Capítulo 65 - A sobrinha, a ama e a terceira saída Dom Quixote "de la Mancha" · Capítulo 65 de 133
Obra Menu

Capítulo 65 - A sobrinha, a ama e a terceira saída

Capítulo 65 - A sobrinha, a ama e a terceira saída

Enquanto Sancho e Teresa disputavam governos e casamentos, a ama e a sobrinha de Dom Quixote também não descansavam. Pelos movimentos do fidalgo, pelas perguntas sobre Rocinante, pelos olhos que fugiam para armas guardadas e pelo modo como se calava quando alguém mencionava estradas, ambas entenderam que a terceira saída se formava dentro da casa. Tentaram todos os caminhos para desviá-lo. A ama ameaçou queixar-se a Deus e ao rei, pedindo remédio para homem que insistia em andar por montes e vales buscando aventuras, palavra que para ela significava desgraça com outro nome.

Dom Quixote respondeu que ignorava o que Deus e o rei diriam de tais queixas, mas tinha pena dos monarcas obrigados a escutar pedidos sem fim. A ama, aproveitando a abertura, perguntou se na corte não havia cavaleiros. Havia muitos, respondeu ele, e eram necessários para ornamento dos príncipes. Ela então sugeriu que servisse ao rei quieto, na corte, sem expor ossos cansados a sol, frio e pancadas. Dom Quixote sorriu com paciência de mestre. Explicou que há cavaleiros cortesãos e cavaleiros andantes. Os primeiros viajam pelo mundo com os olhos postos em mapas, sem gastar sola nem sofrer fome; os segundos medem a terra com os próprios pés, enfrentam inimigos de carne e recebem do céu o ofício de socorrer aflitos.

A ama ouviu pouco e entendeu menos, mas a sobrinha tomou a palavra com coragem. Disse que aquelas histórias de cavaleiros andantes eram fábulas capazes de estragar bons costumes, e que, se não fossem queimadas, mereciam ao menos sinal público de vergonha. A frase feriu Dom Quixote mais do que espada. Chamou aquilo de blasfêmia contra a ordem que sustentava sua vida e repreendeu a moça por ousar julgar Amadís, Galaor e tantos nomes diante dos quais ela deveria baixar a voz. Se ela não fosse filha de sua própria irmã, afirmou, mereceria castigo exemplar. Mesmo assim, perdoava-a, lembrando que verdadeiros cavaleiros protegem donzelas, ainda quando elas falam sem saber.

A sobrinha não recuou. Disse que o tio sabia tanto, falava tão bem e podia até subir a um púlpito se lhe pedissem, mas caía no erro de pensar-se valente sendo velho, forte estando doente, reparador de injustiças quando mal cuidava de si, e cavaleiro sem possuir riqueza própria para tanto. Dom Quixote, em vez de se ofender de novo, tomou a censura como entrada para discurso maior. Falou dos linajes do mundo: uns começam humildes e sobem por virtude e fortuna; outros nascem grandes e conservam grandeza; outros descem até sumir; outros nunca alcançam nome digno de memória. O valor de uma casa, dizia ele, depende do modo como seus donos usam virtude, riqueza e liberalidade.

O cavaleiro pobre, prosseguiu, ainda pode mostrar nobreza por atos: sendo cortês, generoso, afável, comedido, caridoso e limpo de arrogância. Dois caminhos levam os homens à honra: letras e armas. Ele tinha mais inclinação às armas, e por elas seguiria, porque vontade, razão, fortuna e céu pareciam empurrá-lo por essa vereda. Conhecia os trabalhos da cavalaria andante, seus frios, fomes, feridas e noites sem cama, porém conhecia também os bens que dela nascem quando a força serve a justiça. A estrada da virtude é estreita, disse, e o caminho do vício largo; cada um termina onde seus passos o levam.

A sobrinha, já cansada e assustada, lamentou que o tio também soubesse fazer versos, discursos, doutrinas e qualquer ofício que lhe passasse pela cabeça. Apostaria, disse ela, que se quisesse ser pedreiro, levantaria casa em forma de jaula. Dom Quixote respondeu que, se os pensamentos cavaleirescos não lhe ocupassem os sentidos, não haveria curiosidade que sua mão não tentasse, nem mesmo jaulas ou palitos de dentes. A ama cruzou-se, certa de que cada palavra mostrava a doença mais viva. Nesse momento bateram à porta. Era Sancho Pança. A ama correu a esconder-se, pois o aborrecia como se ele trouxesse a estrada debaixo da camisa.

A sobrinha abriu. Dom Quixote recebeu Sancho com braços abertos e alegria que nenhum repouso doméstico lhe dava. Os dois se recolheram ao aposento, deixando as mulheres do lado de fora com a certeza de terem perdido outra batalha. Dentro, amo e escudeiro falaram baixo, juntando o que um chamava destino e o outro chamava oportunidade. A casa, que por alguns dias parecera devolver Alonso Quijano à aldeia, começou a servir de antecâmara para nova partida. Lá fora, panelas, roupas e rezas tentavam segurar o homem. Lá dentro, uma sela, um rucio, um cavalo magro e a promessa de Zaragoza já ocupavam o ar.

1/1
Menu

Fazer anotação