Capítulo 81 - A cova de Montesinos Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 81 de 133
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Capítulo 81 - A cova de Montesinos

Capítulo 81 - A cova de Montesinos

Dom Quixote ficou três dias com Basílio e Quitéria, recebendo gratidão dos noivos e certa admiração dos amigos que haviam visto sua lança impedir a vingança de Camacho. O cavaleiro tomava aquele caso como vitória limpa do amor antigo contra a riqueza recente, e falava dele com prazer. Sancho, embora satisfeito por ver Basílio vivo e Quitéria contente, lembrava as panelas do noivo rico com saudade quase física. Cada refeição mais pobre parecia-lhe censura do destino. Ainda assim, obedeceu quando o amo declarou que convinha seguir caminho para a cova de Montesinos, lugar famoso na Mancha por segredos antigos e narrativas que nenhum cavaleiro de nome poderia deixar sem visita.

Basílio lhes deu um guia: um primo seu, homem estudioso, amigo de antiguidades, genealogias, transformações, invenções e coisas que a maioria das pessoas deixa quietas por falta de tempo ou paciência. O primo mostrou-se feliz por acompanhar Dom Quixote, pois via naquela jornada ocasião de juntar matéria para livros que trazia na cabeça. Dizia preparar uma obra sobre trajes, librés e empresas, com cores e lemas de senhores antigos; outra, sobre invenções humanas esquecidas pelos autores; e outra ainda, sobre mudanças de nomes, fontes, rios e figuras lendárias. Sancho ouviu tudo com respeito desconfiado, porque o mundo já lhe parecia cheio demais de livros sem que fosse necessário fabricar outros.

A caminho da cova, o primo contou maravilhas do lugar e falou de Montesinos, Durandarte, Belerma, Guadiana e das lagoas de Ruidera como se todos fossem vizinhos ocultos debaixo da terra. Dom Quixote crescia a cada palavra. A promessa de descer a um centro antigo, tocado por amor, guerra e encantamento, parecia-lhe mais digna que muitas aventuras de superfície. Compraram cordas em povoado próximo, juntando comprimento bastante para baixar um homem por grande profundidade. Sancho examinou a corda com má vontade e declarou que sua parte na empresa seria segurar por cima, pois cada ofício tem limites, e o escudeiro não nasceu para procurar palácios debaixo do chão.

Chegaram enfim à cova. A boca se abria entre pedras, mato espesso, espinheiros e silvas. Antes de qualquer heroísmo, tiveram de abrir passagem com a espada e com as mãos, afastando ramos que defendiam a entrada como porteiros ásperos. De dentro saíram corvos, gralhas e morcegos, tantos e tão repentinos que Sancho se encolheu e o primo recuou, enquanto Dom Quixote recebia aquele voo como saudação própria de lugar encantado. Amarraram-lhe a corda ao corpo. O cavaleiro ajoelhou-se, encomendou-se a Deus e a Dulcineia, pediu a Sancho que não largasse o cabo e, com gravidade serena, entrou pela abertura escura.

Logo no começo, os de cima sentiram peso estranho. Dom Quixote ficou preso em saliências e ramos interiores, e precisou gritar para que lhe soltassem mais corda. Sancho obedeceu, embora cada braça que descia lhe parecesse vida do amo entregue a boca sem dentes. O primo contava a medida com atenção de escriba. A corda foi entrando toda, e quando já não havia mais que dar, os dois ficaram esperando. O silêncio durou bastante para que Sancho mudasse de cor. Chamou o amo algumas vezes, sem resposta. Disse que aquela curiosidade sairia cara e que Dulcineia, se fosse tão senhora, deveria pagar missa por quem morria procurando notícias dela em buraco de pedra.

Passada mais de meia hora, resolveram puxar. A corda subia pesada, frouxa em alguns momentos, tensa em outros, e Sancho já imaginava trazer apenas corpo sem fala. Quando Dom Quixote apareceu, vinha de olhos fechados, cabeça baixa e sono tão profundo que parecia morto. Tiraram-no para fora, deitaram-no sobre a relva e chamaram seu nome. Sancho sacudiu-lhe o peito. O primo procurou sinais de respiração. Aos poucos, o cavaleiro abriu os olhos, olhou em torno como quem volta de reino distante e pediu que ninguém o apressasse, porque acabava de ver coisas que fariam estremecer a imaginação dos maiores cronistas.

Sancho queria saber se vira comida, água ou caminho de saída; o primo queria saber nomes, datas e sinais úteis para seus livros; Dom Quixote queria silêncio, pois dizia ter estado em lugar onde passado e encanto falavam com voz própria. Pediu algo para comer, porque a alma retornara cheia de maravilha e o corpo, pobre companheiro, reclamava sustento. Sentaram-se ali mesmo. Enquanto mastigava, o cavaleiro prometeu contar tudo desde o princípio: como, depois da escuridão, descera a uma claridade impossível; como encontrara palácio de cristal; e como fora recebido por Montesinos em pessoa. Sancho, que já conhecia a elasticidade das visões do amo, preparou-se para ouvir e duvidar ao mesmo tempo.

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