Capítulo 79 - As bodas de Camacho Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 79 de 133
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Capítulo 79 - As bodas de Camacho

Capítulo 79 - As bodas de Camacho

A aurora encontrou Sancho desperto antes do costume, puxado pelo cheiro das cozinhas mais do que por qualquer claridade. O prado de Camacho parecia povoado próprio, feito de tendas, mesas, fogos, espetos, caldeirões e gente ocupada em alimentar multidão. Havia bois inteiros no assador, carneiros, cabritos, aves, caça, pão amontoado, frutas, queijos, vinhos e panelas tão grandes que Sancho as olhou com respeito quase religioso. Aproximou-se de um cozinheiro e elogiou a liberalidade do noivo. O homem, satisfeito, mergulhou um caldeiro numa das meias tinajas e tirou dele galinhas e gansos, entregando tudo a Sancho com colher e licença, porque a riqueza de Camacho supria vasilha, fome e cerimônia.

Enquanto Sancho tomava posse daquele favor, Dom Quixote observava a entrada dos cavaleiros de festa. Lavradores montados em belas éguas corriam pelo prado, com arreios vistosos e cascavéis, gritando vivas a Camacho e Quitéria. Diziam que ele era tão rico quanto ela formosa, e que ela era a mais bela do mundo. Dom Quixote, ouvindo a última parte, murmurou que falavam assim porque jamais tinham visto Dulcineia do Toboso. Logo vieram danças. Primeiro a de espadas, com vinte e quatro moços vestidos de branco, girando lâminas e passos em ordem tão firme que até Dom Quixote, conhecedor de espetáculos cavaleirescos, admirou a precisão sem poder diminuir o louvor.

Depois entrou dança de donzelas muito novas, vestidas de verde, com cabelos dourados, guirlandas de flores e movimentos leves ao som de gaita zamorana. A honestidade dos rostos e a ligeireza dos pés deram ao prado outra qualidade de festa, menos ruidosa e mais limpa. Em seguida apareceu dança falada, feita de figuras alegóricas. De um lado vinha Cupido com asas, arco e setas; de outro, o Interesse, vestido com riqueza. Seguiam-nos ninfas com nomes escritos: Poesia, Discrição, Bom Linhagem, Valentia; do lado do Interesse vinham Liberalidade, Dádiva, Tesouro e Posse Pacífica. Diante delas erguia-se um castelo de madeira chamado Bom Recato, puxado por figuras agrestes cobertas de verde.

A dança representava disputa clara. Cupido disparava setas contra o castelo; o Interesse respondia com ouro, bolsas e promessas. A Poesia falava em versos, a Liberalidade oferecia grandeza, as demais figuras entravam e saíam conforme o som dos tamborins. Por fim, o Interesse lançou uma bolsa pesada contra o castelo. As tábuas se abriram, a donzela protegida ficou exposta, e uma corrente de ouro lhe foi posta ao pescoço, como se riqueza pudesse render o recato onde amor não conseguira entrar. Dom Quixote percebeu a intenção e disse que o autor da dança parecia mais amigo de Camacho que de Basílio. Sancho, olhando para seu caldeiro cheio de aves, declarou que seu galo era o vencedor, e que naquele dia se atinha a Camacho.

Dom Quixote repreendeu-o por seguir sempre quem vencia. Sancho respondeu com boca ocupada e razão prática: das panelas de Camacho saíam gansos, galinhas, lebres e coelhos; das de Basílio, se viessem ao caso, sairia água fraca. Disse que no mundo há dois linajes, o ter e o não ter, e que sua avó sempre se inclinara ao primeiro. O amo desejou vê-lo mudo algum dia. Sancho respondeu que a morte o faria calar em momento certo, pois ela come cordeiro e carneiro, rei e pobre, torre alta e choça baixa, sem reparar em idade, roupa ou título. Dom Quixote, surpreendido, reconheceu que, com termos rústicos, o escudeiro acabara dizendo coisa digna de pregador.

A festa continuou. As luzes do dia mostravam melhor o tamanho do gasto: palcos levantados, assentos para assistir às danças, músicos separados em grupos, criados correndo entre tendas, cozinheiros suados e convidados que se deixavam conduzir pela abundância. Camacho ainda não aparecera no centro da cerimônia, mas tudo ali falava por ele: cada panela, cada fita, cada dança, cada grito, cada corrente dourada da alegoria. Basílio, ausente, parecia mais presente por contraste, como se sua pobreza circulasse invisível entre as mesas. Dom Quixote conservava simpatia pelo rapaz e desconfiança da riqueza vitoriosa. Sancho, embora tivesse ouvido o caso, encontrava dificuldade em condenar homem capaz de alimentar tão largamente os desconhecidos.

Quando as danças cessaram por instantes, um movimento correu pelo prado. Os noivos vinham chegando, acompanhados pelo cura, pelos parentes e por gente principal dos lugares vizinhos. Quitéria apareceu vestida com riqueza que fazia Sancho esquecer qualquer imagem de simples lavradora: corais, veludo, fitas, anéis, cabelos longos e claros, compostura de palácio em corpo de aldeia. Dom Quixote achou-a bela, embora nenhuma beleza pudesse, para ele, tocar o lugar de Dulcineia. Camacho vinha satisfeito, cercado por honra, dinheiro e aplauso. O casamento parecia caminhar sem obstáculo, até que uma voz às costas da comitiva pediu que esperassem, e todos se voltaram para ver Basílio chegando vestido de luto e coroado de cipreste.

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