversário: o cavaleiro já trazia a viseira baixa, uma casaca semeada de pequenos espelhos, plumas verdes, amarelas e brancas no elmo, lança grossa e porte de homem forte. Pediu que levantasse a viseira. O Cavaleiro dos Espelhos, como agora parecia justo chamá-lo, recusou, dizendo que haveria tempo para rostos depois da vitória de Casildea.

Montaram. Antes do encontro, o Cavaleiro dos Espelhos repetiu a condição do pacto. Dom Quixote confirmou. Sancho, vendo o nariz do outro escudeiro e temendo ficar sozinho com ele, pediu ajuda para subir num sobreiro e assistir dali ao combate. Dom Quixote percebeu a fuga, mas aceitou ajudá-lo. Enquanto Sancho subia, o adversário já tomara distância. Seu cavalo, tão pesado e mal disposto quanto Rocinante, avançou em trote pobre e parou no meio do campo, agradecido por qualquer desculpa. Dom Quixote, vendo movimento onde havia quase imobilidade, apertou Rocinante com energia rara. O cavalo respondeu como pôde, e por uma vez correu o bastante para parecer cavalo de batalha.

O encontro saiu torto e favorável. O Cavaleiro dos Espelhos ainda se embaraçava com o cavalo e a lança quando Dom Quixote chegou e o derrubou por cima da anca da montaria. O vencido caiu sem mover braço nem perna. Sancho desceu do sobreiro às pressas. Dom Quixote apeou-se, abriu o elmo do adversário para dar-lhe ar e viu o rosto do bacharel Sansón Carrasco. Chamou Sancho para testemunhar o poder dos encantadores. O escudeiro fez cruzes sobre si e, sem saber em que acreditar, sugeriu que o amo ferisse a boca do caído com a espada para matar o inimigo mágico escondido sob a figura do bacharel.

Antes que Dom Quixote cumprisse o conselho, o escudeiro narigudo chegou sem nariz e gritou que se detivesse. Aquele homem no chão era Sansón Carrasco, amigo de ambos, e ele próprio era Tomé Cecial, vizinho e compadre de Sancho. Mostrou as narizes falsas de pasta e verniz guardadas na algibeira. Sancho reconheceu o compadre, embora a explicação do amo sobre encantadores lhe tivesse fechado parte do entendimento. Sansón voltou a si. Dom Quixote pôs-lhe a ponta da espada diante do rosto e exigiu confissão: Dulcineia superava Casildea, e o vencido deveria ir ao Toboso apresentar-se à senhora encantada, depois voltar para contar o que se passasse. Sansón, moído e sem escolha, confessou tudo. Dom Quixote ainda acrescentou que o cavaleiro vencido antes jamais fora ele, e sim um duplo fabricado por magia. O derrotado aceitou cada palavra para poder levantar-se.

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